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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Um mortífero cancro social

03.10.20 | asal
Meu incansável Amigo Henriques
Aí envio mais uma reflexão relativa a um tema que é tão falado como repugnante, pelas consequências sociais que arrasta consigo.
Nunca será demais mostrarmos a nossa repugnância por ele. Refiro-me sobretudo à grande corrupção que cava as distâncias entre muito pobres e opulentos ricos.
Que a Paz e a Saúde estejam contigo e com todos nós, nesta tempestade de irritante e temível pestilência.
Um forte abraço do sempre ao dispor

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Florentino Beirão

 

O lodaçal da corrupção

 

O que temos lido e ouvido nos meios de comunicação social nos últimos tempos a respeito da gravidade da corrupção que grassa no nosso país é de nos deixar os cabelos em pé. Muitos até chegam a temer que todos os casos conhecidos não sejam ainda apenas uma ponta do iceberg. Implicados em denúncias de corrupção, têm sido algumas empresas, o mundo opaco e milionário do futebol, as autarquias, os banqueiros e alguns políticos. Todos têm fornecido aos tribunais tanto material que não tem havido mãos a medir, para examinar tantas resmas de papel. São os denominados megaprocessos, que levando muitos anos a organizar, muitos mais decorrer, até serem julgados. Alguns peritos desta matéria têm referido que estes monstros têm sido a maior causa do entupimento da nossa lenta Justiça. Daqui tem resultado que quando os envolvidos vão a julgamento, já passaram tantos anos, que poucos se recordam já dos indiciados. Os supostos corruptos, por vezes - até pode acontecer – não possam vir a comparecer no julgamento, por, entretanto, já terem falecido.

Por isso, a Justiça, por ser tão lenta, acaba por perder a sua eficácia. Garantir o contraditório sim, mas não num tão prolongado espaçado tempo, como poderá acontecer nos megaprocessos. Veja-se o caso do  ex–primeiro-ministro José Sócrates, o do banqueiro Ricardo Salgado e agora, certamente irá acontecer também com o ex-juiz Rui Rangel do Tribunal da Relação de Lisboa, um dos principais arguidos da Operação Lex. Um caso gritante de corrupção onde, supostamente, foram atacados os princípios gerais da independência e imparcialidade da Justiça, prejudicando a confiança dos cidadãos na mesma.   

O cidadão comum, perante tão medonha paisagem, certamente fica aterrorizado ao se aperceber do enorme atoleiro, em que o seu país se encontra mergulhado no campo da Justiça. Perante estas situações em que a Justiça é empurrada para as calendas, a pergunta que certamente ocorre a cada português poderá vir a ser: hoje, em quem é que podemos vir a acreditar?

Num recente inquérito internacional, a nível da UE, foi perguntado aos portugueses, segundo a sua perceção, qual seria o maior problema nacional que tem contribuído para o atraso económico do país. A resposta foi elucidativa, com 51% dos inquiridos a responderem que o principal responsável era a corrupção. Sendo assim, estamos a dar fortes argumentos aos que, a partir de alguns casos isolados, generalizam, para tentar minar o nosso regime democrático. Um alimento precioso para os populistas e demagogos da extrema–direita, a crescerem nas sondagens. Porém, a nível da corrupção, como noutros desatinos sociais, não devemos confundir a árvore com a floresta. De modo algum.

Sabendo nós que, infelizmente, a pequena e a grande corrupção alastra por toda a nossa sociedade e pela maior parte dos países do planeta, temos de assumir também que a cultura do nosso país, ao longo dos tempos, tem sido muito permeável a situações de pequena, média e grande corrupção.

Agora, que nos encontramos à espera de muitos milhões de euros, vindos do apoio da UE devido à pandemia, muitos, quase sempre os mesmos, já começaram a esfregar as mãos, à espera de que uma boa parte de tais verbas lhes venham a encher os bolsos, como tem acontecido em situações semelhantes, num passado recente.

Se tais ajudas vierem para todos os portugueses, a fim de lhes permitir vir a ter, após o seu longo confinamento, uma vida mais próspera e risonha, o que na realidade pode acontecer, é que poucos, escandalosamente por meios ilícitos, venham a acumular nas suas mãos grandes fortunas sem que ninguém os incomode. Face a esta perspetiva, o Presidente da República, Marcelo R. de Sousa, conhecedor do nosso histórico algo desastroso, já veio avisar os responsáveis que vão gerir estas volumosas verbas, que esta montanha de dinheiro deverá ser gasta criteriosamente e com sentido de justiça. Sem fugas. Só assim se poderá evitar que Portugal, apesar das verbas vindas da UE, continue a permanecer tristemente na cauda da Europa. Até já alguns antigos países de Leste o ultrapassaram.

Perante tudo isto, pergunta-se: como combater o lodaçal da corrupção do nosso país que tem comprometido não só o nosso desenvolvimento económico, como tem deixado para trás uma multidão de pobres e desempregados, sobretudo jovens? A Justiça célere e imparcial poderá vir a dar uma boa ajuda.

florentinobeirao@hotmail.com

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