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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Um livro que vale

27.04.18 | asal

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 Recensão de uma obra

 

  Eis uma obra que vale a pena ler se quisermos  ter uma visão mais objectiva sobre uma personalidade controversa que marcou a sociedade portuguesa durante um longo período (1926-1971) como Patriarca de Lisboa.

   O autor evita o panegírico fácil e a intenção apologética de outros escritos, baseando-se numa vasta bibliografia, obras, jornais, revistas e entrevistas a membros do governo de então e a fontes arquivísticas ainda mal exploradas. O texto é soberbamente enriquecido com ilustrações de origem fotográfica.

   Apenas uns dados preliminares para enquadrar  a vida deste homem do Minho, nascido em 1888 em Lousado, Vila Nova de Famalicão,  e falecido em Lisboa em 1977. Sentindo desde criança o apelo de Deus,  formou-se nos seminários da arquidiocese de Braga.  Concluído o curso de Teologia (1906-1909), rumou à Faculdade de Teologia de Coimbra onde se licenciou. É ordenado presbítero em Abril de 1911, no auge das perseguições à Igreja. Em 1912, em virtude do encerramento forçado da Faculdade de Teologia, matricula-se em Letras. Termina a licenciatura em Ciências Historico-Filosóficas em Outubro de 1916, com 19 valores, sendo logo convidado para reger a cadeira de História Medieval. Professor de prestígio e sacerdote zeloso e combativo, como exigiam os tempos, dedica-se ao apostolado universitário no âmbito do CADC, ao lado de Salazar, liderando a frente de defesa dos direitos da Igreja a existir na sociedade como instituição multissecular, uma evidência escamoteada pelo republicanismo positivista e anticlerical, que jurara eliminar a religião católica no espaço de duas gerações.

  Em Junho de 1928, é sagrado Bispo na Sé Nova de Coimbra, depois de ter resistido ao convite durante um ano. Só aceitou por obediência a Pio XI. No ano seguinte, é nomeado Patriarca e Cardeal, apenas com 40 anos, no contexto de uma polémica ainda não esclarecida, uma vez que uma corrente de católicos preferia o arcebispo de Évora (1920-1955), D. Manuel Mendes da Conceição Santos, homem culto, doutorado em Teologia por Roma, mais maduro, com um perfil de Pastor, discreto, devotado e piedoso.

  Muitas questões se levantam sobre a acção pastoral e política de D. Manuel Cerejeira. Menciono apenas algumas: qual o grau de complacência do Cardeal em relação à ditadura policial, sangrenta e clandestina do Estado Novo de Salazar? Que fundamento para os rumores de que ele próprio terá denunciado à PIDE padres, leigos da Acção Católica e outros membros da oposição? Qual o sentido do aparato das suas aparições públicas em actos do Estado? Como explicar o pacto de silêncio diante da expulsão do Bispo do Porto e a visita do Papa a Bombaim (1964), que deixou Salazar e o seu partido em polvorosa?  Por que não se pronunciou claramente contra a Guerra Colonial, deixando entrever uma aceitação Cardeal Cerejeira.jpgtácita?

 Estas e outra questões atravessam este livro, tornando-o, “original e estimulante”, como  diz D. Manuel Clemente.  Vale, pois, a pena lê-lo e reflectir sobre estas interrogações que têm muito a ver com as nossas vidas de cristãos ou não, mais ou menos comprometidos.

 

Coimbra, Abril, o mês dos cravos e das rosas a abrir.

            João Lopes, vosso criado.

 

 

Luís Salgado de MATOS, CARDEAL CEREJEIRA, Lisboa, Gradiva, 2018, 187pp. 11euros (Apresentação de D. Manuel Clemente)