Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Um livro em recensão - 3

João Lopes1.png

Conclusão do meu comentário ao livro de memórias de Alves JANA “O meu Seminário” (1963-!974) Edição do Autor, Abrantes, 2019.

 

    “Entretanto, na camaradagem que partilhava com a malta nova, comecei a sentir-me incomodado com a trilogia dos pontos fortes de todas as conversas masculinas: mulheres, noitadas e bebedeiras. Eram esses os troféus que exibiam na cantareira das suas conversas.” Op.cit. p.149-150

 

    Vou sintetizar o texto destas verdes memórias, pondo em confronto ou correlação pequenos trechos do enunciado narrativo, onde parecem cristalizar-se as funções nucleares ou momentos-charneira da “história”, e, assim, possuirmos uma visão sinóptica do evoluir dos acontecimentos determinantes e decisivos.

1º “ Queria ser padre” (p. 11), formulação de um projecto de vida, repetido em Portalegre “ (… iniciámo-nos num ciclo de estudos mais voltados para um futuro sacerdotal” (p.102). Passados poucos anos, já no estágio no Pego (1973-74),  ocorre o desmoronar deste belo sonho, a interrupção imprevista do projecto.  “O ano do estágio aproximava-se do fim. E a minha decisão ganhou forma e depois força: “ “Não, não vou por aí” ( J. Régio) p.156

É fácil detectar a relação antitética que opõe os dois extremos, separados por uma linha temporal de 10 a 11 anos, o tempo-duração  da “aventura” conjunta ( p. 156).

2º O paralelismo entre os educadores que exerceram uma influência marcante no destino do “herói”.( É recorrente, no texto, o uso do v. “marcar” para designar a força persuasiva do processo educativo) Destaca-se o P. Álvaro no despertar da sua vocação para a escrita e a sensibilidade aos mais desfavorecidos. Ele próprio  confessa: “  Devo, sem dúvida, também a ele as centenas  e centenas, os milhares  de trabalhos que até hoje dei à estampa.” (p.54)  O Dr. Bugalho, além de o treinar nas lides da Pastoral de proximidade,  transmitiu-lhe o gosto da investigação intelectual: “ Dele guardo - disse-lhe uma vez - um contributo decisivo na minha formação intelectual” (p. 106) O P. João Diogo incutiu-lhe o inestimável interesse pela Literatura, como actividade crítica por excelência:” O professor desafiava-nos a ler (os textos dos criadores e não as meras sebentas), a pensar, a criticar, sendo ele próprio crítico” (p.92). O nosso querido e saudoso José Rolo ensinou-o a ver cinema. “ Na sua morte prematura, senti que havíamos perdido alguém que havia ajudado a construir um tempo novo…) (P. 105)

Jana5.jpg

  3º A experiência pastoral na paróquia da Madalena ( Valadares, Porto)  já experimentada um tempo antes, no bairro do Atalaião, sob a orientação do P. Bugalho e a participação de uma equipa do Graal, e que, no percurso da vida do nosso herói ou do “EU-narrado”, desempenhou um papel fundamental,  quanto ao amadurecimento da sua vocação, na criação de um espírito de disponibilidade total para servir os outros, até mesmo os doentes do Sanatório, serviço que aceitou apesar de não saber como fazer. E ali entendeu que um sacerdote de qualidade não pode ser um intelectual puro; antes alguém que se aproxima das pessoas, mesmo e, sobretudo, dos doentes, tentando, por todas as maneiras, aliviar-lhes o sofrimento, recorrendo até às artes do ilusionismo: ”Por um lado, permitia-me sair para a cidade; por outro, era a oportunidade de “fazer” alguma coisa, agir, intervir, que só os livros não me eram suficientes”  (p.95). E, para não fugir  da temática da preparação pastoral, voltemos ao Estágio no Pego, para dizer que não foi uma experiência falhada e, que, apesar de vivida sob uma tensão permanente, dado o choque cultural  e religioso com  um povo, afeito a velhos ritos e devoções, indiferente aos ventos conciliares e, quantas vezes, mergulhado numa miséria carpideira, se saldou pela consciência mais profunda do que é ser “pastor”, apostado em ajudar a concretizar no todo de cada pessoa o plano salvífico de Deus.  Acompanhá-las, respeitando o seu ritmo lento, sem procurar efeitos rápidos e imediatos. E, em Valadares, com toda a preparação teórica e teológica de alto nível, do Instituto Superior de Estudos Teológicos ( ISET) não o prepararam, confessa, “ para resolver os dilemas que ali se me deparavam”(p154).

4.º Não deixa de ser curioso verificar a oposição ou contraste que se estabelece quanto à vivência da liberdade e aos seus limites e condicionamentos. Do “fechamento” do Gavião e Alcains e “abertura” relativa de Portalegre até um regime de quase auto-gestão em Valadares, que prima pela ausência de um “prefeito”, sendo que os estudantes acharam por bem constituírem-se em equipas de seis, experiência pioneira das comunidades de base, que, não obstante, não dispensava a assistência espiritual do P. Pinheiro, um conselheiro sábio e prudente, respeitador crítico da autonomia de cada um. “Mantinha-se à distância, mas com uma atenção continuada” (p . 145).

Jana2.jpg

5.º O  autor ( ou EU-narrador)  não se circunscreve aos limites temporais da história narrada.  Faz referência a pessoas com as quais se relaciona, após a sua desistência (pp.108 e 157); emite um juízo de valor sobre os cursos Dominique, diferente ou mesmo contrário à alegria da conversão que lhe provocara em Alcains, enquanto jovem. Como adulto, classifica tal tipo de cursos como” uma acção de controlo totalitário. (…) Hoje,  (o hoje que aponta, (como deíctico) para o momento da narração escrita, quase 40 anos depois) sei, por experiência própria, como é fácil ir numa onda totalitária…(p64)

 6.º Finalmente, mas decisiva, uma imagem equilibrada e personalista das mulheres, visão que dá consistência à sua opção pelo celibato” ( p. 111 e 154), mas que esbarra com a imagem sexista e retrógrada dos habitantes do Pego, avezados a projectar no jovem estagiário os seus instintos de desfrute fácil e irresponsável. Mesmo que fosse, na realidade, fiel ao seu voto de celibato, ( pensa ele) o povo sempre o acusaria de duplicidade e hipocrisia. E , então, conclui que viver a sério o celibato e,  ao mesmo tempo, alimentar a suspeita da sua infidelidade, não combinava com o seu carácter, coerente e inteiriço.  Daí, a decisão de abandonar uma carreira que se adivinhava auspiciosa, atendendo a um brilhante currículo intelectual, a uma generosidade e capacidade de entrega sem limites e a um fino senso de evangelização, baseado não tanto no proselitismo e na vã apologética, mas no testemunho de proximidade, comunhão e reflexão sobre as soluções a propor para a resolução dos problemas do mundo contemporâneo: “O trabalho da fé só fazia sentido em duas dimensões: como testemunho dado através do serviço e como resposta a uma procura daqueles que se sentiam interpelados” (p. 150)

   A argumentação em que baseia a sua decisão de abandono pode parecer um tanto original e, digamo-lo, sem ofensa, formulada com algum requinte intelectual. Mas é a sua, a que está mais de acordo com a sua consciência, e que merece todo o nosso respeito. Não nos avisou logo de início para a sua visão, pessoal e subjectiva, dos acontecimentos?

   Só lhe restava comunicar a sua vontade ao representante da Diocese, num encontro combinado no Pego, tão frio quanto breve, sem mais e supérfluas explicações.

João Lopes4.jpg

    Mais tarde, ao recordar “ esses dez anos e o troço final bem resolvidos,” ( Ibidem), agora, no presente do  acto da escrita, o  autor agradece tudo o que por ele fizeram.  (…”porque ainda hoje sou (negrito meu) em grande medida o homem que nos seminários me formei e, depois, aquele em que, com base na bagagem ali adquirida, me tornei.” (p.156)

  E é com um genuíno sentimento de saudades de Deus, do silêncio e da vida interior que aprendera a cultivar com delicadeza e esmero, que dá por findo este rico e saboroso Memorial, digno de ser lido por quantos a mesma ou outra, semelhante experiência fizeram.

   João Lopes

Mais sobre mim

PORQUÊ

VAMOS COMEÇAR

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Links

  •  
  • Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D