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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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Um livro em recensão - 2

Ainda a propósito do Livro de Memórias do José Alves Jana - "O meu Seminário" - escreve João Lopes

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“ A memória, ao contrário de uma gaveta, consiste em tudo o que esteve guardado, mesmo que já não esteja” Pedro Mexia

  “ Les jours s´en vont, je demeure!  Apollinaire

 

  Uma das primeiras impressões de leitura de “ O meu Seminário” ( 1963-1974)  de Alves Jana  é o espanto que naturalmente nos provoca  a sua memória, robusta como  um sobreiro, elegante e flexível como um salgueiro da borda-Tejo. Como é possível “reactualizar” com tal fidelidade, evocando, isto é, chamando lá de longe(ex) até ao presente da “ voz” da escrita (narração), (vocare) lembranças miúdas, sem serem fúteis, detalhes quase impossíveis de reter, no vórtice tumultuoso dos nossos dias?  Qual de nós, 40 anos passados, era capaz de reproduzir, sem hesitação, o número da roupa (427, o do Jana) p.27, ou reter a imagem do licor Beirão estampada na maléfica régua de madeira do seu prof. de  Música, ouvir o eco da ladainha de insultos do prof. de Latim:  Burricas, burricancas, burricocas”  ou mesmo até de elaborar uma descrição tão precisa e completa da confecção das hóstias? (p. 38)

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   Na tentativa de recuperar o “seu” passado vivido, mas ameaçado de se esvair na voragem do tempo, o autor olha para o seu retrovisor, metáfora adequada à sua magistral retrospectiva,  e contempla o desfile quase cinematográfico das imagens que se sucedem a um ritmo alucinante, ao passo estugado e lépido de uma caminhada de escuteiros, sem que perca o controlo da narração, indo ao ponto de organizar o seu texto (ou discurso), na página em branco, com uma esquadria e regularidade geométricas, de assinalar, sobretudo, num discurso, em 1ª pessoa, de teor autobiográfico.    Repare-se no paralelismo quase anafórico como dispõe os nomes dos profs e as disciplinas que leccionam. “ O P. Manuel dava-nos desenho e português (…) O P. Eusébio… Francês”(…)  E por aí fora, em parágrafos bem medidos, simétricos, entre os quais se abre um espaço de respiração e silêncio.

  Nada disto é fruto do acaso, mas do espírito racional e organizador do sujeito que escreve e diz “EU” para uma 2ª pessoa, representativa dos seus destinatários.

   Alves Jana, no seu afã de debitar memórias, sabe conter-se, não contando tudo o que se passou, embora guardado esteja na consciência, mas só o que lhe parece  ser funcionalmente relevante para que o leitor  fique ciente da forma como ele viveu o “ seu” seminário, como eu-menino,  como eu-adolescente, como eu-jovem e como eu-adulto, amadurecido para tomar decisões definitivas sobre o rumo a dar à sua vida. Guardar e apagar, eis o binómio antinómico e complementar do acto de recordar.

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  Alguém explicou que o “passado” não se conserva como coisa congelada na prateleira (do pré- consciente), mas se reconstitui  ou reconfigura no palco da consciência do passado, a partir  do “presente” da própria rememoração e do seu contexto de enunciação, sem perder a noção de que o passado não se pode confundir com o presente que o ressuscita, sob pena de se cair numa espécie da alucinação, que atinge os que irremediavelmente vivem agarrados à eterna nostalgia da vida pretérita, esgotando-se  no escavar o terreno  das vicissitudes pregressas e enterradas.

 A tal risco não se expõe o autor/sujeito destas memórias, tratando logo de elucidar a sua posição: “ A memória apresenta-nos o passado tal como ele é para nós hoje. É a esse passado-presente que procurei ser o mais fiel possível.” ( p.8 )

 Quantas  vezes nos  deparamos  com o problema da identificação de uma pessoa com a qual convivemos num passado longínquo, tal o efeito da erosão operada pelo TEMPO, esse  terrível devorador de identidades que ele próprio esculpiu! A vê B, seu antigo companheiro de escola e fica perplexo. Será que o (re) conheço!  EH pá, como estás mudado! Pareces outro!  Ou então: estás na mesma, caramba! Os anos não passam por ti!  O mesmo jeito de andar, o mesmo tom de voz, esse olhar sempre de viés, a largueza de gestos e o ar esquivo e arisco de quem está sempre a fugir de si e dos outros! Ou, de forma mais generosa e eufemística:  Deixa lá, não estás velho, pá; estás vintage!

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 Passado e presente em conflito permanente, que nem a maquilhagem supera e transfere, fissuras e rugas indisfarçáveis, que só o poder reconfortante da memória pode suavizar, sem, no entanto, preencher as fracturas que o tempo rasgou. Para sempre. Até que os outros tenham saudades de nós.

 Por aqui me fico, voltarei ainda se Deus quiser. Vou transportar as minhas memórias, não como um fardo ou mala pesada de viajante (seminarista ou outro),  sabendo que evocar hoje o que ontem  comigo e os outros se passou, me(nos) pode dar algum alento na dura travessia da vida. Até lá, alegremo-nos com o ENCONTRO deste livro,  para prelibarmos as delícias de outros grandes  encontros, em Alcains, ou onde os deuses por bem entenderem!  

João Lopes

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