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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Um livro em recensão - 1

01.06.19 | asal

 ALVES JANA, José, O meu Seminário (1963- 1974), Edição do Autor, 2019, 159 pgs

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 1.ª Parte

 

  “ … o que interessa não é o que eu digo, mas o que o outro percebe” Alves Jana, op.cit. p.133

  “ Chaque jour, nous laissons une partie de nous-mêmes en chemin” Amiel (1883)

 

 

   A razão de um título e a “CASA” como o INCIPIT das memórias.

Muito avisado andou o autor ao escolher para título da sua obra o  meu Seminário e não o nosso, para, desde logo, marcar,  com o cunho pessoal da sua história e o traço  distintivo e peculiar da  escrita, a revisitação do “seu” passado e a experiência de formação em ambiente comunitário.

De facto, as memórias, conquanto partilhadas, são, antes de mais, património do EU que nelas se narra e reflecte, assim como da sua circunstância da qual faz parte todo um leque de personagens reais( ou pessoas)  com diferentes estatutos e funções. O tecido leve das lembranças do convívio do Eu com os Outros cobre uma fracção de tempo de 10 a 11 anos, sendo que o Eu que assume a narração, o faz 40 anos volvidos sobre as primeiras ocorrências. Por que tanto tempo depois? Não eram as memórias, suficientemente fortes e significativas para, só por si, desencadearem o momento inaugural e recriador da escrita? Se um homem, treinado nas lides do pensamento e da comunicação, se retrai e hesita,  é porque tem razões  desconhecidas que não são da nossa conta. Apenas aqui se constata que o António Lopes da Manhã Submersa tem o mesmo tipo de hesitação. “ Cem vezes por isso resolvi escrevê-la, cem vezes desisti” A verdade é que, não fora o empurrão do nosso inolvidável colega e amigo Colaço,  e este precioso  DOCUMENTO teria  jazido para sempre no limbo do esquecimento.

Uma segunda razão prende-se com a imagem negativa e sombria dos seminários, como um tempo de aprisionamento desfigurador, que uma certa literatura se apraz em divulgar, ao arrepio da evolução dos tempos e da Igreja. Não é que não haja uma ponta de verdade nessa versão, como o nosso seminarista o provou à saciedade na experiência do seu primeiro seminário de dois anos apenas. Mas modus in rebus!  E o autor vai, de uma forma brilhante, desmistificar a ideia de um locus horrendus ou um subterrâneo da liberdade, concentrando a atenção na descrição inicial do edifício dos cinco lugares por onde passou, como se a “CASA” constituísse um arquétipo de intimidade e de construção da personalidade dos que nela habitam e se acolhem.

No princípio, era a casa… Assim começa cada capítulo.  E entre o casarão e as pessoas (alunos e profs) pervagando por corredores imensos e cumprindo os rituais de passagem do tempo, estabelece-se  uma subtil relação metonímica  que dá sentido ao contexto daquela vida em comum.

O sentido da gradação ascendente da qualidade de vida naquele espaço real e simbólico torna-se um leitmotiv da escrita.  A visão das brumas invernais do Gavião, um tempo traumático de opressão e sofrimento, pouco tem que ver com os  esplendores primaveris de Alcains, onde as relações com os profs, os  campos desportivos, as aprendizagens, a vida espiritual e litúrgica, o Escutismo …  a iniciação ao Jornalismo, tudo constitui novidade e surpresa num tempo decisivo da vida do adolescente.

No entanto, o herói (herói, não no sentido moral, mas narrativo de incarnar a personagem que o narrador segue mais de perto, ou seja, o foco mais intenso da sua atenção) não deixa de lamentar um resto de claustrofobia naquele espaço cercado. O instinto de liberdade fá-lo sonhar com a exploração (por ora impossível!) do desconhecido, sem restrições, ouvindo o som dos próprios passos… É verdade que já não tenta a fuga como no Gavião!  Mas lá está ainda a revolta interior por não poder atravessar livremente a aldeia, ver pessoas, conversar… e cortar com a solidão, que, de quando em vez, o dilacera. Sente-se dividido entre as saudades do lar e o ambiente de alegria e bem-estar, as possibilidades intelectuais que um Seminário, de cariz mais humanista, lhe oferece.

Em Portalegre, o mesmo incipit… ” A aproximação do seminário - Seminário Maior - tinha o choque positivo da imponência, muito acima do que experimentámos em Alcains” p. 83. E, apesar de ali encontrar o ambiente ideal de formação, mais adequado ao seu temperamento, de gosto pela tranquilidade e desafio intelectual, aquele espaço, ainda vigiado, ergue-se na consciência de cada um, como um adversário a abater.  Ele ( o P. Augusto) era o vice-reitor, o chefe da casa. E nós tínhamos a clara noção de que as regras da casa eram ao mesmo tempo formadoras e deformadoras. Discutíamos por isso taco a taco com ele  cada uma das regras da casa. Por exemplo, não termos liberdade de sair do seminário quando quiséssemos.” (p.113). Naquele ano da morte do  Ditador,  da Primavera Marcelista e do rescaldo do Vaticano II, a tensão espacial e cultural  entre Seminário versus Mundo tinha de ser superada. O  conflito acaba por se dissolver em Valadares (1971 - 73). E mais uma vez, a Casa  tem as honras de uma entrada eufórica, quase triunfal: “ Não fazia a mínima ideia do tipo de casa que iríamos encontrar, mas era já uma casa desejada: pela superação da que deixávamos para trás, pelo fascínio da grande cidade, o Porto, e pelo desafio dos estudos, que adivinhávamos serem ali mais a sério(p. 117). Humaniza-se o espaço dos quartos “ Acolhedores, de materiais quentes,  chão de platex…(p.118), tudo, em conformidade, com uma experiência de formação, intelectual e pastoralmente mais gratificante.  Até na rica, transformadora e curta experiência de seminarista-operário em França, as casas, convento, residência operária para jovens e  a visita a casa de dois casais merecem a feliz menção do narrador.  E no Pego, (73-74) a casa desempenha também um papel primordial na vida do nosso “herói”, ao iniciar o seu Estágio, “  Mas, ali, senti-me em minha casa  desde o início, (itálico meu) sem dúvida mérito do P. Leitão, pois foi ele que me acolheu como se nos conhecêssemos há muito.” (p.148)  

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O motivo do início, do INCIPIT, dá o tom à narração, cria a atmosfera e a moldura, como  lugar canónico  do Espaço,  visto na perspectiva intimista do autor,  o chão ajardinado para o crescimento das plantas, das  flores e dos frutos.

Admira-se a sabedoria narrativa do Alves Jana, por ter percebido o alcance e o significado deste tópico, tão  etimológica e simbolicamente  apropriado a uma casa e  instituição como o Seminário. 

João Lopes 

 

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