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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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Um grande homem

Amós Oz ( Jerusalém, 1939- Telavive,2018)

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  A notícia da sua morte, no passado 28 de Dezembro, foi largamente divulgada em todo o mundo que o conhecia como  o maior escritor israelita da actualidade e como um activista corajoso a favor da causa palestiniana, que defendeu até  à morte, sem abdicar da sua condição de judeu.

  A imprensa israelita foi unânime na homenagem prestada, qualificando-o como um gigante da Literatura e um homem justo e equilibrado, avesso a qualquer tipo de fanatismo, com perfil de profeta, realista e visionário, à imagem de Isaías e Jeremias.

  O insuspeito Jerusalem Post  caracterizou a sua rica personalidade com os seguintes atributos:” De olhar leal como David, rebelde como Absalão, eloquente como Salomão, pregador da paz como Jeremias, e resistente na tragédia, como  Job,  Amós Oz  era  a incarnação viva e vibrante de uma grande personagem da história bíblica.”

  Vítima de cancro, deixa este mundo aos 79 anos quando havia ainda muito a esperar da sua vida de escritor e de homem seriamente comprometido com a paz entre israelitas e palestinianos. Sempre defendeu com garra e frontalidade o direito à existência de dois Estados no território da Palestina.  Com o vigor da  palavra e das suas atitudes,  denunciou a construção de colonatos judeus na Cisjordânia (West BanK), chegando a enfrentar a retroescavadora de uma empresa judia que, sem pedir licença, entrou por um campo de oliveiras de uma família de palestinianos, com a intenção de construir ali mais um condomínio cercado por um muro de proteção contra as investidas dos seus legítimos donos.  Esta cena repetiu-se muitas vezes, causando manifesto incómodo ao governo israelita da direita sionista, apostado ainda hoje em ocupar o território palestinense, retalhado em pedaços, limitando assim as possibilidades de um Estado Palestiniano, enquanto, cinicamente, vai defendendo esse “direito” nas instâncias internacionais.

  Vindo da esquerda socialista de Shimon Peres, de quem era amigo e conselheiro, procurou sempre o diálogo e as conversações diplomáticas com os  Árabes, sabendo que o caminho da paz, conquanto mais pedregoso e ensarilhado, era sempre preferível às emboscadas da guerra. Palmilhou todo o território de lés a lés e conversou com judeus e palestinianos de todas as tendências, daí resultando um maravilhoso livro de geografia e etnografia  IN THE LAND OF ISRAEl (1983). Não era escritor só de gabinete, mas de estrada. Falava, pois, com coragem e a franqueza brutal de quem tinha visto e ouvido coisas terríveis sobre o drama do quotidiano que atingia as pessoas dos vários credos que naquela Terra se cruzam. Às vezes, para uma morte sem sentido. Absurda e diabólica! 

 Não será aqui o espaço  para falar da sua imensa obra de que conheço uma pequena fatia. Na sua autobiografia, em forma de saga, UMA HISTÓRIA DE AMOR E TREVAS (2002), ele percorre a vida da sua família, ao longo de 120 anos, pontuando os seus momentos de luz e de trevas, de lágrimas e gargalhadas. Com o humor e simplicidade da sabedoria bíblica, narra a história do Povo da Promessa, errando no grande mundo europeu, que ajudou a construir com a sua inteligência e cultura excepcionais, e que lhe pagou com chacinas e pogrons em massa,  e, desta forma, acicatando o desejo  do dia do regresso à terra dos Pais, ao chão sagrado de Abraão, Isaac e Jacob. Ele próprio explica essa situação dilemática e paradoxal num dos seus ensaios contra o fanatismo: Quando o meu pai era criança na Polónia, as ruas da Europa estavam cobertas de inscrições: JUDEUS VÂO PARA A PALESTINA”  Mas, quando regressou, cinquenta anos depois, nos mesmos muros,  clamava-se: JUDEUS, FORA DA PALESTINA.

  Na formidável galeria de retratos  do seu Livro "História de AMOR e TREVAS", surge a figura do seu tio avô Yosef Klausner, judeu aberto ao diálogo das civilizações e que em 1929 publicou o famoso JESUS OF NAZARETH.  No Talmud de Jerusalém, escrevera-se que Jesus era filho de uma Virgem- acontece que no sec II um rabino malicioso rasurou o texto, escrevendo  que Jesus era filho de Pantera, um soldado romano que seduzira Maria. A Calúnia pegou até que o nosso Klausner desmascarou a manobra. Fez a análise textual do texto e concluiu ter havido uma falsificação. Onde se lia “Pantera” deve ler-se  Parthenos que significa VIRGEM. O texto original referia-se mesmo ao nascimento virginal de JESUS.

  ENTRE AMIGOS(2012) é um conjunto de contos sobre a sua vida nos  Kibbutz durante 32 anos. Deve-se a este tipo de comunidades a grande obra de modernização em todos os campos da Terra de Israel: secagem de pântanos, produção agrícola em larga escala nas areias do deserto… Enfim, grande parte do Israel de alto nível tecnológico que todo o mundo admira, deve-se a esta forma de vivência comunitária,  em que o jardineiro, depois da sua tarefa, pegava em Hegel  que levava para discussão na associação cultural. E BEN GURION, depois das aulas, pegava no tractor!

Amos Oz-001.jpg

  JUDAS (2014), o seu último romance, creio, começa assim: "Esta história decorre no inverno de finais de 1959… Há nela engano e desejo, desilusão de amor e uma certa questão religiosa que ficou por responder.”

  Por mim, testemunho. A obra de Amós OZ ajuda-nos a crescer em humanidade e justiça, incutindo nos seus leitores a necessidade premente de investirem todas as suas forças na construção da PAZ, qualquer que seja a barricada em que se situem. Shalom a todos e Deus queira que, um dia, nos encontremos em Jerusalém, senão na terrena, na que foi edificada pelas mãos do Deus vivo. AMós Oz acreditava nisto; eu também.

João Lopes ( Coimbra , 1e 2 de Janeiro 20129)

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