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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Um bom filme

23.04.21 | asal

Meu bom Amigo,  aí vai este comentário.  Se achares bom, partilha. Com um grande abraço. João

NOMADLAND-SOBREVIVER NA AMÉRICA”

 Uma das personagens mais hilariantes do “ Êta, mundo bom!, Candinho, de seu nome, ressonância brasileira do Cândido de Voltaire, usa este estribilho ou aforismo, mesmo em momentos de aparente beco sem saída:  “As coisas, quando pioram, é só para Nomadland.jpgmilhorá!”

  E, de facto, assim tem sido. Que saudades de um bom filme, e de uma pizza Camponesa, coroada com uma maçã assada! Logo que o Centro Comercial abriu, e as salas de cinema, tratadas com  os  devidos cuidados higiénicos, se tornaram lugares seguros, lá vamos nós satisfazer a curiosidade e apetite.  

Que dizer deste filme-documentário de Chloé Zhao, Nomadland, sobre a realidade da sociedade americana, depois do crash da praça financeira de Wall Street, em 2008, e das suas  terríveis consequências sociais no viver comum de parte da classe média, que, de um momento para o outro, se viu desapossada de tudo: casa, jardim, emprego… Confusa, sem mais nada a perder, fugiu em debandada para o Sul e o Midwest.

  Esta gente, literalmente abandonada na estrada, vai tentar sobreviver à custa de “biscatos”, trabalho precário, mal pago, entregues aos ventos da sorte, perdidos em pleno deserto do Arizona.

  Fixemos a atenção na personagem-pivot,  uma mulher  aparentemente comum, viúva, 63 anos, e que no filme assume o nome de Fern,  ou seja Frances  McDormand, cujo ponto de vista sobre a história  se identifica com o do realizador que optou por  “ver e sentir” o drama existencial  destas pessoas, paisagens, campos e albergues provisórios, em ruínas,  terra e mar, através  do ”olhar” da protagonista, que, na sua caravana recuperada, percorre estradas sem fim,  túneis e desfiladeiros, de cara trancada, alma por dentro lavada em lágrimas, mas onde, aqui e ali, aflora um sorriso de simpatia para com os seus “irmãos” de infortúnio.

   Será que ela é uma sem-abrigo, homelesss? Não - diz ela, uma houseless, sem casa, sim. Até porque, apesar de sozinha, vive, em parte, na companhia de muita gente que não foge ao trabalho. Uma mulher solitária, mas convictamente solidária, diria.  Posto que, sentimentalmente requestada, dado o seu carácter sólido, firme, despachado e trabalhador, recusa qualquer ligação definitiva, por fidelidade ao seu marido, jamais retirando a aliança do dedo. E vai dizendo: nesta vida nómada e estradeira, não há adeuses definitivos: apenas despedidas provisórias. Vemo-nos por aí… Dir-se-ia que os restos de uma atmosfera hippie vagueia por ali e as canções que pontilham a narrativa, simplesmente maravilhosas, cheiram um pouco a blues, e que a vadiagem de Pela Estrada Fora de Jack Kerouac não andará longe.

  Tudo isto pode ter um tanto de verdade!  Mas não é a verdade. De todo. Uma profunda diferença existe entre o recreio e a contestação juvenil e o império da necessidade que leva uma pobre mulher, como outros, na sequência e por causa de um desfalque financeiro das elites americanas, a ver-se forçada a dormir numa caravana coberta de neve e a tiritar de frio.

     Há erros da Política que produzem pobreza e devastação na vida dos Povos.

  Eles, os errantes e nómadas por necessidade, sabem-no por dentro, conquanto não o explicitem em manifestações de protesto. O sistema capitalista é assim e pronto! E não vale a pena perder tempo com tais reflexões quando urgências mais comezinhas, como o de trabalhar para comer, se impõem: etiquetar produtos num supermercado, transportar embalagens, recolher toneladas de beterraba, limpar parques de campismo, e , depois, devorar quilómetros numa caravana que,  às tantas, desmaia por cansaço, e dinheiro não há para pagar a reparação.

    Para caracterizar a protagonista e a sua performance excepcional e singular, um génio na arte da representação, dentro dos limites de um realismo, puro e duro, nem mais nem menos, nada de entoações enfáticas ou expansões sentimentais, vou apontar três tópicos: silêncio na solidão; a nova aprendizagem ou ligação com a Natureza, não como objecto de desfrute, mas com uso moderado e respeitador, e , finalmente, a arte do despojamento do supérfluo.

    A câmara fixa-a demoradamente em cenas de solidão: sozinha, no meio de um campo inóspito, no Nebrasca, aparece-nos, no princípio, a satisfazer as suas necessidades fisiológicas. O realizador começa a sua narrativa ex abrupto, sem um preâmbulo ou enquadramento, deixando ao espectador esse trabalho. Levanta-se apressada, em direção à caravana. E começa a viagem para sul, o deserto do Arizona coberto de neve!

    Fern  precisa de um bom banho. A câmara apanha-a num lagoa, de braços e pernas estendidos, desnuda, com o púbis à mostra. Qualquer semelhança com a Ofélia de Shakespeare é simplesmente um despropósito! Sozinha, sai da caravana e aproxima-se do mar. Silêncio prolongado! Lá fundo rugem as ondas, enroladas em espuma. O espectador receia o pior. Volta ao veículo e, como é verão, afunda-se na floresta, apalpando gostosamente a espessura dos troncos, ou escala os caminhos tortuosos da montanha à procura de pedras raras. Quase não fala. A voz, entrecortada,  reduz a mensagem ao essencial, preenchendo os interstícios  com a  eloquência do silêncio.

  O despojamento ou o contentamento com o estritamente necessário salva-a, a ela e aos companheiros, de caírem no desespero. É mesmo o segredo da sobrevivência, reforçado pelo sentimento de entre ajuda. Quase no final da narrativa regressa ao Nebrasca. O deserto invadiu a sua cidade e a sua casa, onde vivera com o marido, trabalhando os dois numa fábrica de contraplacados. Nem uma lágrima ou um queixume de saudade. Hirta e desafiante, traços marcados no rosto, ostenta a nobreza de uma heroína grega, inteiriça, inquebrantável diante da crueldade do destino.  

   No espaço fílmico, recita um longo poema (ela fora professora) que me encantou. Se algum companheiro o apanhar, tem aí um tesouro.

João Lopes d.jpg

   Diz-se que a expansão do conhecimento tecnológico e financeiro corresponde, muitas vezes, ao esvaziamento da sabedoria. Na verdade, sem cultura humanista que põe, no centro da Economia, a pessoa humana (a chamada economia de Francisco), corremos o risco de recuarmos aos tempos tribais e primitivos, de transumância e nomadismo, em permanente desassossego ou migração. Se outra lição não tirarmos deste filme, para além da beleza da arte, que nos sirva esta, ao menos, como aviso e advertência do futuro.   

Coimbra, João Lopes