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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Ucrânia, quem és tu? (1)

27.05.22 | asal
Uma história agitada

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O caso dos refugiados ucranianos no concelho de Setúbal, a abertura quotidiana dos noticiários nos órgãos de comunicação social, a longa guerra, quotidianamente, têm trazido à opinião pública questões que não podemos olvidar, de tal modo se tornaram centrais nas conversas privadas ou públicas. Não é caso para menos, quando se sabe o elevado número de vítimas desta prolongada guerra bem como o elevado número de refugiados que todos os dias fogem para a Europa. De tal modo se prolonga no tempo e nos efeitos perniciosos que gera, que já é considerada a maior crise de refugiados da Europa desde a II Guerra Mundial. Segundo o Alto-Comissariado das Nações Unidas (ACNUR) estima-se que, cerca de 30% dos ucranianos tenham sido obrigados a fugir de suas casas, procurando no estrangeiro um país amigo que os acolha e cuide do seu bem-estar. Desde 24 de Fevereiro, início da invasão ilegal e condenável da Rússia à Ucrânia, mais de 5,5 milhões de refugiados deixaram este país. Também sabemos que 7 milhões de ucranianos saíram de suas casas e deslocaram-se para outras zonas da Europa. Só para Portugal, vieram 34 562 cidadãos ucranianos e estrangeiros, a viver na Ucrânia, de acordo com o SEF. Segundo este organismo, para Portugal, 34 562 cidadãos ucranianos e estrangeiros, a viver na Ucrânia, foram aqui recebidos. Um imenso número de pessoas que têm sofrido nas suas vidas imensas dificuldades, uma vez que andam com as suas casas às costas. Muitas vezes famílias inteiras com crianças e idosos a serem deslocados, no meio de um sofrimento inaudito. As televisões têm-nos dado diariamente, em directo, imensos exemplos destas dramáticas situações.
Mas, afinal, quem é este país europeu, vizinho da Rússia? Lancemos um rápido olhar para a sua longa e perturbada história, com uma identidade atormentada, o qual, por se encontrar longe de nós geograficamente, não o conhecemos suficientemente. Iniciemos a sua história sublinhando que a Ucrânia percorreu um longo caminho para obter a sua independência política.
Segundo um recente artigo do “Le Monde”, a Ucrânia partilha com a Rússia uma dupla herança étnica que remonta a uma mistura de culturas eslavas e religiosas, através da conversão do povo ucraniano ao cristianismo, pela igreja de Bizâncio. Acontece ainda que a Ucrânia possui uma consciência nacional muito antiga, mesmo anterior à sua pertença ao império Russo. A dinâmica deste espírito nacional de Hètmanat Cosaco (1649-1764) à Ucrânia actual, passando pela República popular ucraniana de 1919, revela uma constante vontade deste povo, pela afirmação da sua independência e liberdade. Mas já desde a antiguidade, o território da Ucrânia – uma vastíssima área da Europa de Leste - viu passar pelo seu território diversos povos, por altura de grandes migrações. Entre eles, os eslavos que fazem parte da última que incluiu povos indo-europeus os quais entraram na Europa, oriundos do norte do Cáucaso. Estes povos instalaram-se no norte da Ucrânia, a partir do séc. VI. Dois séculos mais tarde, foram os vikings suecos que invadiram estes territórios, desenvolvendo neles o comércio. Por onde passavam, foram criando várias cidades eslavas. Uma delas foi Novgorod, no séc. IX. A população do território dominada por Kiev era sobretudo eslava e autóctone, tanto que as elites dirigentes, reagrupadas em cidades, eram sobretudo escandinavas. Entretanto, a influência cultural fez-se fortemente à custa da cultura popular, face à aristocracia a qual reflecte o paganismo escandinavo. A relação de Kiev com o Império Bizantino fez-se de um modo igual ao dos povos bárbaros, perante as grandes civilizações. As sucessivas pilhagens foram sendo substituídas por relações comerciais regulares, chegando-se ao ponto de serem fundadas novas cidades ligadas a Kiev, por laços de vassalagem, face ao grande Príncipe, senhor desta importante cidade. A nova proximidade com Constantinopla favoreceu com naturalidade a chegada de missionários bizantinos. Nomeadamente S. Cirilo, que deu à língua eslava o seu alfabeto, bem como a conversão ao cristianismo, sob o reinado de Vladimir I (980-1015). Com a influência religiosa veio também a influência institucional. Assim Vladimir deu à Rússia um Estado inspirado num modelo imperial, à imagem de Bizâncio. Será com o seu filho Iaroslav o sábio, (1019.1054) que a Rússia atinge o seu apogeu territorial e cultural. Durante o séc. XII e XIII o modo de funcionamento da Rússia foi muito semelhante ao do sacro -império romano – germânico.

florentinobeirao@hotmail.com