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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Trágico-comédia americana

22.01.21 | asal
Meu caro Henriques
Aí te envio uma colaboração, para o nosso Animus Semper. Desta vez, impunha-se que a América viesse a tema central. Nada do que ali se tem passado nos pode deixar indiferentes. Para o bem e/ou para o mal. Os bons e os maus exemplos não conhecem fronteiras. Entranham-se.
Agora, com um Presidente católico, muito experiente no Capitólio, esperamos e acreditamos que os valores do Evangelho venham para a prática política. O brilhante discurso de tomada de posse de Biden - urgente conhecer - é já um farol promissor de novos tempos. Com um abraço amigo...cuidemo-nos todos
Florentino

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O ataque à casa da democracia

O assalto ao Capitólio, o coração da democracia da América, no passado “Dia dos Reis”, embora pareça um ato impensável, para quem tenha andado atento às abundantes mentiras e ameaças do presidente Donald Trump, não foi mais do que o resultado esperado de não querer aceitar o resultado das últimas eleições presidenciais americanas.

Com tal atitude antidemocrática, as leis mais básicas do seu regime democrático foram negadas e colocadas de parte. Segundo as mesmas, quem ganha as eleições deve assumir o poder, conferido pelo voto dos eleitores, de um modo responsável. Quem as perde, passa a servir também a democracia, mas numa oposição construtiva, de alternativa ao poder. Esta é a essência do regime democrático.

O que aconteceu na América, no momento em que o Congresso votava a confirmação dos resultados eleitorais, violou as leis mais elementares de uma democracia consolidada, como é a americana, onde o Estado de direito tem vigorado. Deste modo, se opõe ao poder absoluto de qualquer tirano que se queira manter no poder, à viva força. Foi o que aconteceu com o autocrata Trump, derrotado por Biden. Ao longo dos anos do seu mandato, Trump tudo fez para que os seus numerosos e fanáticos seguidores não aceitassem as eleições presidenciais, caso fosse derrotado. De tudo se serviu para procurar atingir o seu objetivo. Desde atacar a verdade e a imprensa, as redes sociais, as instituições democráticas, controlar o Supremo Tribunal e apoucar a Câmara dos Representantes. Toda esta estratégia autoritária foi servida por um discurso populista, onde a verdade e a mentira se confundiam sem qualquer pudor.

Não podendo contar com as Forças Armadas, Trump procurou na rua, onde se encontravam alguns dos seus fiéis e fanatizados apoiantes, e em alguns membros do Partido Republicano, para se manter no poder, através da violência, não aceitando o resultado das eleições livres e legalmente aprovadas.

Estes recentes acontecimentos deveriam fazer-nos refletir sobre os perigos que hoje correm as democracias, com o rápido e imparável avanço de movimentos nacionalistas, racistas, autocratas e xenófobos, aglutinados à volta de “líderes fortes”, demagogos, sem escrúpulos e populistas, à maneira de Trump. O que aconteceu na América do Norte pode também surgir na Europa e em Portugal, quando aparecem líderes a adotar os mesmos princípios e métodos políticos, demagógicos e populistas. Como se sabe, segundo a revista do Expresso (8.01.21), hoje está a espalhar-se pelo mundo a chamada teoria da conspiração “QAnon”, que se define como “uma mistura de paranoia política e profecia messiânica”, a qual tem alimentado muitos fanáticos, seguidores de Trump. Como nos adverte Pacheco Pereira, “Trumpinhos e trumpões vão continuar por cá. Sofreram uma derrota, mas a deslocação à direita e o populismo são a sua única esperança” (Público, 09.01.21).

Há um ditado popular que, a propósito do que aconteceu na América, seria bom que tivéssemos em conta: ”Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho”.

Como sabemos, as mesmas causas produzem o mesmo efeito. Deste modo, os líderes dos partidos que copiam e reproduzem os mesmos tiques políticos de Trump, seja Bolsonaro, Organ, Salvini, Marine Le Pen, Ventura e seguidores saudosistas do salazarismo, acabarão por reproduzir o mesmo resultado político. Seduzir os eleitores com mensagens baseadas em mentiras, na demagogia, nas emoções, no populismo e no racismo, os produtos políticos tóxicos do “Chega” do famigerado André Ventura, agora candidato à presidência da República.

Os regimes democratas, também em crise, não podem esconder debaixo da areia as causas que dão origem a estes perigosos movimentos que pretendem minar e derrotar os regimes democráticos do mundo livre. As múltiplas causas já diagnosticadas que originam e fomentam tais movimentos e partidos políticos são já mais que conhecidas: o elevado desemprego, sobretudo das camadas mais jovens da população, a pobreza em que vegetam tantas crianças e cidadãos, o desfasamento entre eleitos e seus eleitores, a elevada corrupção, o desvio de numerosos capitais para “offshores”, uma Justiça lenta e cara, as miseráveis pensões, o ostracismo dos mais velhos…

Atacar e indo resolvendo estes e outros problemas com que nos debatemos há décadas, será a única maneira de podermos retirar espaço aos partidos populistas que tentam destruir a nossa sempre frágil democracia que tanto custou a conquistar. Como cidadãos livres e responsáveis, vamos todos votar, apesar das limitações, impostas por esta pandemia.

florentinobeirao@hotmail.com  

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