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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Tive medo, muito medo!

29.12.19 | asal

Torre de Monfortinho, quando eu era criança, muito criança.

Ant. Rodrigues.jpg

Numa quase tarde, mas sem ser tarde nem cedo, tive medo, muito medo. Aproximava-se a noite, noite escura. E como, em todas as noites, havia a ceia e o serão. E nem todos os serões da aldeia eram agradáveis, como se pensa. Nessa noite, o serão começou com os mais velhos a jogar ao "burro", mas depressa terminou porque quem perdeu não gostava de perder nem a feijões e atirou com as cartas para a lareira e "acabou-se", gritou. Como era normal nesses serões, contavam-se estórias, mas nem sempre de encantar.
O Alziro, que era contrabandista, contou que na noite anterior, fora contrabandear uma carga de café para ganhar a vida. Mas como a patrulha da Guarda Fiscal também andava a fazer pela vida correu atrás dele e foi apanhado, antes de atravessar a fronteira.
- É a vida,  rematou alguém filosoficamente.
O TI "Jquim contou que, numa noite de temporal, tinha visto no cemitério o fogo fátuo, mas disse ele que eram os mortos a acender a lareira para se aquecerem.
E eu a ficar cheio de medo e o serão nunca mais acabava!
Alguém contou ainda que à Ti Felismina lhe apareciam almas penadas, por volta da meia noite, ora eram vozes que ouvia, ora eram luzinhas, ao longe, a tremelicar e até o rasto que uma cobra deixou, ao atravessar um caminho, dizia que era uma alma do outro mundo que andava por ali perdida.
O serão terminou e eu sem sono, mas com muito medo.
Fui deitar-me na cama, onde já estava o primo Zé deitado e virado para o lado da parede.
O primo Zé viveu uns tempos conosco porque os pais foram viver para Coimbra com os outros sete filhos e esqueceram-se dele sózinho em casa.
Como ele já tinha ocupado o lado da parede, eu tive que me deitar do lado dos medos, de costas para a porta porque se viesse algum medo eu não o via nem ele me via a mim, pensava eu.
Aquelas estórias contadas ao serão não me saíam do pensamento e, por isso, não conseguia dormir. Ainda por cima, com o cemitério ali a duzentos metros, eu tremia de frio e de medo. De vez em quando, era o gato, no sótão, que corria atrás de um rato e eu, ao ouvir aquela barulheira, pensava: é agora que o medo vem e me leva!
O primo Zé, protegido que estava por mim, dormia profundamente.
E eu, cheio de medo e de frio, apesar do peso das mantas de arelos, não conseguia dormir e, como não aguentava mais aquele pesadelo, levantei-me, atravessei a cozinha, fui pelo corredor sem olhar para trás, fui pela sala, onde, em cima da mesa, pernoitava um relógio despertador daqueles que passam as noites e os dias a fazer tic-tac, tic-tac, marcava três horas da matina. Pé ante pé, entrei no quarto onde dormiam as minhas irmãs e, sorrateiramente, deitei-me no meio delas, mas com a cabeça para os pés delas.
Passados uns instantes, ouvi a minha irmã Mercedes, muito baixinho, se calhar também com medo, perguntar:
- Ó Ana, o que é "isto" aqui deitado no meio de nós?
E responde a minha irmã Ana:                                                                                                                              - É o nosso Tó.
E então adormeci!!!

PS. Hoje é Natal? Nem para todos porque há muitas crianças com fome e com frio e se calhar nem tempo têm para ter medo!

António Rodrigues

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