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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Testemunho

26.06.21 | asal

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“Lembro-me que estou vivo e que a vida é bela.” Um mês com covid-19, entre a vida e a morte

Rui Araújo | 25 Jun 21 - In "7Margens"

 

É uma fatia de pizza, fria, oferecida por uma enfermeira, que lhe devolve a consciência de que está vivo. Antes, a dado momento da sua hospitalização com covid, dará consigo a reflectir: “O sofrimento, aqui, é real, mas o pior é a solidão.” Durante um mês, Rui Araújo, repórter da TVI, esteve entre a vida e a morte. Um testemunho na primeira pessoa.

Acordo sem amanhecer porque neste lugar a noite não existe. O enorme relógio de parede parou no tempo. O dia aqui é uma luz branca e fria.

Tenho os pulsos e os tornozelos atados à maca com fitas de seda. É a gota d’água. Perco definitivamente as estribeiras. Tento libertar-me com pontapés, mas não tenho força nas pernas. Uma dor lancinante percorre o meu corpo hirto. Estou preso. Há quanto tempo? Não faço a menor ideia. Também não sei onde estou e, sobretudo, não sei o que faço aqui. Dou gritos aflitivos. A minha voz não se ouve. Os poetas dizem que os homens preferem o efémero e não conseguem lidar com a eternidade. Os poetas têm sempre razão. Rebento. Estou farto de uma liberdade que tem os limites do meu próprio corpo. Ou seja: imobilizado.

– Olá! – dispara um vulto desfigurado atrás da cortina opaca que me rodeia. – Sabe onde está?

Não lhe digo que estou desanimado por estar aqui amarrado e não compreender nada. Não lhe digo nada. A minha situação é absurda, mas a esperança é a última coisa que se perde…

– Senhor Rui. Sabe onde está?

É difícil responder-lhe com a máscara de oxigénio posta. Sou um verdadeiro sonâmbulo. Estou bastante confuso depois de sonhar com muitos mundos paralelos e com ilusões acidentais incoerentes. A sólida realidade que criei na minha mente é um verdadeiro disparate. Preciso de pessoas à minha volta para tentar escapar à morte ou para ser capaz de discernir a transcendência de que necessito.

Estou dentro de uma carruagem parada na estação de uma aldeia morta. Está muito calor. Uma passageira dá-me dois euros para que eu possa comprar uma garrafa de água. Estou literalmente a morrer de sede. Sinto uma grande desilusão: a loja está fechada. Durante duas intermináveis semanas, não me deram nada para comer ou beber.

Os pesadelos sucedem-se. Depois do comboio, acontece outra história num hotel em Djerba ou Trujillo. A lata de refresco que abro é, no fim de contas, uma encorajadora perspectiva de esperança, mas não tenho sequer tempo de matar a sede…

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