Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Tantos sentidos...

01.05.18 | asal

Este menino brinca com as palavras, burila o texto com graça e olha para o meio e seus contornos sem ofender ninguém! Mas escreve com muito sentido, sim senhor! AH 

 

SENTIDOS E SENTIMENTOS

Pires Costa.jpg

  

     Reza o ensino elementar que o ser humano é dotado de cinco sentidos, que utiliza no seu viver cognitivo e na relação com o mundo exterior. No entanto, nos tempos que correm, aos tradicionais têm-se acrescentado outros : o sentido obrigatório, o sentido proibido,  o sentido único,  e até o sexto sentido (este mais comum às mulheres) que, está hoje provado, são mais espertas do que os homens, ainda que estes, até prova em contrário, sejam tidos como mais inteligentes, o que prova que, muitas vezes, a estupidez não tem nada a ver com a inteligência. E vice-versa. E há também outros sentidos que, segundo os conceitos da vida moderna, não fazem sentido nenhum, como sejam o sentido da honra, da dignidade, da vergonha, da ética, da responsabilidade, do dever, da oportunidade, etc.. No mundo em que estamos, pelo menos nos conceitos de alguns, só os parvos são ainda dados a essas sensibilidades.

    Sensibilizado com tantas vulgaridades que o meu sentir ditou, dou por findo aqui o exórdio, e faço afincado propósito de  dar sentido ao que à frente vier, isto é, vou tentar ver, vou tentar ouvir, vou tentar olfatar, vou tentar apaladar e vou tentar apalpar ou, se houver algum preconceito mental no vocábulo usado,  vou tentar tatear, expressão que, confesso, tomo por mais correcta, já que  a primeira é mais limitativa no gesto e a segunda mais ampla na forma. Quanto ao designado sexto, por hoje vou deixá-lo no cesto, já que diz mais respeito à alma, ao contrário dos outros que se apegam de forma quase anelídea às sensações e tentações da carne, o que não implica necessariamente tomá-los como pecaminosos, já que o conceito é amplo e sujeito às flutuações moralistas de cada época. Há que considerar, no entanto, como verdade que qualquer hedonismo sem regras poderá conduzir a efeitos contrários à pureza dos desejos.

        Fastidioso seria, não só para mim como para quem se dispusesse a ler o conteúdo do exercício, pôr-me a dissecar, quer na sua componente morfológica, quer na interpretação semiótica, os sentidos que caracterizam o ser humano e bem como as determinações que geram no seu comportamento.

     Os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua e as mãos que desempenhem o seu papel como a criação lho determinou, mas, por hoje, apetece-me mais ir pela moral e pela apologia dos comportamentos, pese embora o movediço piso do campo que pretendo trilhar.

    Servem os olhos para ver? Os ouvidos para ouvir? O nariz para cheirar? A língua para saborear? As mãos para apalpar ou tatear? Em princípio sim, mas no meio e no fim, nem sempre resulta assim tão linear, como por vezes se apregoa.

     E aqui queria eu chegar, ainda que reconheça que poderia optar por caminho mais directo e com menos curvas, isto é, aproveitando as veredas e fugindo às ruas, avenidas e estradas, normalmente pejadas de sinais a indicar os sentidos, que não se sentem mas têm esse nome.

     Avancemos, pois, despegados de inúteis tergiversações.

    Vamos debruçar-nos com atenção sobre as funções de cada sentido e abramos o horizonte da análise às suas formas de actuação, enquanto componentes de uma equipa capaz de flutuar em função da complementaridade e entreajuda.

    Sendo os cinco sentidos independentes e com vida própria, todos fazem parte de uma sociedade onde têm a sua função a desempenhar. Vivem e actuam na cidade, a que, de modo amplo, poderemos apelidar de  animalista, mas que, no campo restrito em que pretendemos hoje colocar-nos, vamos apelidar de cidade humana.

    Com tarefas específicas atribuídas, não se comportam eles  como se disputassem entre si glórias ou proveitos no seu desempenho. Antes pelo contrário, são solidários, são cooperantes, preocupam-se com o seu semelhante, com os seus vizinhos, com os seus concidadãos,  e até não regateiam esforços para, em casos extremos, substituírem, com disponibilidade permanente, os seus semelhantes se estes tiverem algum colapso ou diminuição temporária.

     Falharam os olhos? Lá estarão logo disponíveis os ouvidos, o nariz, o paladar e o tacto para diminuírem os efeitos negativos da maleita do seu concidadão. Falharam os ouvidos? Logo correm pressurosos os seus vizinhos a substituí-los nas funções que lhes cabiam na dinâmica da sociedade que formam. Falham o paladar, o cheiro, a fragrância ou o toque epidérmico? Aí os temos todos, na medida das suas capacidades, a tentar colmatar as falhas resultantes da enfermidade do companheiro. Daí que tantos conceitos e afirmações tenham resultado do fenómeno descrito: ver com os ouvidos; ouvir com os olhos; saborear com o cheiro;  cheirar com o sabor; e até o tato nas sua dilatadas funções pode ser ajudado ou substituído pelos  seus colegas.

      Chegados aqui, surgem-me na mente interrogações em catadupa: - E os humanos, que tão intimamente vivem com os seus sentidos? Que fazem eles? Imitam  os sentidos que têm dentro de si e  que se poderiam classificar como cinco instrumentos que tocam durante as suas vidas? Comportam-se como eles nas relações que mantêm com os seus semelhantes próximos ou afastados? Aproveitam deles em toda a plenitude as lições que recebem no dia a dia do seu viver? Serão os humanos sempre solidários uns com os outros? Auxiliam-se sempre? Evitam sempre as agressões? Não se roubam? Não se enganam? Não se atacam? Não usam, uns em relação aos outros, a armas traiçoeiras do cinismo, da falsidade, do vitupério, da calúnia, da mentira, do ultraje, da agressão física e moral, da inveja, da bajulação interesseira, do vexame, da injustiça, do perjúrio, dos abusos nas mais variadas formas? Tenhamos pena do papel e não nos interroguemos mais.

    Para reconfortar a alma, a minha e a dos que sentirem essa necessidade, direi  que é consolador testemunhar que entre nós, seres atuantes  da farsa que é a vida, existem alguns que imitam ou tenta imitar o espírito de convivência que nos é ensinado pelos nossos sentidos.

    Contudo, por mais optimistas que queiramos ser, não podemos deixar de constatar que a luta se trava entre esses alguns e os outros todos.

    Quem quiser dar respostas e tirar conclusões que o faça. Por mim, não sinto coragem para continuar. Sinto que não sinto o que sinto. Apenas sinto que os meus sentidos bloquearam. Chega de tantos sentimentos!

A. Pires da Costa

2 comentários

Comentar post