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Animus Semper

Também tu, Itália!

Europa em coma

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A União Europeia (UE) sofreu, nos últimos tempos, alguns abalos sísmicos que a fizeram tremer. O epicentro dos últimos situou-se em Itália, uma das mais prósperas economias europeias. Os nacionalistas, populistas e xenófilos da extrema-direita deixaram para trás as tradicionais forças de centro-esquerda que, nos últimos anos, têm liderado os governos deste país, de uma tão rica história artística e de cultura humanista.

Segundo os dados das várias eleições realizadas na UE, o europessimismo tem-se instalado em vários países desta vasta zona política e económica. Uma situação que poderá, a passos largos, vir a colocar em causa o projeto europeu, um admirável farol democrático no planeta.

Só que, presentemente, um mapa sombrio parece alastrar por essa europa fora, colocando os velhos partidos socialistas, social-democratas e democratas-cristãos relegados para lugares quase simbólicos, no espectro político, dos países mais desenvolvidos. A Europa, saída da II Guerra Mundial, destruída, mas logo refeita desta hecatombe, conseguiu erguer-se, através de um grandioso projeto económico e político, à base da solidariedade entre as nações, de paz e de bem-estar para a maioria das populações. Nos últimos tempos, fruto da globalização, parece encontrar-se envolvida numa profunda crise, a ameaçar o seu futuro. Antes da Itália que vai entregar o poder às forças nacionalistas, xenófobas e anti-europeias mais conservadoras, já a Áustria, nas suas eleições tinha navegado em águas semelhantes. Estes países vão na peugada da Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, não esquecendo o Reino Unido. Todos enlaçados num nacionalismo e num populismo agressivos.

Com este lote de países a remar contra o primitivo espírito dos fundadores de uma Europa solidária e em paz, parece verificar-se agora uma situação comatosa, provocada por forças centrípetas e centrífugas, capazes de poder vir a abalar os seus alicerces.

Causadoras deste clima, encontram-se os grandes interesses mundiais, de Putin a Trump, que têm, cada um a seu modo, tentado interferir no futuro político da União Europeia, apostando no seu enfraquecimento. Possivelmente, para o virem a disputar, lá mais para diante. Dentro desta lógica, recordemos o apoio que a Rússia de Putin terá dado a Marine Le Pen, nas eleições disputadas com Macron, o qual, à última hora, conseguiu vencer o populismo da candidata e se encontra agora disposto a relançar a europa, juntamente com Merkel.

Quanto ao ultra-nacionalista Donald Trump, não terá também sido por acaso que o seu antigo estratega principal e conselheiro, Steve Bannon - a encarnação da direita americana mais radical e ultranacionalista – se deslocou a França, convidado para participar no congresso da Frente Nacional francesa, onde procurou deixar uma mensagem otimista para a extrema-direita. Segundo ele, “a história está do nosso lado e vai levar-nos de vitória em vitória”. Nacionalistas e globalistas parecem hoje os grandes protagonistas e adversários na cena política mundial. Poderá ser mesmo a grande batalha dos próximos tempos. Face a este complexo panorama perigoso e desafiante, a UE, abandonada a si mesma, tem de se preparar para enfrentar e vencer estes grandes desafios, se quiser sonhar com um futuro auspicioso. Os próximos tempos não serão nada fáceis para uma europa com uma acentuada quebra demográfica - a subir ano após ano - com o problema migratório em alta nos países pobres, com um estado social a rebentar pelas costuras, com um elevado desemprego, sobretudo jovem. Acresce ainda as constantes alterações climáticas, bem como a globalização desafiante para o comércio mundial e ainda uma corrida ao armamento nuclear de alguns países. Tão vasta problemática está a criar um clima, de tal modo perigoso, que pode deixar os países da UE à beira de um ataque de nervos e, para alguns mais pessimistas, em estado de coma.

Com este pano de fundo, Macron e Merkel terão que se unir e envidar esforços para fazer frente à situação caótica em que a Europa se encontra, encruzilhada potenciada pelas dificuldades em se formar governos após eleições, nos países em que a extrema–direita se perfila cada vez mais. Portugal, certamente não irá ficar imune a esta situação sísmica. As eleições italianas deverão ser assim um forte aviso e uma advertência para as nossas forças políticas, para que saibam acautelar a construção do nosso futuro e das próximas gerações, dentro de uma UE forte.

florentinobeirao@hotmail.com