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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Sofrer até quando?

09.04.20 | asal

"A Páscoa dos avós! A tristeza de hoje é a alegria do amanhã!

Acreditar na ressurreição é aceitar um novo ressurgir de melhores dias.

Que esta Páscoa semeie em vós um rasgo de esperança.
 
Santa Páscoa com a doçura de um abraço
 
Fernando Cardoso Leitão Miranda"
 

Eu e portátil.jpg

Começo este texto com a mensagem do Fernando, um avô a sentir a falta dos netos e restante família. É que a coisa começa a tornar-se negra. Com o passar dos dias, a contenção de movimentos e a falta de outras vistas que nos distraiam um pouco, o tempo começa a sobrar e nem sabemos mesmo como é a melhor maneira de o ocupar...

Lembrei-me dos meses em que as operações aos joelhos me retinham em casa. Entre outras coisas, escrevia então: «...Assim, não sei o que se passa: mal por estar no sofá, mal por estar na cama, mal por estar no cadeirão, ver TV não me agrada nada, ler é o mesmo... E passaram-se assim oito dias! Olho para esta perna trombuda e não gosto das dores e desta pele inchada a rebentar. E tudo tem sido evolução normal, dizem, nada perturba a quase-certeza que vou ser novamente um peão sem achaques. Mas eu é que as sofro! »
 
Curiosamente, nesta clausura, não perdi a memória de outros hábitos. Ainda há dias, depois do almoço, pergunto à Antonieta: "Então, não vamos agora até à Fonte da Telha ver o mar?"
Também os meus gatos não esquecem a escapada à rua, eles que agora estão proibidos de sair. Mas todas as noites, miam, miam ardentemente, olhando para nós e, quando nos movemos, eles correm logo para a porta de saída... E os donos não consentem! Cá em casa, ninguém sai, para o inimigo não entrar... Custava muito andar a limpar as patas com álcool.
 
Têm-me animado muito os telefonemas com os amigos. Há dias, o Pires da Costa comparou este recolhimento aos dias de retiro no Seminário, em que não havia aulas, não havia conversas nem jogos e por ali andávamos em silêncio à procura de nada. Às vezes pecávamos lendo outras coisas, brincávamos às escondidas, dávamos pontapés por baixo das mesas (o Rito parece que era artista a incomodar os outros, não era, Pires da Costa?).
Mas a solidão incomoda muito. Tenho a minha irmã Prazeres no lar das Irmãzinhas dos Pobres em Campolide, que agora está fechada no seu quarto (que belo quarto individual, com casa de banho, TV, computador!), mas o Covid-19 fez com que ela não pudesse descer até à capela para rezar nem pudesse deslocar-se para a sua sala de trabalho, onde ocupa o seu tempo... É duro... Mas são as defesas nos lares contra a pandemia. Eu ando à distância a ensiná-la a mexer no Messenger para falar com a família cara a cara... E estou esperançado!
 
A alguns amigos tenho pedido (lembras-te, Chico, João, Ernesto, José, Mário, Valentim?...) que ocupem o seu tempo para escrever o seu sentir sobre o Seminário de Alcains - episódios, estilo de vida, influência no nosso futuro... - a ver se conseguimos apresentar um livro digno da memória daquela grande instituição nos seus 90 anos de vida. Até podem criticar, que nada escapa à crítica... Olhem que estar ocupado é libertador

Cruz.jpg

 
Desta vez, sinto-me mais motivado que quando sofria dos joelhos. Agora caminho dentro de casa, leio muito e com gosto, faço o Duolingo (aplicação no telemóvel para aprender Inglês que me leva pelo menos uma hora!), vejo filmes, já acabei as palavras cruzadas que tinha. Ah! E também rezo mais, sim senhor!
 
Oxalá estes dias da semana santa sejam uma Páscoa libertadora, por graça do Ressuscitado e por força de cada um de nós, de quem depende a perspetiva de vida e a decisão de fazer coisas válidas no nosso tempo.
E escrevam para este blogue, façam favor! Eu sinto-me obrigado.
 
Boa Páscoa, caros amigos! E que a cruz se encha de flores...
AH

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