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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Sobre a vida

25.02.21 | asal

Sobre o poeta Joan Margarit, falecido há poucos dias em Barcelona(16/02), recorto de "7Margens" um pequeno excerto, que me pareceu muito significativo. Dá para pensar! AH

 

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Numa entrevista concedida ao diário ABC [2], o poeta referiu que há dois tipos de intempéries: a intempérie física, que não é particularmente ameaçadora no mundo ocidental porque a técnica a permite enfrentar, e a intempérie moral. “O que se passa se me abandona a pessoa que amo, se morre alguém querido, se fracassei em algo?”, pergunta Joan Margarit. “A ciência não o resolve, não existe um botão em que se carregue”. A resposta insuficientemente útil impõe outra interrogação: “Que ferramentas tenho para lutar contra a intempérie moral?” Joan Margarit indica-as: “A poesia, a música, a pintura, a filosofia e a religião para alguns. Apenas quatro ou cinco coisas”. E todas elas, acrescenta, têm “uma característica terrível” em comum. É que é necessário tê-las conhecido para que possam ser úteis. É por isso que considera ser imprescindível dar cultura às pessoas. Não entretenimento, mas cultura. A cultura é uma arma contra a intempérie moral. “Para isso serve a poesia. Não é um adorno”.

Joan Margarit, que também era arquitecto (integrou a equipa encarregada de concluir a construção da Sagrada Família, em Barcelona) e professor catedrático jubilado de Cálculo de Estruturas da Escola Superior de Arquitectura de Barcelona, manifesta o seu apreço pelos poemas que contribuem para o fazer melhor pessoa, que o ajudam na procura de um maior equilíbrio interior, que servem para o consolar ou que concorrem para o deixar mais próximo da felicidade, seja o que for que signifique ser feliz.

Misteriosamente feliz é, aliás, o título de um dos seus livros, publicado em Portugal em Novembro passado conjuntamente pela Flâneur e pela Língua Morta [3]. É uma obra excelente. Particularmente memorável é “Poesia”:

“Como para Sísifo, / a vida para mim é esta rocha. / Carrego-a e conduzo-a até ao alto. / Quando cai volto a buscá-la / e, tomando-a entre os braços, / levanto-a outra vez. / É uma forma de esperança. / Penso que teria sido mais triste / se não tivesse podido arrastar uma pedra / sem outro motivo que não fosse o amor. / Levá-la por amor até ao alto.”