Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Sertã - a grande comunicação

03.06.19 | asal

Toda a gente ansiava por ter acesso ao discurso do António Manuel Silva sobre o P. Manuel Antunes, proferido na Casa da Cultura da Sertã durante o nosso encontro de 18 de Maio. Felizmente, aqui está ele, graças a mais um último esforço do nosso palestrante. Desfrutem, pois! AH

 

MANUEL ANTUNES

“Um homem que é só espírito”

Boa tarde!

IMG_4644.jpg

Como não tenho que cumprir protocolo, OBRIGADO A TODOS POR ESTAREM AQUI!

Introdução

        O Doutor e Padre jesuíta Manuel Antunes faz parte de uma plêiade de ilustres personalidades, naturais do que se convencionou chamar Pinhal Interior Sul (PIS), que se destacaram nas suas actividades profissionais e académicas atingindo níveis superiores de competência e de reconhecimento. Estou a referir-me ao Dr. Pedro da Fonseca, S. J. (1528 – 1599) “ O Aristóteles Lusitano”, natural de Proença-a-Nova, provavelmente o mais conhecido filósofo português do século XVI; a António de Andrade (1581-1634), natural de Oleiros e o primeiro europeu a chegar ao Tibete; a António Pereira de Figueiredo (1725-1797), oratoriano, natural de Mação, conselheiro e confessor do Marquês de Pombal, gramático e latinista por excelência; a Joaquim da Silva Tavares (1866 – 1931), cientista afamado, fundador da revista Brotéria, natural de Cardigos; a Sebastião Maria Aparício da Silva (1849-1942), natural da Fundada – Vila de Rei, missionário em Timor, fundador de Soibada e autor do primeiro dicionário Tétum – Português e a João Maia (1923-1999) jesuíta, escritor, professor, poeta e colaborador da Brotéria, também natural do concelho de Vila de Rei. Entre muitos outros.

            Todos eles têm em comum, além de terem nascido neste território, agora dito do PINHAL, o facto de terem prosseguido os seus estudos em seminários católicos, tal como muitos de nós aqui presentes, o que nos convida a revisitarmos o importante papel desempenhado pela Igreja na promoção e na mobilidade social das populações rurais do Portugal mais profundo.

            Contudo, hoje, o dia é para MANUEL ANTUNES.

É fácil falar de MANUEL ANTUNES, tal é o conjunto publicado dos seus escritos e as centenas de referências biobibliográficas sobre a sua obra. Difícil é falar de MANUEL ANTUNES em 30 minutos e quase impossível é dizer algo que nunca tenha sido dito sobre esta personalidade impar da cultura e do pensamento português do século XX.

            Vou tentar abordar alguns aspectos menos conversados da sua vida e da sua obra.

 

IMG_0700.jpg

Recordar MANUEL ANTUNES

No início de Novembro de 2018, decorreu entre a Assembleia da República, a Casa da Cultura da Cultura da Sertã e a Fundação Calouste Gulbenkian um Congresso Internacional: “REPENSAR PORTUGAL, A EUROPA E A GLOBALIZAÇÃO. 100 anos Padre Manuel Antunes, S.J.”). Folheando o Livro de Resumos do evento, entre as mais de 120 comunicações, é possível percebermos a pluridimensionalidade da sua obra e apenas recordo os títulos de algumas comunicações: “Padre Manuel Antunes, humanista e paladino das humanidades”, “O Homem espuma contra o Homem todo: Apontamentos para uma leitura sobre direitos humanos na obra do Padre Manuel Antunes”, “Repensar Portugal e a ideia de Europa. Pensamento Contemporâneo”, “Manuel Antunes, SJ – História e Cultura”, “Manuel Antunes, crítico de Pessoa, Pascoais e Régio”, “Um homem de Deus na Cultura…”,”Relações do Padre Manuel Antunes com a elite política portuguesa no período democrático”, “NA expectativa do ensino livre, à luz do Padre Manuel Antunes”, “Ética, política e direito democrático…”, “O Padre Manuel Antunes e a ciência”, “… Para uma espiritualidade da globalização em Padre Manuel Antunes”,” Padre Manuel Antunes e George Steiner, intérpretes do mundo contemporâneo”, “A serena demanda da justiça social em Manuel Antunes”, “O Padre Manuel Antunes e a concretização da reforma das Faculdades de Letras em 1957”,” A razão da fé”, “O imperativo da “revolução moral”: O Padre Manuel Antunes e a civilização luso-brasileira”, “O concelho da Sertã na pseudonímia do Padre Manuel Antunes”, “ … Para uma espiritualidade da globalização em Padre Manuel Antunes”, “Manuel Antunes e Fernando Pessoa: Uma proposta de diálogo”, “Manuel Antunes: O lugar das Humanidades no futuro da Educação”, “Traços transdisciplinares na obra do Padre Manuel Antunes…”, “ Padre Manuel Antunes: Um homem em busca do tempo”, “Padre Manuel Antunes: Portugal e a globalização”, “ … Padre Manuel Antunes, o bom semeador, na Faculdade de Letras”, “Política e prospectiva em Manuel Antunes”, “O Padre Manuel Antunes e o olhar para as minorias”, “A importância dos partidos na iniciação política dos jovens segundo o Padre Manuel Antunes”, “Manuel Antunes, filósofo da educação”, “Um sábio muito humano”, “Ensinar a pensar a escola”, “Padre Manuel Antunes, o crítico literário”, “Padre Manuel Antunes. Filosofia da cultura e cultura da filosofia”… Ficamos com uma ideia da multidimensionalidade do pensamento e da obra do agora homenageado.

Todos recordamos MANUEL ANTUNES. Existem imagens suficientes para lhe definir um retrato físico e muitas são as palavras utilizados para lhe traçarmos um perfil psicológico. “Aquele mínimo de voz, que tinha peso”, a delicadeza, a humildade, a modéstia, a doçura, a sabedoria, a alegria, o humor, a fragilidade, a sobriedade, a finura, a timidez aparente, a coragem, a suavidade, a confiança, (…) são vocabulário abundantemente usado por quem com ele privou para o definir. O Padre João Maia, amigo que o conhecia bem, costumava dizer que “era um homem de grandes certezas e tinha a inflexibilidade dos mansos” e que “mesmo quando era objecto de injustiça, mantinha um equilíbrio de homem que trazia no rosto uma espécie de rito sofredor que lhe vinha talvez, ou sem talvez, de uma infância dorida, de uma adolescência consciente de grandes problemas íntimos …”

MANUEL ANTUNES nasceu aqui na Sertã, em casa de seus pais na Abegoaria, às duas horas do dia 03 de Novembro de 1918. Seu pai era natural de Oleiros e sua mãe, de Proença-a-Nova. Era o filho primogénito de um casal de origens muito humildes, o pai era jornaleiro e a mãe doméstica, analfabetos e pobres num ambiente rural de agricultura de subsistência cheio de dificuldades naturais do final da 1.ª Grande Guerra e que uma cheia em 1915, na Sertã, tinha vindo agravar. O pequeno Manuel começou a frequentar a escola primária Conde Ferreira, mesmo aqui al lado, e cedo começou a chamar a atenção da professora pela sua viva inteligência e interesse pelos estudos. O caminho do seminário aparece como sequência natural onde apenas os filhos dos mais abastados poderiam prosseguir os estudos noutras escolas.

Foi estudando em Portugal e no estrangeiro, nos seminários jesuítas e em diversas universidades, até chegar ao ano de 1957 quando foi convidado por Vitorino Nemésio para leccionar História da Cultura Clássica que havia sido introduzida no plano das licenciaturas na Faculdade de Letras de Lisboa como obrigatória nos cursos de Filologia Clássica, Filologia Românica e Filologia Germânica, de História e Filosofia. Consta que, ao receber o convite, teria avisado Vitorino Nemésio de que precisava de 10 anos para conceber e preparar o programa da cadeira. Ele, que tinha passado a vida estudar e a ensinar Cultura Clássica nos colégios e universidades da Companhia de Jesus e tinha uma preparação específica acima da média, não se sentia preparado para a tarefa! Claro que não esgotou os 10 anos. Bastaram meia dúzia de meses…

IMG_4651.jpg

Em 1969 a disciplina de História de Cultura Clássica deixou de ser comum àqueles cursos como disciplina obrigatória do 1.º ano ficando reduzida aos alunos de História e Filosofia. Foi assim que o fui encontrar como meu professor nessa disciplina no início dos anos 70.

Dava aulas teóricas no famoso anfiteatro N.1 da Faculdade, com capacidade para 350 pessoas, invariavelmente cheio de alunos interessados. Certamente sempre mais de 350 porque com alguma frequência vinham alunos de outras faculdades assistir às suas lições e até nas coxias havia alunos sentados. O silêncio era total e a sua voz, tímida e sumida, era perfeitamente audível.

O professor MANUEL ANTUNES era de uma clareza sintética extraordinária. Todos percebíamos o que ele dizia. As dúvidas surgiam quando começávamos a reflectir no conteúdo das suas mensagens, quando passávamos “do termo ao conceito”, como ele estava constantemente a aconselhar que fizéssemos…

Nunca fui um aluno brilhante nem de dar nas vistas. Nas aulas de MANUEL ANTUNES, era um daqueles 350 indiferenciados que me situava nas filas do meio do anfiteatro. Tinha estado apenas em duas aulas de Cultura Clássica e ainda não tinha feito qualquer intervenção na aula. Naquele início dos anos 70, as casas regionais desempenhavam um papel muito importante em Lisboa na integração social das populações rurais que iam abandonando o interior na demanda de uma vida melhor na grande cidade. A Casa da Comarca da Sertã era uma delas e eu frequentador assíduo dos bailaricos ao fim de semana na rua da Madalena. Um dia vejo lá agendada uma palestra pelo Padre Manuel Antunes para o fim-de-semana seguinte. Como não podia deixar de ser, apareci. Já não me lembro do tema mas, no final, pus-me na fila e fui dar os parabéns ao ilustre palestrante. Ele olhou para mim com ar admirado e atirou: “- O Sr. é meu aluno na faculdade! Não me diga que é meu conterrâneo?!” Lá fui dizendo que não era bem conterrâneo mas vizinho. Que era natural de Cardigos. (Afinal a Casa da Comarca da Sertã também tinha um âmbito territorial que se estendia a Cardigos e Amêndoa que, embora do concelho e Mação, pertenciam então à Comarca da Sertã.) “- Olhe, aqui não há oportunidade de falar mas vá ter comigo lá na Faculdade.” Na semana seguinte, no final de uma aula acedi ao convite e fui ter com o professor. Era simples o que ele tinha para me dizer. Que quando tivesse algum problema, o fosse procurar e se precisasse de consultar bibliografia específica para trabalhos académicos que fosse ter com ele à casa da Brotéria que a biblioteca estava à minha disposição. O que aconteceu várias vezes, não só comigo mas com todos os alunos. Era de uma disponibilidade quase total como professor.

IMG_4663.jpg

Por falar em Brotéria, recordo que ele foi dela director desde 1965 a 1982, tendo publicado artigos regularmente desde 1940. Julgo que não estarei enganado se disser que foram mais de 400, sobre as mais diversas temáticas, assinados com mais de 120 pseudónimos, muitos deles inspirados na toponímia do Pinhal como: Trízio, Mougueira, Cumeada, Isna, Amioso, Ermida, Azinhal, Palhais, Cardigos, Sobreira, Avelar… Há quem diga que a escolha destes topónimos remete para um certo bairrismo e revela a importância que ele atribuía às suas raízes, ele que, ainda no dizer de João Maia, “era um homem enraizado” e de “vasto saber, de saber europeu, digamos assim, a começar nas raízes gregas e latinas”. Relativamente aos topónimos, correm mais duas teorias interessantes. Uns opinam que, tendo a Brotéria em determinados períodos poucos colaboradores, era ele que escrevia a maior parte dos textos sobre os mais diversificados assuntos e o uso dos pseudónimos seria uma forma de esconder o facto. Outros garantem que era uma forma de ludibriar a censura que então se abatia sobre a imprensa. Seja como for, são apelidos da região do Pinhal que inspiraram Manuel Antunes.

A maior parte dos textos de MANUEL ANTUNES foi escrita ao longo dos anos, em forma de artigos, nas páginas da BROTÉRIA e os livros que foram editados resultam de compilações desses textos. Alguns tornaram-se conhecidos e quero fazer-lhes aqui uma referência especial: “Do Espírito e do Tempo”, 1959;“Grandes Derivas da História Contemporânea”, 1972; “Occasionalia. Homens e Ideias de Ontem e de Hoje”, 1980 e, de todos o mais badalado, “Repensar Portugal”, 1979. Já neste milénio, a Fundação Calouste Gulbenkian promoveu a edição completa e crítica da sua Obra Completa.

Sem querer comentar qualquer passagem específica não poderia deixar de citar duas ou três passagens dos seus escritos numa selecção quase aleatória mas para mim significativa e actual:

“Pretendeu-se (…) eliminar a necessidade e a urgência daquela reforma das mentalidades, daquela mutação dos valores, daquela revolução dos costumes e das instituições, de tudo aquilo, numa palavra que constitui o viver de um Povo, na sua mentalidade, na sua história, na sua cultura”

“ É o descrédito, terrivelmente perigoso, de uma classe política pouco preparada, que rapidamente ascendeu, e não menos rapidamente está a declinar a olhos vistos, devido à incompetência, ao oportunismo, ao demagogismo e à excessiva partidarização dos seus quadros”. (Reflexões feitas cinco anos depois do 25 Abril, no Prefácio do “Repensar Portugal”)

IMG_4677.jpg

Hoje, quando a própria UNESCO se preocupa com a menor atenção dada ao ensino das Humanidades em prejuízo das Tecnologias e das Ciências e prepara a definição de novas linhas orientadoras para o Ensino e a Educação a nível mundial, recordo o que  Manuel Antunes já escrevia no n.º 95 da Brotéria, em 1972:

 ” Na evolução da espécie humana, depois do homo faber, que aprendeu a construir instrumentos, seguiu-se o homo sapiens, com capacidades intelectuais superiores, e, no dizer de alguns estudiosos, ao homo sapiens sucedeu o homo mechanicus. É um produto da modernidade que começa com Francis Bacon, Galileu e Copérnico, continua com Descartes, Newton, Leibniz, com a Revolução Industrial, com o liberalismo económico… e chega ao relativismo, à física quântica, à cibernética … É um conquistador da Natureza e do próprio Homem mas, simultaneamente, um predador do Universo. É o “ homo modelado pela máquina no seu modo de pensar, de imaginar e de se comportar.” (…) O homo mechanicus foi perdendo a compreensão do global e a sua confiança ilimitada na ciência e na técnica pode degenerar em exclusivismo e negar outras formas de conhecimento e outras abordagens à realidade. A Ciência e a Técnica passaram de servas e dependentes da Filosofia e da Religião a senhoras e dominadoras, quase negando a outras disciplinas o seu campo próprio e criando esperanças, expectativas e promessas que depois não cumprem. Nem podem cumprir. Por isso, a pouco a pouco e às apalpadelas, se foi abrindo o caminho para a contestação deste “império universal da ciência e da técnica”. Por isso se foi criando e foi crescendo a consciência da necessidade de andar por outros caminhos que não só por uma via única, rectilínea e exclusiva do progresso material. Por isso se foram tentando múltiplas experimentações e ensaiadas outras dimensões do humano que, apesar do desvio de umas e o insucesso de outras, tiveram pelo menos o mérito de realizar acções simbólicas significativas. Hoje, não se trata de voltar ao dualismo cartesiano da res cogitans e da res extensa mas de o superar. Agora, importa assumir plena consciência e responsabilidade dessa superação seguros de que, sem ciência e sem técnica, a Humanidade não pode evoluir nem subsistir. É preciso remexer as coisas, e nas coisas, até ao fundo e no global, na diversidade das várias dimensões do real, sem nos contentarmos com agitações parcelares e de superfície, pequenas ou grandes. É urgente agir sobre o próprio pensamento e pensar a própria acção, clarificando totalmente os meios e os fins, para arrumar o espaço exterior e evitar o abandono do mundo interior aos “animais nocturnos”.

Nesta época de crise e de risco permanentes, embarcados numa aventura que tem de ser comum a todo o género humano, precisamos de conhecer, com o mínimo de segurança e discernimento, a rota certa, o caminho que diz liberdade e não opressão, verdade e não engano, totalidade e não parcialidade…

É trabalho de todos, e para todos, contribuir para a descoberta dessa rota. Particularmente daqueles que para isso receberam missão ou dom, dos “especialistas em humanidade”. Que não são necessariamente os especialistas em Ciências Humanas.”

IMG_4664.jpg

Recordo que MANUEL ANTUNES recebeu o 25 de Abril como uma necessidade de mudança e de arejamento, até com algum entusiasmo. Refere o saudoso professor Luis Lindley Cintra, seu colega e amigo na Faculdade de Letras, que MANUEL ANTUNES era um “idealista possuidor de um carácter drástico e radical” que evidenciou claramente em 1975, em pleno PREC, ao aceitar, surpreendentemente, fazer parte de um Conselho Directivo da Faculdade eleito por uma lista publicamente apoiada pelo MRPP. Muitos estranharam aquela posição mas Lindley Cintra, que também alinhou com Manuel Antunes, adianta que o fizeram porque lhes parecia que ali havia “qualquer coisa de radical, de drástico, na maneira de falar aos estudantes e que ali estava qualquer coisa de mais  profundo, que ia mais longe que as outras correntes”. Reconhece que talvez se tenham deixado iludir até certo ponto e que muita coisa estava errada mas, naquele ano de 1975, lhes parecia possível aquela mudança. Na opinião do professor de Filologia foi um tempo necessário ao equilíbrio posterior do funcionamento da Faculdade e confessa que nunca se arrependeu confidenciando: “ creio que o P.e Manuel Antunes, com quem falei muitas vezes sobre este assunto, também não estava arrependido.”

Um Padre MANUEL ANTUNES radical! Quem imaginaria?!

Todos hoje reconhecemos a relevância cultural e intelectual de Manuel Antunes. Por isso foi condecorado duas vezes, uma em vida e outra postumamente, por isso a Assembleia da República apresentou um voto de pesar pela sua morte em 22 de Janeiro de 1985 e por isso foi instituído o Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes, atribuído pela Igreja católica, através do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, para destacar um percurso ou obra que, além de atingirem elevado nível de conhecimento ou criatividade estética, reflictam o humanismo e a experiência cristã.

Na 15.ª edição, este ano, foi distinguido o Professor José MATTOSO, curiosamente também meu Professor na Faculdade de Letras na disciplina de História Medieval de Portugal, nos anos 70. Ao receber a notícia da distinção, José Mattoso declarou-se «muito honrado» e referindo-se a Manuel Antunes declarou que o tem em elevada veneração e que o considera “um dos mais importantes agentes da renovação intelectual cristã em Portugal» vincando que Manuel Antunes “com exemplar serenidade lutou contra o obscurantismo clerical e soube conciliar a fé com a razão.”

Por falar em FÉ e em RAZÃO, quero terminar com um desabafo feito por um antigo professor meu do mestrado em História de Educação, ROGÉRIO FERNANDES, amigo de Manuel Antunes durante muitos anos. Estávamos a conversar sobre o homenageado e Rogério Fernandes sai-se com esta: “Sabe, meu amigo, nunca percebi como era possível que uma pessoa tão culta e tão inteligente acreditasse tão convictamente em Deus.”

 Na verdade, Rogério Fernandes, agnóstico, não podia perceber. Mas, razão tinha ALMADA NEGREIROS que, encontrando certo dia MANUEL ANTUNES à esquina do teatro D. Maria, quando ele se afastou, olhou para o Rossio, apontou o dedo indicador para onde seguia o ilustre jesuíta e exclamou: “Sim senhor! Vi hoje um homem que é só espírito.”

Meus amigos e minhas grandes amigas, é o ESPÍRITO desse homem superior que hoje aqui evocamos e que permanece entre nós com sua mensagem pluridimensional e orientadora.

IMG_0572.jpg

Termino, agora é que é, parafraseando o grande JORGE DE SENA: “Só conta tudo quem tiver muito pouco para contar.”

  E muito mais haveria que contar sobre este ilustre sertaginense. Talvez nos voltemos a encontrar para falar de MANUEL ANTUNES. Obrigado pela paciência que tiveram em escutar-me.

Casa da Cultura da Sertã, 18 de Maio de 2019

António Manuel Martins da Silva

1 comentário

Comentar post