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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Serei uma pessoa razoável?

08.02.21 | asal
Caro António
Faço votos que te encontres com saúde assim como toda a tua família, apesar dos condicionamentos que o confinamento nos impõe.
O que vou lendo nas redes sociais e o confinamento contribuíram para a escrita do texto que te envio. 
Confio-te a correção dos erros e emendas que achares por bem.
Confio também na tua «razoabilidade» sobre a publicação ou não do texto.
Há também a intenção de ir mais além do que a publicação de aniversários e a palavra do sr. bispo. Nunca compreendi muito bem o silêncio da escrita de muitos dos nossos antigos colegas.
Um grande abraço e cumprimentos para toda a tua família na esperança de que o vírus não vos venha a incomodar.
Mário Pissarra
NOTA: Mais uma colaboração do Mário e mais um aguilhão a todos nós. Como quem diz: "Vá lá, despachem-se, escrevam antes que a morte vos leve"!!! AH
 

Serei uma pessoa razoável?

Mário Pissarra.jpeg

 

 1.- Comecei por aprender que o homem é um animal racional. A racionalidade era a característica que o distinguia dos restantes animais; esses eram todos irracionais (não racionais). Os filósofos consideravam esta característica ou faculdade – a nota essencial ou distinguidora – dos humanos. Por vezes, confundiu-se racionalidade com inteligência. Os estudos sobre a inteligência mostraram a existência de várias inteligências e que os animais superiores além de conscientes são também inteligentes, embora a inteligência abstrata e manipuladora de símbolos só esteja presente nos humanos. Mais tarde, começou-se a chamar a atenção para o termo grego – logos – que tanto significa razão como palavra/verbo/dizer. Os diferentes estudos nos domínios da linguagem vieram provar que os animais comunicam e expressam, mas não teorizam nem argumentam, isto é, há certas funções da linguagem que são comuns à comunicação dos homens e dos animais. Só o homem fala, é o único que inventou palavras/conceitos, construiu línguas, inventou teorias e argumenta em defesa do que defende.

 

2.- Descartes começa a sua obra mais conhecida – O Discurso do Método – proclamando que a razão ou bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, isto é, todos somos igualmente racionais. Brinca mesmo considerando que estamos descontentes com o que temos (riqueza, beleza, tempo livre, comodidades, liberdade, etc.), mas se alguém nos considerar sem razão ofende-nos. Por outras palavras, os nomes que chamamos às pessoas destituídas de «razão ou bom senso» são não só desagradáveis, mas diminuem-nas como homens. A revolução cartesiana consistiu em fazer depender o êxito dos homens na procura da verdade de saber aplicar bem a razão, isto é, o sucesso e a diferença entre os homens não residem na racionalidade, mas no método ao usá-la.

Houve sempre um pouco de areia nesta engrenagem. Havia homens que não mostravam grande racionalidade nos seus comportamentos e eram incapazes de pensar, dizer e agir com racionalidade. Que lhe chamemos anormais, aberrações da natureza ou doentes do foro psiquiátrico pouco ou nada altera a realidade. Os ataques ao essencialismo forçaram alguns a atribuir a racionalidade aos homens normais. A racionalidade é assim uma faculdade ou um conjunto de capacidades características da espécie humana e presente em cada ser humano concreto.

3.- Estabelecida a racionalidade como faculdade comum dos humanos normais, segue-se daí que estes sejam sempre razoáveis? Adianto já a resposta. Não!  Muitas vezes, somos muito pouco razoáveis. O homem utiliza a razão na sua ação para muitos fins, por isso se diz que a ação humana é teleológica, isto é, orientada para um fim. Daí o carácter instrumental da razão procurando os meios para alcançar esses fins/objetivos. Somos racionais ao estabelecer objetivos para a ação e encontrar e disponibilizar meios para os atingir. A razão é uma espécie de ouro de mil utilizações. As suas capacidades são postas ao serviço dos mais variados fins. Nem sempre a utilizamos ao serviço do bem. Os criminosos, pelo facto de o serem, não deixam de ser racionais e não prescindem da razão ao planear e executar os crimes que cometem.

4.- Pessoalmente, aprendi o conceito de razoabilidade desde criança e em três contextos e com significado diferente.

            4.1.- Contexto quantitativo. «Isso já é uma quantidade razoável.» Razoável significa aqui que não era uma quantidade pequena ou desprezível, mas significativa. Qualquer quantidade (azeitona, cereal, terreno, dinheiro, área, etc.) podia ser considerada ‘razoável’.

            4.2.- Contexto negocial. Trata-se de propor um preço razoável. A razoabilidade do preço era exigida a quem pedia e a quem oferecia. Demasiado baixo era mangar com o preço ou fazer pouco do produto e era ofensivo para o outro. A razoabilidade do negócio atingia-se pelo jogo da subida e descida do preço de quem pedia e oferecia. Terminava, frequentemente, quando os valores se aproximavam num valor intermédio. Selava-se com um «rachar a diferença ao meio».

            43.- Contexto ético-moral. Considerar alguém uma pessoa razoável equivalia a dizer: "é uma boa pessoa, sensata, séria, comedida, compreensiva e ponderada, que evita os extremismos, as reações a quente. A razoabilidade é, ao contrário da razão que se orienta para o abstrato, o conhecimento e a teoria, uma virtude prática, orientada, para o agir, para a prática, o saber comportar-se próximo da prudência e da justiça. Ora, como nos ensinou Aristóteles, as virtudes ganham raiz e fortalecem-se pelo seu exercício, pela sua prática. O nosso povo conservou este ensinamento no ditado «bem prega frei Tomás. Fazei o que ele diz e não o que ele faz».

5.- Mais tarde tive de queimar as pestanas com os estudos sobre a «escolha racional». Esta problemática veio da economia, tentando saber se as nossas escolhas eram as melhores em relação aos fins. Por outras palavras, temos comportamentos razoáveis, nas nossas escolhas de consumidores? As conclusões destes estudos apontam para inúmeros exemplos de escolhas pouco razoáveis. Estes estudos movem-se no que a Escola Crítica de Frankfurt chamou a razão instrumental.

6.- Os ataques e a diabolização da razão instrumental também me ensinaram muito sobre a ação e o comportamento dos humanos racionais, por vezes, muito pouco razoáveis. Foi, entre outros, com J. Habermas que a reflexão filosófica sobre a  ação humana ganhou novas dimensões e perspetivas, sobretudo no seu diálogo com a filosofia analítica anglo-saxónica e se enriqueceu significativamente.

7.- A razoabilidade é um tema central em Rawls e imprescindível para se viver em democracia. Está no cerne das suas riquezas e fraquezas, da sua vivência no quotidiano da vida das pessoas e na organização da sociedade. Não há democracia sem pluralismo. A existência de pluralismo implica propostas diferenciadas, oposição, dissensão, mas também diálogo e negociação. Sempre que há uma maioria absoluta, o autoritarismo espreita e é uma tentação, pois pode dispensar a negociação e o diálogo ou reduzi-los a simulacros e formalidades. Numa negociação, tem de haver esforços para atingir consensos mínimos. Ora, isso implica cedências das partes envolvidas. Quando se atinge esse consenso mínimo, ainda que as negociações tenham tido êxito, nenhum dos negociadores fica totalmente satisfeito, pois a escolha/decisão final não é a da sua proposta. Os dogmatismos e fanatismos não dialogam nem negoceiam. Agarram-se às suas crenças e convicções na esperança de poder vir a impô-las aos outros. Não têm dúvidas nem se questionam e os outros não possuem qualquer parcela da verdade, são ignorantes ou deixaram-se enganar. Este modo de pensar é um obstáculo e um perigo para a democracia.

8.- Conclusão: a democracia exige tanto a razão como a razoabilidade. Sem razoabilidade não há nem pluralismo, nem tolerância, nem a noção de bem-comum ou o melhor para o país. Se cada um se fechar na sua solução, inviabilizando a negociação, nega-se o diálogo e inviabiliza-se a democracia. Não há negociação sem argumentos e os negociadores não têm a mesma força. De onde retiram a sua força? Da representatividade que os eleitores lhe conferem nas urnas. Uma das falhas da nossa vida democrática, visível na nossa vida quotidiana, é a ausência de uma cultura democrática. Em meu entender, é isso que explica muitos dos atropelos na vacinação.

Mário Pissarra

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