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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Seminário no Gavião

17.10.20 | asal

Passei pelo seminário do Gavião nos anos de 1961/2 e 62/63. Semin.Gavião.jpgNo verão anterior, tinha lá ido fazer o exame de admissão.

Tenho muitas memórias episódicas dessa passagem, mas essas interessam sobretudo às pessoas com as quais as vivi.

Os seminaristas não tinham qualquer relação com a vila e as suas pessoas. Certamente haveria algumas pessoas que prestavam serviço ao seminário. As lavadeiras, por exemplo, mas eu nunca as vi. Ilustro o que digo com a constatação que durante estes dois anos só entrei na igreja matriz do Gavião duas vezes: para me crismar e fazer a promessa de escuteiro. Mais que o Gavião, fiquei a conhecer os seus arredores.

Às quartas-feiras e aos domingos, íamos passear depois de almoço. Saíamos pelo portão lateral do seminário e seguíamos por duas ruas. Uma quando íamos para o campo de futebol jogar, a outra quando íamos para as quintas cujas famílias autorizavam que os seminaristas visitassem. Ia sempre um padre connosco. Em dias festivos, íamos para o Alamal ou para a Margalha passar o dia. Ia uma carroça levar o almoço.

O nosso contacto com as pessoas era o que ocorria nesses passeios e com quem nos cruzávamos. Creio que os padres do seminário teriam algum relacionamento pastoral com a paróquia e alguns tinham uma espécie de centro de explicações de ensino doméstico.

Ficou gravado na minha memória um episódio que se mantém bem vivo até hoje. Ainda sou capaz de ir lá e dizer qual era a porta. Vi um burro a entrar numa casa no centro do Gavião. O espanto foi ver o burro a entrar pela mesma porta que as pessoas. Nunca acontecia na minha terra. A porta das pessoas e a do burro eram diferentes.

Noutra ocasião, à entrada do Gavião vindo do campo de futebol, ouvi e corri atrás de um miúdo que gritava: «vão ali os corvos! Vão ali os corvos!» Vim depois a saber que isso derivava de em anos anteriores os seminaristas saírem vestidos de preto. No enxoval que me mandaram levar tinham riscado o fato preto.

A minha viagem para o Gavião foi uma aventura, pois eu nunca tinha visto um comboio nem vindo a Castelo Branco. O espanto começou quando o comboio começou a parar em estações que não constavam na lista que havia aprendido na primária. Já era suficiente a preocupação de vir para uma estação (Belver-Gavião) que também não constava na lista. Creio que nunca me sentei e ficou gravado o pregão de «água e bilha!» desde Vila Velha de Ródão e a observação de formas de amanhar as hortas que desconhecia.

Num regresso de férias, na estrada da estação de Belver até ao Gavião havia muito peixe do rio. A pescaria foi grande e os peixes foram caindo da carroça. A pesca no Tejo e a venda de peixe do rio era uma atividade de grande visibilidade.

Também me lembro de, numa partida para férias, fazer o assalto ao castelo de Belver a corta mato a partir da linha férrea e de, numa visita ao castelo, o castelão me ter feito rir. Olhou para um dos meus colegas e diz: «tu deves ser mesmo muito esperto, tens olhos de perdiz!». Era repetente e dos piores alunos da minha turma.

A vida no seminário decorria dentro dos muros. Assentava em três grandes pilares:

- Orações e actos litúrgicos (oração da manhã e da noite, meditação, missa, terço, leitura espiritual, antes e depois das aulas e das refeições;

- Estudo (havia um estudo de meia hora antes de cada aula e à noite um estudo grande de uma hora e meia).

- Jogar – no recreio, no campo de jogos e jogos de mesa.

Mário Pissarra.jpeg

A vida decorria entre as seis e meia - sete aos domingos – (levantar) e as nove e meia (deitar).

O curso era o curso liceal (as disciplinas do Liceu) e além disso música, latim, canto e civilidade).

Adaptei-me facilmente e gostei da vida no seminário do Gavião.

                                                                                                                                                     Mário Pissarra

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