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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Saudades da Terra

23.02.22 | asal

Caro António, Boa Saúde para ti e todos os teus. Descobri há pouco este belo poema de A. Gedeão, que me sensibilizou, e se julgares oportuno publicá-lo, aí vai. com um grande abraço do J. Caldeira

A. Gedeão.jpg

Uns olhos que me olharam com demora,

não sei se por amor se caridade,

fizeram-me pensar na morte, e na saudade

que eu sentiria se morresse agora.

E pensei que da vida não teria

nem saudade nem pena de a perder,

mas que em meus olhos mortos guardaria

certas imagens do que pude ver.

Gostei muito da luz. Gostei de vê-la

de todas as maneiras,

da luz do pirilampo à fria luz da estrela,

do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.

Gostei muito de a ver quando cintila

na face de um cristal,

quando trespassa, em lâmina tranquila,

a poeirenta névoa de um pinhal,

quando salta, nas águas, em contorções de cobra,

desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,

quando incide num prisma e se desdobra

nas sete cores do espectro.

Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria

quando galga lambendo o dorso dos navios,

quando afaga em blandícias de cândida luxúria

a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.

E também gostei muito do Jardim da Estrela

com os velhos sentados nos bancos ao sol

e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho

e a adormecê-la

e as meninas a correrem atrás das pombas

e os meninos a jogarem ao futebol.

A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,

à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,

gostei muito de ver

erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.

Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados

que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,

e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,

de olhos postos nos olhos, angustiadamente.

E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,

e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras

grosseiras,

e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,

e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.

Mas ... saudade, saudade propriamente,

essa tenaz que aperta o coração

e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.

Saudade, se a tivesse, só de Aquela

que nas flores se anunciou,

se uma saudade alguém pudesse tê-la

do que não se passou.

De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,

ou estará por nascer - quem sabe? - ou talvez ande

nalgum atalho deste mundo grande

para lá dos confins do horizonte perdido.

Triste de quem não tem,

na hora que se esfuma,

saudades de ninguém

nem de coisa nenhuma

ANTÓNIO GEDEÃO (24.11.1906-19.2.1997)

“Máquina de Fogo”, 1961