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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

São Sebastião nas Beiras

20.01.20 | asal
Meu Bom e caro Henriques
Escrevi este simples texto, motivado pela recente revitalização da secular devoção a São Sebastião, nestas terras beirãs. Nestes últimos fins de semana, aconteceram por estes lados, alguns "bodos", partilhados que foram em várias paróquias da nossa diocese e da diocese da Guarda, nossa vizinha.
Filhós, vinho, chouriças, tremoços, papas de milho e outras iguarias foram partilhadas, gratuitamente, por todos os que quiseram participar nestes festejos, em honra do Mártir São Sebastião. Foi lindo de ver, acredita.
Cordialmente, um grande abraço e um sincero voto para que o próximo Encontro de fevereiro seja um sucesso, como tem acontecido no passado. Estarei convosco, desta vez, em espírito. António, Se o texto não puder entrar, amigos como sempre. Fica à tua inteira liberdade.
Forentino Beirão

Florentino2.jpg

 

Devoção a São Sebastião nas Beiras

S.Sebastião, segundo relatos antigos, terá nascido cerca de 256, sendo martirizado em 286, na perseguição ordenada pelo imperador Dioclesiano (284-311). Sendo um cidadão de Milão, apesar de ter nascido em França, Sebastião integrou-se no exército imperial romano.

Os mesmos relatos dizem-nos que ele terá chegado a Roma, através de uma caravana de emigrantes, pelas costas do mar mediterrâneo.

Segundo um documento tardio, atribuído a Santo Ambrósio (340), mestre de Santo Agostinho, ambos doutores da Igreja, Sebastião era um soldado que se alistou no exército romano, por volta de 283, com a intenção de apoiar os cristãos torturados e desanimados, pelas perseguições imperiais.

O Imperador, devido às suas qualidades, deu-lhe o cargo de capitão da sua Guarda Pretoriana.

Por volta de 286, Dioclesiano começou a notar a sua conduta muito branda na perseguição aos cristãos, não lhes impondo os severos castigos decretados. Julgado por esta sua conduta, foi considerado traidor às leis do imperador. Depois de denunciado e julgado, o imperador romano mandou-o martirizar com um feixe de flechas. Tendo sido dado como morto pelos seus assassinos, foi lançado às águas de um rio. Porém, conta a tradição, aconteceu que Sebastião já moribundo, não se encontrava totalmente morto.

Nesta situação de grande sofrimento, à beira da morte, seria encontrado num rio, por uma bondosa senhora, de nome Irene, que conseguiu ainda reabilitá-lo e salvar-lhe a vida. Porém, ao ter conhecimento deste facto, o imperador, muito irritado com o sucedido, mandou-o novamente assassinar com violência tal que Sebastião, desta vez, acabaria por não resistir aos atrozes sofrimentos dos seus algozes.

Depois de morto, em vez de ser sepultado com dignidade, como tinha sido desobediente às leis imperiais, teria sido lançado dentro dos enormes e profundos esgotos de Roma.

Porém, uma senhora romana de nome Luciana, encontrando ali o cadáver de Sebastião, limpou-lhe as feridas e decidiu sepultá-lo nas Catacumbas de Roma, onde se reuniam os cristãos às escondidas, para não serem notados.

Toda esta história é hoje, por muitos historiadores, considerada mais como uma piedosa alegoria do que uma realidade histórica comprovada. Apesar disso, ela foi atravessando muitos séculos, chegando até nós.

Coube à arte na Idade-Média representar este jovem soldado mártir, amarrado a uma estaca, perfurado por setas (flechas). Apresentado nu e amarrado nas suas imagens, pode representar uma semelhança com Cristo crucificado, com dolorosos e mortíferos pregos.

O que sabemos como certo é que a devoção ao Mártir São Sebastião, através das grandes manifestações da religiosidade popular, é que ela nasceu bem cedo, nos alvores do cristianismo, no séc. IV, já depois da paz de Constantino (313). Porém, o seu expoente máximo foi atingido ao longo da Idade Média, tempos de guerras, de fomes e de pestes.

S. Sebastião.jpg

Esta devoção secular, ao longo dos tempos, tem dado origem à construção de igrejas, capelas e ermidas, em quase todas as aldeias da região da Beira Baixa, antiga diocese da Guarda.

Esta devoção estende-se ainda ao norte e ao centro do país, bem como às regiões autónomas da Madeira e dos Açores. Podemos encontrá-la ainda, em grandes regiões brasileiras e em território espanhol, nomeadamente, no célebre Festival do Pão, na zona da Andaluzia. Não esquecendo ainda a vasta América Latina e os Estados Unidos (Califórnia), onde S. Sebastião é patrono dos veteranos de guerra.

Em Portugal, é venerado como o grande padroeiro dos pescadores, dos militares, arqueiros e ourives. No período em que as guerras da Restauração (1640) e as pestes mortíferas do séc. XVII atacaram as populações raianas, os fiéis recorriam a S. Sebastião, sobretudo contra a cólera e ainda contra as numerosas pragas dos gafanhotos. Desses tempos restam ainda hoje, em algumas terras da Beira Baixa e no norte do país, no final da quadra natalícia, finais de janeiro, os seculares bodos dos pãezinhos, papas, filhós, tremoços e até de fitas ao pescoço das crianças, tidas como protetoras contra as febres.

A Igreja Católica festeja este santo no dia 20 de Janeiro, fim do ciclo natalício, e os cristãos ortodoxos da Grécia, no dia 18 de Dezembro.

florentinobeirao@hotmail.com

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