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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Salvemos o interior

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 Caro Henriques

Não pretendendo monopolizar o nosso  Animus, com espaço para todos, aí te envio mais esta peça. Penso que a temática poderá interessar a uma grande parte dos nossos amigos, oriundos destas ignoradas e desprezadas paragens. Tomar consciência da doença poderá já ser um princípio da sua cura. Já basta o sofrimento de tantos pobres inocentes...
Com a amizade de sempre, as melhoras.
f.b.

NOTA: Sabe bem receber estes textos. Venham mais! Quem avança agora? AH 

 

Já basta de desprezo

 

“Há males que vêm por bem”, lá diz o ditado popular, na sua ancestral sabedoria. Aplicado ao interior do país, assenta-lhe que nem uma luva. Caso não acontecesse a tragédia de que foi vítima, nos incêndios do passado verão, provavelmente, tudo permaneceria como dantes. Os mais de cem de mortos, vítimas dos largos anos de incúria no tratamento das florestas, de tal modo chocou o país, que finalmente o governo tocou as campainhas, convocando os responsáveis, para se tentar evitar tão angustiante flagelo. Jamais o país se poderá tornar novamente, num novo manto negro de carvão e cinzas.

Este forte apelo, felizmente não tem caído em saco roto, e tem vindo a conseguir despoletar energias no governo, nas autarquias e nas populações, para enfrentar novas investidas do fogo neste verão. Convenhamos que neste aspeto, hoje o interior do país, já se encontra melhor preparado, comparado com o passado.

Quando se começa a olhar para os números, o país estremece, face à realidade que se nos apresenta. O diagnóstico já conhecido revela-nos realidades bem distintas quando se compara o interior com o litoral. Tudo radica na ausência de políticas que não têm sido implementadas pelos diversos governos. Se é verdade que um dos nossos primeiros reis - o Povoador - já se preocupava em povoar o interior - após a Reconquista - logo a partir dos séc.s XV e XVI, com os descobrimentos, a atração para o litoral tornou-se imparável. Mais perto de nós encontramos, nas décadas de 30/50, um novo surto migratório, constituído por minhotos, beirões e alentejanos que se foram concentrando nas periferias das grandes cidades do litoral. Este grande contingente de operários e suas famílias foram sugadas ao interior, onde viviam numa situação social próxima dos servos da gleba, mal remunerados, pela aristocracia fundiária abstencionista.

Ao procurarem melhores condições de vida, acabaram por se instalar em promíscuas barracas, onde viviam miseravelmente. As pessoas que resistiram a este dilúvio populacional, na década de 60, uma maioria acabou por fazer as malas e rumar para o estrangeiro, sobretudo para França. “Ei-los que partem, novos e velhos”, cantava-se então. Noutra direção, se dirigiram os jovens, para lutar nas guerras das colónias: “já e em força”, Salazar dixit. Quase sem se notar, muito de mansinho, quando se começou a deitar contas aos que restavam no interior, os números revelavam então, que 70% da população vivia numa faixa de 50 quilómetros, a partir do mar. Neste espaço do litoral, concentravam-se 82% dos menores de 25 anos. Acontecia ainda que era aqui que se produzia 83% da riqueza do país e viviam 89% dos alunos universitários. Um país, que foi empurrando a sua população para uma pequena faixa, acorda agora para um vasto interior desabitado, quase sem nascimentos, com poucos jovens, com elevada mortalidade e com uma população isolada, pobre, envelhecida e com os serviços sociais longe das suas casas.

É verdade que o poder central já acenou aos médicos, convidando-os a rumarem para estas terras. Porém, os resultados têm-se revelado escassos. Ultimamente, até se criou uma Comissão pró-Interior, para apresentar propostas que minorassem as gritantes diferenças entre o interior, quase desértico, e um litoral repleto de problemas urbanísticos e sociais, originados por uma população muito concentrada e excessiva.

Face a este complexo panorama, importa agora promover políticas que tentem inverter esta problemática situação. Sabemos que não será tarefa fácil. Porém, se ficarmos parados, as futuras gerações muito irão sofrer com a nossa incúria. Dentro de um espírito construtivo, o Governo até já iniciou alguns passos para minorar esta situação. Ao Executivo se juntou o ainda o referido Movimento pelo Interior, que recentemente apresentou algumas medidas prioritárias. Mudança de serviços públicos, de Lisboa para capitais de distrito, com compensações financeiras. Aplicação uma taxa de IRC de 12,5%, para as empresas aqui sediadas e ainda a atribuição ao interior de benefícios fiscais, para investimento acima de 25 milhões de euros. Medidas que, a serem concretizadas, serão um princípio de conversa. Com esta intenção, para o próximo ano, o Governo já decidiu fixar mais estudantes nas universidades do interior. Veremos se ainda vamos a tempo de salvarmos o interior. Basta de desprezo.

florentinobeirao@hotmail.com

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