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Animus Semper

Salazar e a Escola Primária - 3

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Dos caps 4.º ao 16, o livro ocupa-se da Escola Primária salazarista em todos os seus aspetos organizativos e programáticos em estreita ligação  com a sociedade, os planos de fomento e as campanhas de alfabetização cujos resultados, apesar de positivos, nunca alcançaram a escala grandiosa  do SPN.  Mas convinha exagerá-los para   consumo interno e externo. A velha chaga  do analfabetismo, marca da 1ª República,  essa vergonha internacional, fora quase debelada pelo génio do fundador do Estado Novo, que se pretendia ser uma réplica do fundador da nacionalidade.

Os professores

Fruto de uma exaustiva  investigação,  o livro dá-nos a conhecer dezenas de decretos-leis e portarias  que se amontoavam na secretária do Diretor regional, que tinha de as fazer cumprir num curto prazo,  sobrecarregando os professores de trabalho burocrático, como é largamente explanado no cap.V ”Burocracia e repressão.”

 Entre as muitas contradições do regime no tocante ao estatuto dos professores, socialmente valorizados mas injusta e humilhantemente mal pagos, alinha-se mais esta da autoria do ministro Carneiro Pacheco: “ O professor não é um burocrata, mas um modelador de almas e de  portugueses” (p.151)   E esta outra de um decreto-lei:  Os professores devem ser, ao mesmo tempo,  burocratas disciplinados e disciplinadores, mestres, educadores e apóstolos”.   E tantas, tantas contradições que até parece que o regime de Salazar escolheu a classe dos professores para bode  expiatório  das perversões de uma ideologia a raiar os limites do  totalitarismo, entrevisto, aliás, nas conversas privadas do Senhor Cardeal Patriarca: «Cuidado, António, olha que o totalitarismo é  igual ao  comunismo, uma heresia excomungada pela Igreja».  Mas será que o homem que ambicionava ser primeiro-ministro de um Governo de um rei absoluto,  ainda estaria disposto a ouvir os conselhos do amigo?

 Poder ditatorial

Numa manha de janeiro de 1928, o jovem professor Salazar teve um encontro com o P. Mateo que viera a Portugal difundir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus ( FLOR: p.36)  O sacerdote, conselheiro do papa Pio XI, fixou-o e disse: 

“ A mim não me enganas. Por detrás desta frieza, há uma ambição insaciável. És um vulcão de ambições.”  E assim foi toda vida.. submetendo com astúcia todos os outros poderes, mesmo os espirituais,  consciente  do seu papel transcendente e providencial na História.  Tarde a Igreja reconheceu o seu engano  e demasiado tarde nós o aceitámos, abdicando da nossa cidadania, até ao declínio do Império, amordaçados por um destino que, se não perdoa os excessos de liberdade, muito  menos se compraz com a submissão bajulatória dos escravos.  Equilíbrio e sentido de medida são a regra estoica  que Ricardo Reis nos ensinou. “ Para ser grande, sê inteiro: nada/ Teu exagera ou exclui…”  Poema publicado na "Presença" no fatídico ano da aprovação por plebiscito da Constituição Corporativa que nos roubou a liberdade!

 Finalmente, a excelente Bibliografia de mais de 60 documentos compulsados com o gosto e o prazer do texto com que o Florentino construiu este belo Livro, que, durante muito tempo lhe pulsou nas veias e que ele tinha de libertar com a sua expressão escrita a um tempo simples e solene, correta sem ser barroca, pedagógica sem ser enfadonha. Acresce que a sinopse ou  tábua cronológica é do melhor que tenho lido,  por ser tão completa e clarificadora.

           Ad multos annos. Valete, fratres!

 

                                                                    Coimbra,1 de fevereiro de 2018

                                                                                                                              João Lopes