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Animus Semper

Salazar e a Escola Primária - 1

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 "Salazar e a Escola Primária  IMG_20180130_170401.jpg

 Concelho de Castelo Branco"

 RJV- Editores da Câm. - Munic. de Castelo Branco, 413pp., 2017 ( 250 exemplares)

 

 1 - O título desta obra, a última saída da oficina de trabalho de Florentino V. Beirão, investigador incansável sobre os diversos aspetos da história regional e nacional,  indica, logo à partida, uma divisão em duas partes:  Salazar, vida e obra (1889-1970) e a Escola Primária, como instituição nacional, situada no Distrito de Castelo Branco, um distrito do Interior, que, apesar da distância do Centro do Poder,  nem por isso sentiu menos o peso burocrático e a vigilância apertada do governo de Lisboa.

   O período abrangido pelo estudo vai desde a ditadura militar de 1926 e a ditadura do Estado Novo (1932-33) até à morte de Salazar (1970). A atenção do historiador foca-se sobretudo nas décadas de 30 , 40 e 50,   em que o regime averba algumas grandes vitórias  nos planos político, diplomático, económico e cultural.   Quanto à década de 60,  anunciam-se as iniciativas de desenvolvimento  urbanístico e do lançamento de infra-estruturas nas Províncias do Ultramar, mas sem grandes delongas, dada a incerteza do momento  e do desfecho da Guerra  Colonial, desencadeada  por um Salazar já septuagenário.

2 - O Dr. Luís Correia, pres da Câmara, faz um breve apresentação, destacando o “ relevante  contributo ( desta obra) para a compreensão do papel da Escola Primária no nosso concelho, durante o Estado Novo” Vem depois a comovente dedicatória do autor ao seu irmão José Maria, falecido durante a 3ª classe”  e ao seu dedicado professor primário João Pedro Rodrigues.

3 - A Introdução (pp 13- 14) começa com uma citação do filósofo da cultura Lucien Fèbre: “ a ciência histórica  é uma operação de escolha e o ofício do historiador  é propiciar a compreensão do passado” e, por esta razão  se justifica a “escolha” do nosso autor em privilegiar a ação  de um homem-charneira, dotado de uma inteligência invulgar, uma mente brilhante, o verdadeiro arquiteto das estruturas  políticas e culturais do Portugal contemporâneo, levantando o país e a sociedade dos escombros da primeira experiência republicana. 

A sua obra, modelada pela ideologia nacionalista e autoritária daquele tempo, não morreu com ele. Nem com a revolução de abril.  Queiramos ou não, para o bem e para o mal, ainda hoje se observam  as suas  marcas e cicatrizes  na própria organização política e no pensamento e maneira de viver de muitos portugueses. ( ver p. 84 desta obra)  Por fim, o autor apela  à leitura da sua obra e a de outros com semelhante temática, como forma  de combater o esquecimento, a amnésia coletiva em que a nossa própria identidade se esfuma em lembranças esparsas e esbatidas. A citação oportuna de Herberto Hélder  vai neste sentido: “ a minha cabeça estremece com o esquecimento” e eu, com a devida vénia, trago para aqui um convite de Milan Kundera a incitar-nos  a lutar contra o tempo e o poder: “  A luta do homem contra o poder é a luta do homem contra o esquecimento”.

(continua)

                      João Lopes

Esta é a página 84, referida no texto.

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