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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

ROSTOS DA EMIGRAÇÃO

20.07.17 | asal

Porque se trata de um dos nossos, o Virgílio Moreira, descobri no "Ecos da Sobreira" esta entrevista sobre os emigrantes, que coloco aqui com muito gosto. É o sentir de um emigrante, hoje a trabalhar em Proença-a-Nova.

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Rostos da Emigração – Ser português

 

A emigração, sendo um fenómeno universal, toca no entanto com mais acuidade alguns países e respetivas populações. Portugal que desde tempos idos tem convivido com esse fenómeno, ilustra exemplarmente os vários contornos e ângulos através dos quais temos a possibilidade de olhar o fenómeno migratório. A procura de melhores condições de vida, seja numa perspetiva económica, académica, social ou outra, têm sido as grandes motivações de quem emigra. O sentimento muito português designado por “saudade” tem acompanhado sempre as notas que os nossos entrevistados nos têm feito chegar.

A emigração tem sido para muitos uma opção definitiva de vida, radicando-se nos países de acolhimento, organizando e constituindo família, fixando-se assim sem ideia definida de regresso aos seus países de origem, onde, só em férias ou períodos de lazer regressam por breves espaços de tempo. Para outros cuja motivação económica tem sido a razão mais forte, o regresso acontece muitas vezes quando entendem ter alcançado os objetivos a que inicialmente se propuseram. Temos assim portanto uma enorme variedade de motivações e de objetivos nas nossas comunidades emigrantes.

O nosso “Rosto” de junho do “Ecos da Sobreira” espelha bem as motivações que “empurram” muitos compatriotas nossos para países onde supostamente encontram “a solução” para “as curvas da vida”. Virgílio Dias Moreira, 64 anos de idade, natural de Cimadas Cimeiras, nasceu no seio de uma “família remediada” conforme refere, onde o seu pai Manuel Moreira se dedicava à agricultura e à exploração de resina, e sua mãe Lúcia de Jesus às lides e tarefas domésticas, ajudando ainda o marido nos trabalhos agrícolas. Virgílio Moreira não foi o primeiro emigrante na sua família. Como de um sinal premonitório se tratasse, um irmão de seu avô paterno foi embarcadiço, passando grande parte do tempo aportando a países distantes e diferentes do seu. Outro familiar seu emigrou em data longínqua para S. Tomé e Príncipe onde se radicou e viveu até ao “fim dos seus dias”.

O nosso “Rosto” deste número do “Ecos”, emigrou para a Suíça em 1978. A crise que então se vivia em Portugal (relembramos o empréstimo do FMI perante as dificuldades que o país atravessava) e a necessidade de finalizar a construção da sua casa foram as razões determinantes que o conduziram à emigração, pois não se sentia financeiramente recompensado no seu emprego de então.

Em 1982 regressou ao seu país de origem, pois havia oferta de trabalho na sua terra e entendeu ser o momento oportuno para o seu retorno. No entanto, a empresa para onde foi trabalhar, desde cedo as dificuldades financeiras eram notadas e notórias, o que levou o Virgílio Moreira a equacionar o seu regresso à situação de emigrante. Os contactos que ainda mantinha na Suíça e as dificuldades da então “Sotima” foram as causas próximas para, em 1989 voltar ao seu trabalho na Suíça, e uma vez mais emigrou sozinho deixando a sua família em Portugal.

Se antes da emigração Virgílio Moreira trabalhou numa empresa da área de pneus, depois no escritório de empresa de reparação auto e posteriormente na Sotima, na Suíça, país para onde a emigração o conduziu, encontrou na empresa Max Schwarz (produzia e comercializava toda a espécie de legumes), o seu posto de trabalho. “O sentimento de impotência por não poder criar, desenvolver e produzir mais riqueza” assaltava o Virgílio Moreira nesta emigração a que as circunstâncias uma vez mais o obrigavam. “Valeu a pena” confessa o nosso entrevistado. E acrescenta, “além da recompensa monetária há sempre muito que se aprende, pena é que quando regressamos ao país não existam mecanismos de ajuda, apenas burocracias e entraves para fazer algo”.

Virgílio Moreira diz-nos com incontido orgulho que “ainda hoje mantém contactos com os antigos patrões”, com quem gostava de trabalhar e onde se sentia recompensado monetariamente. A razão do seu regresso ao país de origem foi o apelo e chamamento da família, a saudade, esse sentimento tão português. Os centros de Portugueses, existentes nas principais cidades Suíças eram o ponto de encontro da comunidade lusa emigrada. O apelo das origens aliado à distância de Portugal e ao sentimento de saudade eram o “cimento” para estes encontros e convívios que aconteciam por todo o território Helvético. “Havia pouco tempo de lazer”, mas mesmo assim as visitas aos mais próximos eram uma constante. “Uma vez por ano ou no final de cada contrato” acontecia a visita a Portugal. “Matar saudades retemperar energias e recarregar baterias” era o objetivo. “Todos temos direito a ter uma vida melhor” referiu Virgílio Moreira quando questionado sobre o que pensa do fenómeno da emigração, e acrescentou, “se o nosso país não no-la dá, temos que a procurar noutros”. “É duro nascer um filho e só o ver ao fim de seis meses”, referiu com mágoa.

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 Naquela época não havia a panóplia de meios de comunicação que existem hoje”. “Quando se passava a fronteira, era ali que o coração se partia e se caía na real de que íamos mesmo deixar a família” acentuou. Hoje, o nosso conterrâneo Virgílio Moreira é, desde 1995, técnico especialista de biblioteca e documentação na Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova, tendo assim a sua vida organizada e estabilizada na sua terra natal. Como empreendedor e sempre com a vontade de fazer mais e melhor está ainda ligado a um projeto de natureza turística, o denominado alojamento local nas Cimadas, de sua propriedade.

O nosso bem-haja pela disponibilidade que manifestou em colaborar e prestar o seu testemunho de emigração ao jornal “Ecos da Sobreira”.

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