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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Romaria da Sra. do Almurtão

07.05.19 | asal

Recordações da minha infância

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Estando na Idanha e não indo à romaria, as memórias começaram a saltar em catadupa.
A primeira memória que me ocorreu foi a da ida para o cais (frente ao palácio do Marquês da Graciosa) ver passar os romeiros, as seiças como então se dizia. Até os burros, para além de enfeitados, de albarda coberta com uma manta de ourelos mereciam uma «santinha» no cabresto para não ficar a trás do dono que a trazia no chapéu. Da alegria e alguns desequilíbrios destes, provocados pelos vapores rutilantes de álcool, é dispensável a referência. 
Marcante ficou a imagem de um cavalo que ao fazer a curva apertada, escorregou nos paralelepípedos e caiu para cima dos varais da carroça. Essa imagem não se apagou mais da minha memória.

Noutra ocasião, convenceram o meu pai a levar a junta e o carro. As raparigas (irmãs e primas) encarregaram-se de engalanar o carro, a canga, as coleiras das vacas, etc., colocar as cadeirinhas para nos sentarmos. Tudo muito divertido até chegarmos ao cruzamento para o Ladoeiro. Fomos multados porque o carro não tinha licença para transportar pessoas. Ficou o caldo entornado e a festa estragada. Aliás, tratou-se também de uma verdadeira caça à multa. 
A informação correu célere. Quem não tinha licença do burro, ia por atalhos junto ao ribeiro de Alcafozes e entrava já na estrada da Sra. do Almurtão, que era municipal. A guarda fazia-se acompanhar do Sr. João António que trabalhava na Câmara e um dos grandes entusiastas e dinamizadores do rancho folclórico. À época, não havia feriados municipais. Era um quebra cabeça para as pessoas das repartições públicas e das escolas.

Foi num dia de romaria que bebi pela primeira vez cerveja. O meu tio Zé Judeu mandou-me ir comprar algumas. Depois fez questão que eu provasse. Provei e disse: sabe a mijo! De facto a cerveja estava quente, choca. Mas como poderia eu saber que sabia a mijo?

As condições higiénicas, na época, eram muito deficientes. Era comum as crianças pobres terem «boqueiras». As «boqueiras» eram infecções, uma espécie de prurido branco nos cantos da boca. Isto derivava do facto de, quer em casa quer nos trabalhos rurais, as pessoas beberem todas pelo mesmo copo. As casas tinham um ou dois potes de água para beber, que se tinha de ir buscar à fonte (tourinhos, chafariz, «cartchana», pocinha, mina do sobral, etc.) variando consoante a zona da vila; em cima do pote estava um copo do qual todos se serviam. Nos trabalhos rurais, o aguadeiro chegava com o cântaro e distribuía água aos trabalhadores, mas o copo era sempre o mesmo. Algumas fontes tinham um «coutcho» e quem parava para beber água servia-se dele.

Quando alguma criança sedenta bebia muita água, as pessoas exclamavam: «parece um poço poteiro»! Esse poço localizava-se, efectivamente, onde hoje é o mercado municipal.

Voltemos ao sabor a mijo da primeira prova de cerveja. Para combater essa pequena infecção havia uma pedra azul-esverdeado, mas nem sempre havia dinheiro para a comprar. Então os adultos, ensinavam às crianças para colocarem um pouco de urina nos cantos da boca. Um uso que confirmava o velho ditado: o que arde cura. Creio também que a fama de que os idanhenses são grandes bebedores de água vem de longe. Sempre ouvi dizer: «se fores à Idanha não te ponhas nem do lado da água nem da lanha (lenha)». Quem estava do lado da água, estava de serviço para dar água a quem a pedia; quem estava do lado da lenha, tinha de estar sempre a por uns cravelhos e «tchamiços» (lenha miúda) no lume para não o deixar apagar.

A primeira vez que fui à romaria, levava 7$50 (menos que quatro cêntimos) fruto de muitos esforços de juntar tostões. Enfeiticei-me por umas argolas na esperança de tirar um garrafa para oferecer ao meu pai e os ditos cujos voaram enquaJosé R.jpgnto o diabo esfregou um olho.

Noutra ocasião, quando estávamos a comer a merenda debaixo de uma azinheira, começámos a ouvir um grande burburinho.

 Parecia uma tourada. Uma lebre corria de azinheira em azinheira e havia sempre alguém a persegui-la. Os pontapés no ar foram mais do que muitos. Finalmente, alguém a apanhou. Meteu-se numa carga de trabalhos. Veio a GNR. Identificaram a pessoa. Houve ameaças. Por fim, imperou o bom senso. A lebre foi entregue ao Hospital e o caçador herói, depois de ter passado um mau bocado, lá se libertou das ameaças e complicações.
O texto já vai longo. Prometo voltar um dia com outras recordações da infância.

A foto é uma homenagem ao meu amigo José Carralo, um verdadeiro mestre e artista na arte de construir adufes.

Mário Pissarra

 

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