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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

REVISITANDO O PASSADO

06.01.20 | asal

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  Animado de um divino entusiasmo, O Sr José Pereira Monteiro tratou logo de “escolher” o lugar de implantação do novo edifício. Um terreno plano, mesmo em frente da Capela de S. Pedro, no lado direito da Estrada, perto da Estação do Caminho de Ferro, convinha-lhe às mil maravilhas. Andava o nosso bom homem, assim neste estado de justa euforia, quando o rico proprietário, interpelado, lhe prega na cara  uma “nega” decepcionante!   Que não, os seus antepassados dariam uma volta na tumba se ele quebrasse um dos elos da cadeia da herança sagrada! Mas, senhor, é um seminário, não uma obra qualquer!

  E logo a atenção do generoso empreiteiro e dono da obra se voltou para o “ CABEÇO DO JOANINHO”, no lado oposto, mais perto da Estrada Nacional. Era um alto e fragoso cabeço, um morro “todo feito de granito”, sobranceiro à povoação, “em situação mais desafogada (..) em Alcains, mas fora de Alcains”(p.14)

   Em Janeiro de 1927, uma equipa de laboriosos pedreiros e canteiros de Alcains acomete com energia o colosso, decepando-lhe a crista, em sucessivas explosões de pólvora. 600 quilos se gastaram até à desejada plataforma de assentamento do edifício.  Uma trovoada de várias semanas! - diz , com graça, o Autor. Com um efeito nada desprezível: das detonações e picaretas resultou toda uma pedreira, matéria-prima ali mesmo à mão de semear.  

  Em Abril, cavadas as fundações, fez-se a Bênção e lançamento da Primeira Pedra, em cerimónia solene presidida pelo Senhor Bispo, acolitado pelos Cónegos Miranda e Semedo, clero do lugar, uma enorme multidão do povo de Alcains, “e numerosas pessoas de relevo sobretudo de Castelo Branco”. 

   Sob a orientação rigorosa do Sr. José P. Monteiro e as visitas frequentes do Revmo Prelado, a construção prossegue em velocidade de cruzeiro.  A tal ponto que, pela Páscoa do ano seguinte, (1928) já a estrutura se encontrava de pé, com um telhado que cobria um elegante edifício de 15 m de largura por 75 m de comprimento. Um ano e meio depois, em 12 de Outubro de 1929, os ilustres fundadores entregaram as chaves da Casa ao Senhor Bispo, que procedeu no dia seguinte, à solene inauguração do Seminário de S. José em Alcains, abrindo  logo as portas (no glorioso dia 13 )  a 75 alunos com o respetivo corpo docente, liderado pelo Reitor, o Sr. Cónego Miranda, a quem se devem as providências adequadas para pôr em movimento uma Instituição de Ensino  de tamanha envergadura.

 E, em pouco mais de dois anos e meio, com muito trabalho e 800 contos do cofre pessoal do ilustre casal de fundadores, se fez a obra que Deus quis e os cristãos tanto sonharam. Quanto ao Sr. Cónego Miranda, um dos protagonistas deste feito, em 1933, cedeu o cargo a Mons. Moura, que, nesse ano, transitava com o curso de Teologia de Portalegre para o Seminário de Alcains, acompanhado do Dr. Félix, recém-chegado de Roma, especialista em Ciências Sagradas.

    O ilustre sacerdote das Sarzedas, depois de ter desempenhado um papel incontornável, na 1ª fase, sempre a mais espinhosa, dos seminários do Gavião (1923-1929) e Alcains (1929-1933) regressou à sua terra natal onde realizou obra notável de caráter sócio-caritativo, segundo testemunho do seu conterrâneo Alexandre Nunes (cf.Professores, vol.III, p.8).  Talvez a sua personalidade vincada e pensamento bem estruturado sobre os Seminários tenha chocado com a do Senhor Bispo, como sugere o Alexandre.   O Dr. Félix avança uma outra, dizendo-o sem querer, ao declarar, com fina ironia, que o Senhor D. Domingos exigia sempre orçamentos sem deficit, (op.cit.p.424) o que, para uma Instituição, assente, sobretudo, na generosidade dos crentes e da sua Fé na Divina Providência,  seria, em muitos casos, tentar a quadratura do círculo.

  Já em Alcains, sob o pseudónimo de “ Minimus”, escreveu o reitor Miranda nas Flores do Santuário Jan-Fev.de 1930, fazendo uma deliciosa retrospectiva sobre os anos do Gavião, da qual retiro apenas umas linhas para não me alongar: “ Bastantes anos, mas brevíssimos anos, juntos vivemos naquele inolvidável Seminário do Gavião, onde placidamente decorreu grande parte da nossa mocidade. (…) aquele aconchego da casa onde, a cada passo, alunos e professores se cruzavam pelos corredores; aquele espírito de família, que tinha por base o santo amor de Deus…  tudo isto constitui a nossa felicidade(...) ; e o Gavião tem para nós o encanto da nossa terra natal, como Alcains já é, e mais será ainda, também terra querida, também a Terra da Promissão aberta de par em par aos que precisam adestrar-se para as difíceis pelejas de anunciar a doutrina de Jesus.” ( Dr Félix. Os Nossos…p237)

  Com palavras deste teor, repassadas de calor e simpatia, cativou também o Povo de Alcains, que, lembrado do seu antigo Vigário,  rodeou os primeiros anos da vida do seu seminário com uma onda de solidariedade, expressa em donativos de toda a ordem, inclusive trabalho grátis na quinta que então já se planeava. (Disto ainda se falará no cap.seg. ou seja, Viajando na Passarola do Tempo.  E quem quiser começar… O Henriques, Mendeiros e Florentino esperam.  Vai ser um livrinho, grande pelo amor e carinho, e pelo sentimento de gratidão, que a nós próprios nos devemos. 

Coimbra, alvorada do Ano Novo, João Lopes.