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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

 Rescaldo das eleições presidenciais

05.02.21 | asal
Meu bom e caro Amigo Henriques: tentei revisitar as eleições presidenciais e o resultado deu nestas reflexões que quero partilhar com os nossos bons Amigos do Ânimus-Semper. Mais do que nunca, temos de ter o ânimo ativo todos os dias. Vencer este inimigo torna-se obrigatório. Sorte para todos.
Um forte abraço para ti e para todos os que permanecem firmes neste combate.
Florentino Beirão

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Um povo zangado e doente

Contados os votos das recentes eleições presidenciais, é chegado o momento de as revisitarmos, olhando para os seus resultados, extrairmos algumas conclusões que importa reter. Em primeiro lugar, dadas as circunstâncias em que decorreram, é de saudar, em primeiro lugar, a sua exímia organização que demonstrou um elevado espírito cívico de todos.

A primeira conclusão a reter é verificar a sua elevada abstenção, embora menos do que se imaginava. Apesar de tudo, foi mais uma vez a grande vencedora, à semelhança do que tem acontecido em atos eleitorais anteriores, para se eleger o Presidente da República. Desta vez, não foram votar 60,51% dos eleitores, certamente, muito devido à mortífera pandemia que tem castigado o país. Terá sido mesmo a principal causa para reter tantos eleitores em casa.

Apesar de tudo, a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, com 60,7%, acabou por recolher os votos oriundos de todas as sensibilidades políticas do continente e ilhas. A seu lado, esteve uma boa parte do Partido Socialista (PS), o Partido Social Democrata (PSD) e o Centro Democrata Social (CDS).

Quanto aos restantes seis candidatos, verificou-se uma fraca votação nas forças de esquerda, coladas ao Partido Comunista, com 4,32% para João Ferreira, e ao Partido do Bloco de Esquerda, com 3,95% para Marisa Matias. Por sua vez, o partido “Chega”, liderado por André Ventura, conseguiu produzir um pequeno terramoto nos partidos de direita, ao atingir os 11,9%, colocando-se assim em terceiro lugar. A diplomata e independente Ana Gomes, com apoio de uma boa parte do Partido Socialista, arrecadou 12,97%, cativando o segundo lugar. Quanto a Tiago Mayan, duplicou a votação do seu partido, a Iniciativa Liberal (IL). Por último, Vitorino Silva ficou-se pelos 2,94%.

Perante estes resultados, desta vez, deu-se, no panorama partidário, uma reconfiguração à direita, com a vitória de André Ventura. O resultado que obteve, com votos recolhidos em todas as regiões do país, sobretudo no Alentejo, merece uma aprofundada reflexão dos democratas que não se reveem nas ideias racistas, xenófobas e messiânicas, pregadas pelo seu líder, o troca-tintas e palhaceiro André Ventura.

Muitos têm sido aqueles que me vão segredando que os votos no líder do “Chega”, mais do que apoiantes das suas ideias trampistas, devem ser entendidos mais como um sentimento de protesto e zanga do eleitorado para com o Governo, assoberbado com uma enorme pandemia, com filas de ambulâncias à espera nas urgências, do que com uma adesão às ideias radicais do “Chega”. Ventura chegou mesmo a afirmar, na noite das eleições, que ele era enviado de Deus e teria como missão salvar o país do estado desastroso em que se encontra.

Quando há pouco se badalava por essa Europa fora que Portugal era o país sem significativa força política de extrema–direita, forte e organizada, a partir de agora, já teremos de contar com ela, no nosso xadrez político. Não para lhe atirar pedradas ou condenações primárias, mas combatê-la sim, com ideias e ações que possam contribuir eficazmente, para diminuir a sua influência. O desespero de muitos portugueses, a sofrer de carência de alimentos, os marginalizados, os desempregados e os sem perspetiva de um futuro mais risonho, sobretudo os jovens, ao votarem na extrema-direita, certamente zangados, terão querido manifestar o seu protesto de descontentamento aos governantes, para que ouçam o seu clamor, numa altura em que o nosso país se encontra com o mais elevado número de mortos no mundo, devido à pandemia, e, a nível de desenvolvimento, se encontra na cauda da UE. Não falando já do garrote da monstruosa dívida pública, a sobrar para os vindouros.

Esta escaldante situação, se não for alterada, pode vir a criar no futuro as condições objetivas para que as forças da extrema-direita continuem a encontrar terreno propício, para poderem crescer ainda mais no nosso país. Com o quadro político atual, será avisado olharmos, com toda a atenção, para o radical partido “Chega”, que com outros partidos de direita poderão vir a conquistar o poder em próximas eleições. Ponhamos os olhos no caso dos USA, do Brasil, da Índia, da Polónia e da Hungria. Esta nova geração de políticos, de orientação iliberal, tudo tem feito para chegar ao poder, de modo democrático. Porém, quando dele tomam conta, não o exercem deste modo, nem o abandonam democraticamente, mesmo que percam eleições. Estejamos atentos.

florentinobeirao@hotmail.com

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