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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Reflexões incompletas

04.05.22 | asal

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Ainda sobre o 25 de Abril

Na data em que recordamos o 25 de Abril de 1974, desejo partilhar convosco o que de bom e menos bom a Revolução dos Cravos nos trouxe e que podemos ir deixando cair no cesto do esquecimento. Como a memória é muito curta, balancear o antes e depois de Revolução do 25 de Abril é sempre saudável para não absolutizarmos a nossa história recente, repleta de significativos acontecimentos que foram formatando a nossa consciência. Não podemos nem devemos olvidar tudo o que de bom e de menos bom, como povo, fomos capazes de desenhar nas últimas décadas.
Temos ouvido desabafos de muitos que, quando comparam os tempos de antes e depois do 25 de Abril, tiram conclusões precipitadas. Muitos chegam a concluir que antes é que era bom, sobretudo a nível dos costumes e que o período que se lhe seguiu abriu um ambiente de decadência no país, sobretudo a nível dos costumes e das condições de vida. Referem ainda, nomeadamente, o facto de ter havido mais educação e mais respeito na sociedade do regime salazarista do que nos tempos da democracia. A eterna questão do copo meio cheio, meio vazio, dependente do observador que o analisa.
O certo é que Portugal mudou muitíssimo nestes últimos anos da nossa democracia, em que o poder autárquico se foi implantando e desenvolvendo, sobretudo a nível dos valores da liberdade democrática, das infraestruturas e do urbanismo. O programa Polis e as numerosas autoestradas aí estão, embora, muitas vezes, às moscas.
Porém, também se constata que o nosso sistema democrático, como tantos outros na Europa, entraram em período de crise e risco, encontrando-se hoje debaixo da pressão dos recentes nacionalismos que assumem na sua programação serem ostensivamente contra os sistemas democráticos que dizem estar eivados de um pecado capital, revelado no clima de abstenção política eleitoral que tem deixado muitos eleitores de fora, com níveis de abstenção elevadíssimos.
Portugal, de um modo geral, tem sido governado nos tempos da democracia, alternadamente, pelos socialistas e pelos sociais-democratas. Governos ao centro, mais ou menos reformistas, têm tentado responder aos anseios dos portugueses. Comparando com as décadas anteriores em que não havia eleições democratas, mas uma farsa delas, controladas pelos governos ditatoriais que manobravam os resultados eleitorais a seu belo prazer. Sem partidos políticos, o Estado Novo era governado despoticamente, sem qualquer poder contraditório. Sem esquerda nem direita. Politicamente, o país era um regime monocolor, sem direito a contraditório. A PIDE vigiava todos aqueles que eram considerados discordantes dos valores do regime ditatorial.
Hoje a crítica aos partidos políticos consiste mais no fechamento dos partidos do poder sobre si mesmos, recrutando dentro da sua família política o grupo dos mais fiéis ao chefe, para governarem o país, em regime de partidocracia. Alternadamente, como no século XIX, o PS e o PSD foram governando o nosso país com resultados medíocres, deixando-nos nos últimos lugares da Europa democrática. Hoje, o que mais se discute no país é tentar saber por que razão Portugal não consegue dar o salto para lugares mais cimeiros, continuando a rastejar, há tantos anos, na cauda da União Europeia, apesar dos rios de dinheiro que têm jorrado dos fundos europeus. Entre algumas razões que se têm avançado a este respeito, uma tem a ver com a corrupção que tem grassado no nosso país nas últimas décadas da nossa democracia. Outra, não inferior a esta, está ligada à falta de escolaridade dos portugueses, sobretudo das gerações mais velhas. Seja como tenha sido, a interrogação permanece de pé, a espicaçar a nossa interrogação acerca do atavismo em que vivemos, com ordenados baixos e parados há tantos anos e sem se vislumbrarem melhorias. Por esta razão, a maior parte dos nossos cérebros têm procurado noutras paragens melhores condições para poderem viver com mais dignidade. 
No que à censura diz respeito, comparando o Estado Novo com estes 48 anos de democracia, constatamos que, se antes havia censura feroz por parte do regime salazarista, hoje, a censura utilizada pelos meios da comunicação social é mais sofisticada, consistindo, nas palavras de José Pacheco Pereira, em “impulsos censórios de hoje” limitadores da nossa liberdade, de podermos escolher livremente porque formatados pela bolha censória que existe em nós, fruto dos tempos passados de poder ditatorial, mas que mal se dá por ela. 
florentinobeirao@hotmail.com

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