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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Recordações avulsas

29.06.20 | asal

Mário Pissarra.jpeg

De vez em quando, perco-me a lavrar o chão duro da minha memória. Por vezes, preciso de fazer algum esforço, mas também acontece, mais raramente, é certo, que as recordações se me impõem com tal vivacidade que é difícil estancá-las. Foi o que me aconteceu num destes dias.

1.- Quando chegámos ao seminário do Gavião para o exame de admissão, todos queríamos avisar a família que tínhamos feito boa viagem e dar notícias. Alguém descobriu onde se vendiam bilhetes-postais. A maioria dirigiu-se ao local e comprou um. Depois começaram os problemas. Qual era a direcção e onde e como se escrevia no rosto do postal? Depois, o postal não tinha linhas e o espaço era pequeno. As letras iniciais eram grandes e, pouco a pouco, foram diminuindo. Havia mesmo frases na vertical ascendente e descendente. Houve até quem invadisse os espaços livres do rosto do postal.

2.- Nessa tarde, sentados num banco à sombra das árvores do recreio, um menino sardento e com cabelo cor de cenoura, visivelmente irrequieto e traquina, virou o banco onde eu e outros estávamos sentados. Mal caí no chão, levantei-me e enfiei-lhe uma grande biqueirada. Como eu era mais corpulento e mais velho, ele encolheu-se. Um seminarista mais velho que estava por ali e observou a cena, comentou para um colega: este não se aguenta cá muito tempo! Enganou-se redondamente. Foram só 12 anos.

3.- Um belo dia, O Sr. Pe. Emílio chamou-me ao seu quarto. Não via razão para tal, pois ele não era prefeito. Só me dava aulas de matemática. Começou com uma conversa enrolada, tudo porque eu tinha o teste todo certo, mas havia um motivo para suspeita: o caderno era novo. Insinuou que eu teria ido ao quarto dele, trazido o caderno velho, realizado os exercícios e colocado lá o caderno novo. Fui à sala de estudo e trouxe-lhe o meu caderno velho de exercícios. As suspeitas e a sua teoria foram acuadas, caíram por terra. Afinal, quem tinha feito esta marosca tinha sido o tal menino sardento, com cabelo cor de cenoura, o meu grande amigo Cipriano Pires. Tive oportunidade de falar nestas e noutras peripécias gavionenses numa viagem de Expresso entre Lisboa e Abrantes em que ele me promoveu a guia ou cobrador. Uma viagem saborosíssima. Combinámos tomar um café pelos três Globos em Castelo Branco, mas o dito café teima em não sair da agenda.

4.- Uma vez num exercício de Latim, o Sr. Pe. Agostinho Beato apanhou-me a dar um papel ao Manuel Lopes Dias. O papel era a resolução do exercício. Disse-lhe imediatamente que a iniciativa tinha sido minha e que o meu colega não me tinha pedido nada. O exercício estava todo certo, mas tive zero. O único na minha vida de estudante. Mas foi o ano em que o Latim mais despertou em mim interesse. Ele era professor de Francês e estava a seguir um curso dessa língua em Gramofone. Então tentou traduzir os diálogos desse curso para Latim. E foi assim que aprendi em Latim "Bom dia, como estás, bem, obrigado", etc.

5.- Numa aula de Matemática, o Sr. Pe. Álvaro perdeu a paciência e chamou-nos burros. O Abílio Delgado, levantou-se e disse-lhe que não lhe admitia isso. O Pe. Álvaro ficou espantado e começou por dizer que não nos queria ofender, acabando por nos pedir desculpa. Quando chegámos a Portalegre, com a reformulação do curriculum, tivemos aulas de matemática com o Dr. Plínio Serrote. Foi o ano em que se lançou experimentalmente o programa de matemática moderna (Sebastião e Silva), que começava pela lógica. O reitor do Seminário de Portalegre, também ele professor de Matemática, ficou com a turma experimental. Então o Dr. Plínio Serrote foi oferecer-se para dar gratuitamente a Matemática ao seminário. Chegou à nossa primeira aula de 6.º ano e começou a fazer a chamada: Senhor Pe. Abílio Delgado. Toda a turma desata numa risada pegada. O Dr. Plínio Serrote, com muita calma, vira-se para nós e diz: não é lá muito delgado, não senhor!

6.- A nossa turma já tinha um episódio de risada grave. No quarto ano, o único professor leigo era o de Desenho e era um engenheiro que trabalhava na fábrica Branca de Neve. Esse ano tinha vindo para a nossa turma o João Manuel das Benquerenças, que faleceu no Ultramar. O João Manuel era um cómico nato. Assim que entrámos na sala, sobe para o estrado e começa a imitar o professor de Desenho. Lembro-me de falar no colarinho das suas camisas, do modo como rezava e que enquanto rezava estava sempre a levantar os calcanhares, etc. O professor de Desenho entrou e a caricatura do João Manuel batia 100% certa. Alguém começou a rir e a turma desata numa risada pegada e sempre que havia uma fracção de silêncio, alguém rompia a contenção. Esta cena durou alguns minutos e o professor estava exasperado e não escondia o seu desagrado. A vítima foi o João Peres. Numa dos momentos de silêncio ele desatou a rir, tentando abafar o riso e escondendo-se atrás do que estava à sua frente. O João era baixo e franzino e acabou expulso da aula e teve de ir ao reitor.

7.- Há dias, em conversa telefónica com o Florentino Beirão, falei-lhe de algo que sempre estranhei muito e nunca encontrou morada sossegada no meu espírito. Quando estávamos em Alcains não íamos de férias pelo Carnaval. Nesse período em que as pessoas se divertiam, havia o hábito de rezar durante todo o tempo em desagravo. Havia sempre um grupo a rezar na capela para reparar os pecados que se cometiam nos divertimentos no mundo. Este tipo de piedade suscitou sempre em mim a incompreensão, o riso e o desprezo, ainda que o não manifestasse, mais do que a simpatia ou a adesão. 

Muitas outras vieram nesta enxurrada, mas ficam para outra ocasião.

Mário Pissarra

NOTA: Agora digam lá vocês: não tiveram casos destes? Porque é que essas memórias não passam para o papel? E, se foram em Alcains, o nosso livro está à espera... O Florentino está exasperado! E muitos de nós também. Nunca mais chegam os vossos textos. AH

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