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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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Quem sou eu?

Mais uma vez o Pires da Costa nos convida a reflectir, num desafio aos filósofos da praça... Obrigado! AH 

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O FASCÍNIO DO  EU

 

      Duas letras, duas vogais, um ditongo, uma palavra. Letras virtuosas, como são as vogais, as tais que saem direitinhas, sem obstáculos, num impulso, livres como pássaros a voar. À volta delas, submissas, cansadas, desamparadas, afectadas, subalternas, circulam as consoantes. As vogais são produtos espontâneos na origem, as consoantes são produtos artificiais da linguagem. Entrassem em guerra, e teríamos nova Aljubarrota: o exército menor aniquilaria o maior. Vinte e tal para cinco. É obra! David e Golias reciclados.

      Juntam-se duas vogais e logo nos surge  a harmonia do som. Misturem-lhes umas consoantes e tudo se torna forçado. Escrevem-se apenas consoantes e, às vezes, metem-lhe no meio uma ou duas vogais, como que envergonhadas da figura triste a que as obrigam. Não há som, não há palavras, não há expressão. Há quem lhe chame um acrónimo, mas, na maior parte dos casos, ninguém sabe o que aquilo quer dizer. Não se lêem, soletram-se. E muitos não estão para isso. Vivemos na era das pressas. Já nem há tempo para escrever ou ler os nomes das coisas. Ai, é dor; ui, é admiração; ou, é alternância; ao, é destino; ei e oi são chamamento. EU, o que é?  É tudo!

     EU, a palavra mágica da linguagem! A definidora. A identificadora. Aquela que dimensiona o homem na plenitude do seu tamanho material e espiritual.

      Se considerarmos que as palavras são mensuráveis, havemos de concluir que a grafia do eu é inversamente proporcional à sua componente semântica. O eu, com as suas duas simples vogais, identifica, define, caracteriza, selecciona, afirma, nega, agride, afaga, contemporiza, interroga, responde. Todos somos eu. Pesem, embora, as analogias, cada eu é um só.

      Perdido em longo exórdio, recheado de divagações primárias, quase me esquecia do essencial: o meu eu. Vamos, pois, a ele. Dissecando-o, desmascarando-o, esventrando-o, denunciando-o, mas perdoando-o também. Eis - me entre os escolhos de um caminho pedregoso.

      Eu! Quem sou eu? Serei o que penso ser, ou serei outro diferente do que julgo ser? Serei o que a minha convicção me diz que sou, ou serei o que os outros pensam que eu sou? Serei o que me revelo a mim próprio e aos outros, ou serei a minha própria parte oculta? Serei o que mostro ou o que escondo de propósito ou por inconsciência? Serei um original ou a cópia de outro que veio antes de mim e me determina os passos e a conduta? Quem me pode valer neste labirinto em que me encontro encurralado? Apenas o eu que sou e mais ninguém.

       Venha a educação, venha a pedagogia, venha a religião, venha a moral, venham todos os ensinamentos do mundo. Tudo isto poderá influenciar o meu comportamento, mas nada poderá mudar o meu eu. Porque tudo o que tentar influenciar o meu ser, está  a querer subtrair-me a maior riqueza que me foi concedida ao nascer: a minha liberdade de ser o que sou.

        E, sem liberdade, nenhum ser humano pode ser aquilo que realmente é. Será sempre um fantasma de si próprio e um embuste para a sociedade que o acorrentou, que o manipulou, que o deformou e ancilosou. Falamos da liberdade e não de libertário ou libertinagem. Do ser individual e não individualista. Do ser humano e não do animal humano, o que não é a mesma coisa. Do racional e não do irracional.

         Já Sócrates, o grego, que por cá andou há quase dois milénios e meio, aconselhava : “Conhece-te a ti próprio“. Na minha, quereria dizer que, só depois de nos conhecermos, poderemos compreender e conhecer os nossos semelhantes e percebermos qual o comportamento que deveremos ter para que as liberdades de todos e de cada um possam exercer-se na plenitude.

          É fácil? Tudo menos isso. Sem convicções profundas do que somos e do fim para que viemos ao mundo, todos os artifícios serão infrutíferos, para não dizermos maléficos, pelas deturpações que podem causar na nossa ansiedade, quando procuramos um bem precioso e não o conseguimos encontrar.

           Passamos a vida atolados em dúvidas que nos embargam os caminhos a trilhar e nos angustiam e obrigam a ginástica física e mental que nos vai desgastando ao longo do tempo.

            Sem convicções, quase chegamos a duvidar da nossa própria existência, tantas frustrações nos assolam o pensamento.

             Descartes, o filósofo nascido em terras gaulesas e que já por cá andou há cerca de cinco séculos, raciocinou, de forma latinizada, este princípio que o ajudou a libertar-se de algumas dúvidas que o atormentavam: “ Cogito, ergo sum”. E avançou mais: “Dubito, ergo cogito, ergo sum.”

    Não conheço o grau de alívio que terá tido com a descoberta, mas, pelo menos, concluiu que realmente existia. Isto é, que podia dizer com convicção: Existo, logo eu sou eu.

       Vai longo o depoimento, despretensioso e sem arabescos literários. Na intenção, claro. Na prática, poderá parecer outra coisa, segundo os olhos que o observarem. De qualquer maneira, não falei muito do meu eu, não porque deliberadamente me quisesse furtar à tarefa, mas porque tenho andado a pautar a minha vida da forma que considero bastante sensata, para ver se consigo levantar a ponta do véu que encobre a minha existência.

        Tal estado de alma deve-se ao facto de haver tomado à conta de bom um princípio enunciado pelo nosso Sócrates, o grego, repito,  que  já evoquei atrás, que terá dito com muito siso: “ Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância”. Esta a frase simples que tanto me tem ocupado o espírito. Não para ser sábio, mas para tentar descobrir quem realmente sou.

      Aceito que ficaria o descritivo mais completo com alguns dados biográficos, daqueles mais tradicionais: o nome, a naturalidade, a filiação, a  residência, a altura, a cor dos olhos, o peso, o tamanho do colarinho.

       Nada me custaria fazê-lo, mas acontece que deixei caducar o C C.  Bem dito, O Cartão do Cidadão. E não da Cidadania, como alguma gente desejosa de dar nas vistas e sem se aperceberem do ridículo em que caem, agora nos querem impor (palavra tão feia!).  Cidadão é o habitante da cidade, um ser, um eu. Cidadania é a forma de estar na cidade, é o exercício de um direito comum a todos os habitantes da cidade. Será uma prática, nunca um título. Isto tanto para um analfabeto como para um deputado ou deputada da nação. Sem desprimor para estes, permito-me sugerir um título que, espero, seja de fácil aceitação: Cartão de Identidade. Não ofende os géneros e satisfaz a todos e todas. Além disso, o dito sobe de consistência: de simples bilhete passa a cartão, o que já é obra. Mas, voltando à caducidade do meu documento de que falava atrás. Será que por tal facto deixei de ser eu? Administrativamente, sim. Mas por aí não vou, porque não sou jurista nem administrativo. Resta-me recorrer ao simulacro de um silogismo: - As consoantes são o meu corpo; as vogais são a minha alma. E esta é incontrolável. Está imune  aos ditadores das consciências.

       Não sei se sou o que queria ser. Mas também não queria ser o que não sou. Quero apenas ser eu. A quem de direito, se for caso disso, peço deferimento. Na certeza de que, com ele ou sem ele, continuarei a ser eu. Queridas vogais, obrigado!

A. Pires da Costa

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