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Animus Semper

Portugal e o Mundo

Fomos mesmo grandes? - Uma reflexão feita por quem sabe... AHJ.Lopes.jpg

 

 

«A minha já estimada e leda Musa 
Fico que em todo o mundo de vós cante, 
De sorte que Alexandro em vós se veja, 
Sem à dita de Aquiles ter enveja.»

 Lusíadas - últimos versos

    Camões conclui a proposição da sua epopeia com estes quatro versos em que o poeta compara os feitos e os poemas épicos da antiguidade grega e latina com as acções dos heróis lusos e com a epopeia que, para os celebrar, ele se propõe compor. No confronto entre uns e outros, afirma, em registo hiperbólico, a superioridade dos portugueses sobre os outros, ou seja, sobre o Mundo.

  A questão que se pode colocar é a seguinte: haverá razão para considerar os portugueses muito melhores do que os outros, quer no plano da acção quer no plano da cultura? Se nos reportarmos  à época dos descobrimentos dos séculos XV e XVI, pode dizer-se que sim.

  Na verdade, as viagens marítimas dos lusos tiveram um impacto extraordinário na Europa, estando, em parte, na origem do Renascimento e da época  moderna, seja qual for o aspecto por que encaremos a questão.  No plano do conhecimento, demos uma nova imagem geográfica do mundo - imagem verdadeiramente planetária, pondo em contacto novos povos e continentes até aí mergulhados nas sombras do medo e da ignorância. À nossa acção descobridora se deve o incremento das relações comerciais e culturais  entre diversos espaços continentais, transformando os mares em rotas de ligação e não  em muros de isolamento. O alcance deste intercâmbio  comercial, científico e cultural é de uma grandeza incomensurável. Através de Portugal, a Europa aprendeu a situar-se com uma visão muito mais realista no contexto das outras nações e continentes. Como se isto não bastasse, validámos pela experiência, os novos instrumentos e técnicas da arte de marear, corrigindo possíveis erros de cartografia. Numa palavra, fomos pioneiros, abrindo o caminho que outros viriam a trilhar depois de nós.

  Mas esta acção gloriosa  celebrada em versos de grande eloquência pelo nosso épico, também se revestiu de aspectos menos positivos, sombrios mesmo, que Camões não deixou de amargamente sublinhar.  No sonho de glórias e grandezas, afundámo-nos na cobiça, no amor da riqueza fácil e no espírito guerreiro da conquista  em que deixámos vir ao de cima instintos de crueldade e de intolerância para com os outros. Portugal acabou por se perder no impulso irresistível da “ glória de mandar”, enterrando-se com os sonhos delirantes de domínio e grandeza nas areias do deserto de Alcácer-Quibir, no fatídico dia 4 de Agosto de 1578.

  De qualquer modo, o balanço final é positivo:  a divulgação do conhecimento do mundo, o avanço da tecnologia e da ciência náutica,  a descoberta de novas riquezas de que outros se vieram a aproveitar, dá-nos a imagem das nossas capacidades como povo quando posto em confronto com o mundo. Longe de nos situarmos num patamar inferior, podemos espantar quando, à imagem dos nossos antepassados, valorizamos o espírito de iniciativa, o trabalho, o conhecimento, a inovação e o sentido da  realidade  e da medida das coisas, sem o qual nos perdemos  quando ambicionamos ser maiores do que os nossos recursos o permitem. Da grandeza épica do passado, recuperemos a capacidade para dialogar com os outros povos em pé de igualdade sem nos tornarmos presa fácil dos seus instintos de ganância e lucros fabulosos. Se preciso for, façamos” peito” às investidas da especulação financeira, que a nossas dignidade de país com oito séculos de história é  hoje o” valor mais alto  que se alevanta”.

João Lopes