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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Porque falam eles sempre zangados?

08.05.19 | asal

pires da costa.jpgConsiderações soltas à margem do presente momento político. AH 

 

  À primeira vista, até nos parece que deveriam andar contentes. Em primeiro lugar, porque obtiveram o lugar que pretendiam; em segundo, porque é visível que até nem vivem mal de todo. Ordenado garantido no fim do mês; ajudas de custo e remunerações compensatórias sempre com garantia de pagamento; reformas adquiridas com a idade em que muitos concidadãos seus ainda andam à procura de emprego, do primeiro ou segundo ou terceiro; uma boa maquia, a que chamam de reintegração, quando, por má figura ou força da lei, terminam funções; para alguns, bons carros para se deslocarem sem pagarem combustível, portagem, revisão ou seguro dos ditos; fazerem as asneiras que quiserem sem que lhes possam pedir quaisquer responsabilidades; imunidade para quase tudo o que se considera condenável no cidadão comum. O leitor queria mais? Faça o favor de raciocinar um poucochinho, que depressa dá com mais uma sacola delas. Por mim, já cansado, fico-me por aqui.

         Certo é que, por razões que temos dificuldade em vislumbrar, o que acontece é comportarem-se de maneira tão estranha, sem que para tal se encontrem razões. É convicção minha que é fácil descobrir a quem se referem as considerações que acabo de explicitar. Se isso não acontecer, lá me irá sair mais uma vez a expressão: - Cá me enganei mais uma vez, paciência! Já foram tantas, é apenas mais uma…

         A televisão tem, como todas as coisas desta vida, aspectos positivos e negativos. Não vou ser exaustivo, mencionando qualquer lista, quer duns quer doutros. Basta-me mencionar um: a transmissão por palavras e imagens da actividade dos intérpretes da vida política do país.

          Repito a ideia contida no exórdio da crónica: Porque falam eles sempre zangados, quando tudo indicaria que deveriam andar satisfeitos?

          Se eu soubesse a resposta, por certo que não faria a pergunta. Posso ter uma opinião, uma convicção, dir-se-ia até uma certeza. Mas dispenso-me de citar qualquer delas, não venha alguém discutir comigo, o que nada me agradará dada a minha pouca inclinação para tal atividade.

          Pois, os ditos senhores ou senhoras que por certo dormem descansados, passam o tempo a ralhar, a discutir, a gritar, a insultar, a menosprezar, a chamarem-se aldrabões uns aos outros, ( Vossa Excelência está a mentir, grita um; - Quem mente e tenta enganar os portugueses é Vossa Excelência, diz outro.) Vossa excelência é um trafulha! Se sou isso, vossa excelência é um aldrabão!  Dão a sensação, a quem os vê e ouve, que não se apercebem do ridículo em que estão a cair perante o pobre do povo que os elegeu para  governarem os seus súbditos e obedientes mandatários. Sim, que quem manda é o povo! …

        Veio-me tudo isto ao pensamento, porque, segundo rezam os estatutos da cartilha constitucional, vamos ter mais uma vez eleições.

         Ora, ainda as ditas não entraram no período efetivo de funções, isto é, no tempo constitucional determinado por eles próprios, e já a «guerra das palavras ocas» começou.

          Isso seria o menos. Mas que vemos e ouvimos nós? O mesmo de sempre: caluniar os adversários  e fazer o  elogio das suas próprias ideias. Sempre a mesma cantiga que já todos sabemos de cor. Só se fôssemos burros…

    E em plena primavera, aí estão eles, com as suas posturas  «de quem sabe tudo», a insultarem-se numa linguagem algumas vezes de fino recorte, mas demasiado a roçar o ridículo. Eu sou bom e tu és mau! Ponto final, parágrafo. E comemos todos e todos os dias do mesmo.

        E, com algum despudor,  querem-nos fazer crer que tudo aquilo são debates para procurar os melhores processos para bem governar o país…Tudo bem. Só que os resultados nem sempre, diria mesmo muitas vezes, não correspondem às intenções. E a obra que resulta de tal metodologia aí a temos: ela é a justiça; ela é a educação; ela é a saúde; ela é a segurança; ela é a distorção económica e  social; ela é a maldita corrupção; ele é o abuso que se faz do poder. Mais? Sim, mas o que fica chega para exemplo.”Tudo é incerto e derradeiro / Tudo é disperso, nada é inteiro!” como escreveu o Fernando.

        Os pontos de vista diferentes e as divergências de opiniões são naturais, salutares, úteis e convenientes, já que ninguém sabe tudo. A democracia assenta nestas verdades. Só que é preciso saber utilizá-las, usando a seriedade, a colaboração, o entendimento, o diálogo, a tolerância, a eficácia,  a elevação, a cedência. Tudo com o supremo objectivo do bem comum, tão apregoado por suas excelências e tão pouco posto em prática pelas suas atitudes. Atacas tu, ataco eu. Insultas tu, insulto eu. E não passamos desta ladainha monótona e quase deprimente. Tratem-se por Vossas Excelências ou lá o que quiserem, mas respeitem-se como se faz na vida comum. Levantem e baixem a voz de acordo com a boa oratória. Mas deixem-se de gabarolices ocas e insultos mesquinhos. Dignifiquem os cargos para que foram, ou querem ser, eleitos.

       Mostrem que temos uma democracia a valer, e não uma data de “ditadurazinhas” que, se não nos pusermos a pau, podem resultar numa ditadura adulta. Ou será que o sistema já está gasto, como se diz por aí? Verdade é que pululam por aí pessoas ou grupos delas que apregoam a democracia mas que se comportam como se vivêssemos em ditadura.

          Se não arrepiarem caminhos e métodos, se não forem mais humildes sem deixarem de ser firmes, podem crer que não vamos lá. Ou será isso que querem? Já não digo nada. Hoje, chego a interrogar-me se irei  ou não votar... Naturalmente, até vou, como é costume, nem que seja para deixar o papel do voto imaculado, isto é, sem mancha de tinta a que se dá o nome de voto em branco. Consolidemos a democracia com atos. E com palavras também, desde que não sejam insultuosas e de ofensiva rasteira.   O País não é só propriedade de alguns, maioritários ou não.

      Perguntar-se-á se nada se aproveita entre todos aqueles que desempenham funções políticas, administrativas ou que a elas aspiram democraticamente. Manda a verdade que se diga que ainda há uma percentagem razoável de gente séria, dedicada e competente. Mas enquanto todos os partidos, governo e oposição, atuarem descaradamente com o  objetivo de ganharem a qualquer preço as eleições que se seguem, é difícil a coisa ir lá. A essência duma democracia é o voto livre, mas não acaba aí. Há mais, muito mais.

       Pensam que ganham pouco ou que têm poucas regalias? Tudo bem.  Sendo assim, ponham os vossos sindicatos a funcionar, como fazem os outros trabalhadores. Direitos e deveres devem ser iguais para todos, portugueses e portuguesas. Nada de discriminações. Era o que faltava!

     Pergunto-me, entre atónito e desalentado: - Afinal, porque andarão aqueles diabos sempre zangados?... Diabos ou Vossas Excelências, como quiserem.

A. Pires da Costa 

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