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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Ponto final na “geringonça”

19.10.19 | asal
Meu caro Henriques
Desta feita, tentei fazer um breve balanço das últimas eleições, segundo o meu subjectivo ponto de vista. Cada qual, com o seu olhar, poderá analisar a realidade, dos mais diversos pontos de observação. Sendo assim, aqui deixo a minha humilde reflexão sobre este importante acontecimento político que irá condicionar nossas vidas, num futuro próximo. A elevada abstenção, para mim, foi escandalosa, a merecer uma profunda reflexão de todos, sobretudo dos nossos políticos. A trincheira está cavada e não será nada fácil aplainá-la.
Um bom convívio para a nossa rapaziada lisboeta. Para ti, caro António, aquele abraço, forte e longo, de uma Amizade infinita.
F. Beirão

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Viva o diálogo alargado

 

No rescaldo das últimas eleições, perfilam-se algumas novidades para o futuro político do país.

Vamos por partes.

Em primeiro lugar, a abstenção, já condenada pelos bispos, foi rainha. Mais de metade dos eleitores (45%) optou por ficar em casa, comportamento que se respeita, embora se discorde. Resta agora a esta grande fatia da população a conversa à mesa do café, onde se ventilam as mais engenhosas soluções para a governança do país. Sendo um direito não votar, é sempre uma machadada na democracia.

Quanto aos resultados obtidos, demonstram bem que a esquerda em Portugal recolheu a maioria dos votos, nomeadamente o Partido Socialista, à beira da maioria absoluta, com 37% dos votos. Obtendo um resultado tão expressivo, fica agora com mãos mais livres para poder prescindir da antiga “geringonça”, formada com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista ao longo da última legislatura, a qual permitiu a estabilidade do país. A partir de agora, com a esquerda a fazer crescer a sua força política na Assembleia da República, com um lugar para o partido Livre, António Costa, já indigitado para formar Governo, parece estar disposto a governar caso a caso, com os partidos que o queiram vir a acompanhar.

Com a direita esfrangalhada, um CDS em cacos e sem liderança - Cristas demitiu-se - e um PSD já com putativos candidatos a disputarem o poder a Rui Rio, não são previstas, por parte da futura oposição, grandes dificuldades para o novo Governo. O seu programa eleitoral fica assim com luz verde para a próxima legislatura. Pelo que se vai sabendo pela comunicação social, haverá alguns novos ministros e será criado um ou outro novo ministério.

A novidade que surgiu no espaço político da direita nestas eleições foi a chegada da extrema-direita radical à Assembleia da República, com André Ventura com 2.74% dos votos, vindo alguns deles, com surpresa, dos distritos de Portalegre e Évora. A ele se juntará ainda o novo partido Iniciativa Liberal que ocupará também um lugar na Assembleia. Aqueles que pensavam que estas forças políticas populistas e radicais, já a medrar na Europa, não atingiriam o nosso país, enganaram-se redondamente. Mais ainda, segundo alguns académicos, este tipo de discursos radicais e populistas - inflamados e agressivos - poderão ser muito contagiantes em futuras eleições.

Para evitar a sua propagação, os partidos do sistema deverão reforçar a sua capacidade de ouvir os eleitores descontentes e apáticos e tentar melhorar a gestão da causa pública, atendendo aos mais marginalizados, numa sociedade tão desigual, com cerca de 20% de pobres.

Se, por um lado, esta nova configuração parlamentar, com uma maior representação de partidos, pode imprimir uma nova dinâmica, por outro, a sua presença não deixa de revelar algumas perplexidades, sobretudo a nível da linguagem dos novos partidos populistas e radicais que tudo irão fazer para alargar a sua futura representação política.

O que para já se sabe é que os eleitores continuam a acreditar na liderança de António Costa, o grande vencedor. Este resultado demonstra bem como a última legislatura foi considerada muito positiva, apesar do muito que há ainda por fazer, nos mais diversos setores da governação. Da Justiça à Saúde, da Segurança Social à Educação, não esquecendo os apoios às famílias, aos jovens e às crianças do pré-escolar e às de idade da creche. Um montão de problemas a juntar a uma alta de impostos esmagadores, sobretudo para a classe média, em acentuada degradação económica e social.

Os portugueses, na sua maioria, mostraram bem nestas eleições que querem reformas progressistas e políticas sociais evoluídas que impulsionem a coesão social e nos aproximem dos padrões europeus em matéria salarial, de produtividade e com condições de vida digna.

Por outro lado, o voto democrático mostrou ainda, de uma maneira robusta, que os portugueses querem manter um estado-providência que faça face à gula do capitalismo financeiro e mercantilista, que olha sobretudo para os lucros, esquecendo os direitos dos trabalhadores que vivem subjugados à precaridade e a baixos salários.

Finalmente, pensamos que, se o voto dos eleitores apelou a um sonho transformador do nosso país, ao mesmo tempo deseja que ele seja realista. Foi-se a geringonça, pois que viva o diálogo alargado a todos os partidos dispostos a colocar o interesse nacional acima dos partidários.

florentinobeirao@hotmail.com