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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Pensamentos de um arbusto

29.12.21 | asal
"Roubei" ao Agostinho Pissarreira este texto, cheio de vigor e riqueza literária e a defender a importância das nossas raízes, sem as quais estiolamos. AH

arbusto.jpg

Nasci em terra ingrata, num berço de pedra, nos abismos da vida e no precipício das emoções. Talvez por isso (só) consiga sobreviver agarrado com afinco aos penhascos das paixões íngremes, irruptivas, irresistíveis. Das paixões instáveis e dolorosas. Das paixões imponderáveis. Das paixões impetuosas. Das paixões absolutas. Das paixões brutas. Das paixões a pique. Das paixões suspensas nos gumes da alma.

A natureza de cada um está, em (grande) parte, enraizada no local e meio ambiente em que veio ao mundo e foi criado, alimentado, protegido, cuidado, amado.
Somos o berço da nossa infância, os sonhos da nossa juventude e a consistência da nossa adultícia. Somos a medida das nossas aspirações, o apogeu das nossas conquistas, a concretude das nossas realizações, a consonância e diversidade das nossas vivências.
Somos as raízes do nosso coração, o tronco da nossa alma, os ramos dos nossos sentimentos, a clorofila das nossas emoções, a fotossíntese das nossas relações, a copa dos nossos afectos, o fruto dos nossos desejos, a colheita das nossas vontades, a floresta das nossas vivências, a árvore da nossa vida. Transportamos na seiva da vida o oxigénio do nosso nascimento,

Agostinho Pissarreira.jpgo sopro da existência, o grito da liberdade, o sangue da criatividade com que pintamos as perplexidades do mundo, a plenitude do nada e da simplicidade que é o tudo indefinível e indecifrável, a harmonia primordial, a libertação perene!

Agostinho Pissarreira
(Foto: arbusto no Pico Tiñosa, Parque Natural de Sierras Subbéticas, Província de Córdoba, Andaluzia, Espanha)