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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Para rir e chorar por mais...

20.05.19 | asal

O 37 e o benfiquista renegado

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Ontem participei no encontro dos antigos seminaristas da diocese de Portalegre e Castelo Branco. Uma das minhas curiosidades era conhecer o colega José Andrade que, de vez em quando interage comigo aqui no facebook. O encontro era na Sertã e ele, na véspera, havia anunciado que estava a caminho da Sertã. Quando perguntei quem era esse tal José Andrade e me indicaram a pessoa em causa, tive um ataque de riso incontível, e, mesmo com travões a fundo – parecia mal fazer má figura -, tive dificuldade em segurá-lo.

A imagem que construí do José Andrade derivava de três fontes: a sua fotografia do facebook de um jovem de bigode; as duas fidelidades que lhe conhecia: o seu Benfica e o seu partido. Não perde uma oportunidade de usar o bico para escarafunchar nos miolos dos adversários. Exerce com mestria o bico na arte de picar. Presumo que isto resulta da revolta que sentiu após uma viagem a Espanha. Quando chegou a Lisboa, ficou danado com a meiguice dos portugueses e a acutilância espanhola e interrogou-se, ao olhar para o casario alfacinha: «como é possível que macios lusos falem em arranha-céus? Não percebem a masculinidade dos nuestros hermanos ao falar em "pica-cielos"? Qual arranhar, qual carapuça! Arranhar os céus é esgatanhar no ar nas alturas. Picar é outra coisa …

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Sem bigode – informou-me depois que era do século passado e a foto da década de 50. Perante mim estava o Andrade, companheiro do António Henriques de sorriso aberto e algo malicioso, bem-disposto e que conheci pela primeira vez num Hotel em Castelo de Vide. Quando o questionei sobre as suas massacrantes picadelas aos adversários e a apologia – algo acrítica e perturbada do seu benfiquismo justificou-se: «eu só reproduzo!». Filosofia esquisita esta. Quem produz é responsável. Quem reproduz está ilibado de responsabilidade! O grave é que a sua extensão dos reprodutores é muito maior que o desejável. Quanto à outra crença e a revelação da sua fé, só me espanta porque ela rareia no grupo (olá, Arménio e Domingos Sousa, mas o Luís Lourenço e outros têm direito a clamar, neste domínio político, por um lugar de excepção ainda maior).

Concluo: já tenho idade para não ir em fotografias e facebooks. O aguerrido benfiquista e socialista convicto, sempre de bico em riste, saiu-me o mais pacífico dos cidadãos. Parabéns, Andrade, pelo 37 do Benfica e pelo prazer de ainda ontem te ver de cachecol estandarte.

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Outro famoso benfiquista por terras da Sertã era o António Colaço. Estava nervoso porque a tarde do troféu nunca mais chegava. A sua emoção e preocupação pelo Benfica torna-o num adepto equipado a rigor. Ainda não percebi se isso se deve à importância do jogo, à nervosa expectativa ou ao medo do desfecho. A fotografia é agora ao contrário da anterior: no caso do Andrade tem bigode e nunca lho vi; já o Colaço anda de bigode mas, na época da fotografia despontava a penugem para o bigode! No entanto, já à época, a arte lhe fugia dos pés e se concentrava em abundância nas mãos e no ouvido. Com o António Colaço não havia hipótese de engano. Sempre segui de perto o puto que quer pelos óculos, quer pelo loiro e os caracóis do seu cabelo, a sua figura entrava olhos dentro e gravava-se em qualquer memória. O meu problema aqui foi com a palavra que aprendera na sua terra natal. Dois anos antes, passando pelas ruas do Gavião ouvi a primeira vez a palavra puto. Palavra esquisita, pensei. O funcionamento dos miolos só evocava o seu feminino. Essa palavra, apesar da má reputação, eu conhecia bem. Quedei-me pela admiração conclusiva: já sabia que havia palavras sem masculino, o que não sabia é que havia masculinos esquisitos... Hoje posso acrescentar: e não são poucos. O 37 do Benfica mereceu mais um dos seus directos de uma das esplanadas de Mação, depois do encontro da Sertã.

À entrada da Biblioteca Pe. Manuel Antunes, diz-me o meu colega e amigo José Henriques. Já lá vão tantos anos que nem sei se é Henriques ou Henrique. Deixemos as minudências de mais ou menos um s, pois isso está garantido na sua certidão de nascimento -  sim que não é só o Pe. Manuel Antunes que tem certidão de nascimento -, e não são as falhas de memória que alteram a realidade. Diz-me ele: ó Mário, despeço-me já que eu tenho de ir ver o jogo do Benfica. Perguntei-lhe: oh Zé, ainda te lembras de quando foste sportinguista por meia hora? E lá contou ele a história pela enésima vez, com ar comprometido, compungido mesmo, a sua traição ao clube do coração.

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O José Jana apresentou um livro na Sertã (O meu Seminário – 1963 - 1974). Na p. 17 escreve: «O P. Eusébio era o nosso prefeito [pre +feito =colocado à frente, aquele que toma conta de] e dava-nos francês, pelo menos à segunda turma. É-me hoje evidente que tinha um distúrbio qualquer. Era doente pelo Sporting. Quando este perdia, a aula do dia seguinte era perigosa, pois batia-nos "sem dó nem piedade”, com um grosso pedaço, talvez dois a três palmos, de cana da índia». A traição do Zé, então com 11ou 12 anos, ao seu Benfica resulta da pressão do P. Eusébio. Ele arrancou o emblema do casaco, saltou-lhe em fúria para cima, calcando-o com toda a energia disponível. Ao redor, uns tantos, incentivados pelo mentor do acto, batiam palmas. A cena termina com o Zé a atirar o emblema do seu ex-Benfica para o monte de lenha. Passada meia hora e já sem a presença do P. Eusébio, era ver o Zé a vasculhar entre as cavacas à procura do defunto. O cadáver nunca foi encontrado, mas o Zé nunca mais se perdoou a si próprio a traição. A evocação deste episódio é uma necessidade sua para minimizar o peso da consciência! O termo narrativo da evocação é sempre um inevitável e compungido justificativo, de quem pede desculpas, para se libertar do trauma: «eu era uma criança e obrigou-me a fazer aquilo!». O meu fraco sportinguismo nunca te condenou, Zé, e estou seguro que os companheiros benfiquistas também não. Ontem ficaram contentes com a conquista do título, naquele dia ficaram contentes por não serem eles a ter de fazer o mesmo. 

Mário Pissarra