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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Palavras na voz do povo raiano

17.11.20 | asal

É um gozo espiritual ler os teus textos, João Lopes. AH

Bom António

Aí te mando um texto para finalizar o livro dos "Autos das Memórias entre Duas Idanhas".  É mais um exercício que me parece justo e merecido depois de tu teres analisado a obra quase até à exaustão. No fundo, nada mais fiz do que andar à volta do que tu tão brilhantemente disseste.
Neste tempo de escuridão e isolamento, agravado pelas maluquices do Trump (ainda hoje, Machado Vaz e Inês contavam que um cidadão  do Estado da Geórgia, que passara horas na contagem de votos, foi vítima de mais um embuste. Puseram no telhado um aparelho sonoro vomitando mais esta bojarda: "Este homem esteve a queimar os votos de Trump." A multidão em fúria irrompeu na sala para o matar. A custo, conseguiu escapar! É este o nosso mundo! 
  Mas temos de ser fortes e resistentes perante a Terra Devastada. Com um abraço amigo,
João Lopes 

João Lopes1.png

 

Um dos aspetos mais curiosos do livro Autos de Memórias de Entre Duas Idanhas  é o respeito da dupla autoral pelo genuíno “ falar” do povo da região de Idanha a Nova.  Podiam  menoscabar a riqueza prosódica das variantes fonéticas regionais, que ninguém lhes levaria a mal.  Felizmente, não tiveram pruridos em nos apresentar em itálico  algumas das expressões  mais gostosas da língua dialetal, falada, durante séculos, por este povo transfronteiriço, aberto a um sem número de influências.  

  Registemos apenas algumas destas peculiaridades fonéticas, em boa hora disseminadas pela obra.  O que, desde logo, sobressai  é  o predomínio  das palavras pronunciadas  com a africada palatal “T∫”, do domínio oral, correspondente na grafia oficial a um |ch | (emitido como fricativa palatal “∫” na pronúncia padrão.) Só nos dialetos setentrionais portugueses e na língua galega se diz tchave, atchar, como, por extensão, na zona fronteiriça ao norte do distrito de Portalegre, incluindo a região da Idanha. Daí a ocorrência sistemática no nosso livro, em registo de transcrição fonética, de todo um corpo significativo de: cotcharras”, catchopas”,  “ andar a dar  ó “fatcho”,”  lintcheiras”,  “quintchoso”,  “tchabarneco” e outras  semelhantes. Se, na pronúncia-padrão, se representam com um | ∫|,  na boca do Povo, porém, soam reforçadas com um enérgico |t|.

   Trata-se de um fenómeno muito antigo que remonta aos sécs da Idade Média (IX a XV) em que o galego-português se formou,  a partir do Latim vulgar,  de forma inconsciente e gradual, sob o domínio político dos Árabes, que, naturalmente, deixaram na língua dos moçárabes, as suas marcas fonéticas e lexicais.    

 Passemos ao domínio lexical:  a palavra“ lincheira” não aparece abonada no Dicionário.  Na Beira e Trás-os-Montes designa “ penedo”, “laje”, mas cuja origem se me afigura controversa. Trata-se, provavelmente, de uma palavra derivada do castelhano “lancha” com o significado de laje, a que se acrescentou o sufixo "eira" na aceção de lugar. Portanto, lugar de uma grande laje, fraga ou penedo. A questão está na mutação do ditongo nasal an em in. Como an e en tendem a permutar entre si (Anrique/ Enrique), teríamos lentcheira que, em certas regiões perto do Tejo, a sul ou a leste, soa como |i|, como nos ensina o DR. Joaquim Nunes, no seu Compêndio de Gramática Histórica (pp 63 -64). Assim, temos a alinterna de pitrol , p. 244 no nosso livro, tendência verificável em palavras que o povo pronuncia como sindeu em vez de sandeu ou imbição por ambição.

   A empregadita do Senhor Vigário, vivinha que nem um alho, gosta de espairecer, coscuvilhar, levar e trazer notícias da vida alheia. De uma pessoa assim, o povo diz que “ fazia vida de andar a dar ó fatcho”. Facho vem do latim fasculu com o significado de archote, de tudo o que emite luz e fogo. Visibilidade e curiosidade que estimulam na Beira a bisbilhotice de tanta gente que, metendo o nariz na vida dos outros, pretende noticiar o que escondido se queria.  Há dias, eu e o meu neto líamos o  conto de Penha Garcia “ A raposa na vinha”: “ Era uma vez ma raposa que andava a roubar gatchos na vinha.”   Bom, a queda da vogal inicial (aférese) é comum, u(ma) como a sua contrária”(prótese, em “alenterna”). Mas o miúdo apontou-me logo: avô, olha aí o erro, “gatchos” por cachos. 

-  Olha, Zé Pedro, em rigor, isto não é um erro. É o falar do nosso Povo, que já vem de há séculos.  Trocar sons e letras é a sua especialidade. Como tu, quando não sabias ler!

– E ele: “no final de contas, até é engraçado.” 

- Daqui a una anitos, compreenderás melhor a sonorização do | K| velar e a pronúncia da africada palatal|t∫|.

Como esta rapariga gosta da bailia da Festa de S. João! Uma jóia de cantiga de amigo ou de mulher, aqui registada com o encanto feminino da antiga lírica trovadoresca:  “ Bailhava o sol bailhava (p. 223-225). Fácil verificar a palatalização da alveolar |l|  em contato com o som palatal |i| dando |lh|.  A temática da cantiga foca-se na rebeldia e na libertação da mulher, que tudo este santo popular consentia, em antítese com a sua ascese evangélica.

 “ Hoje o rei é o Senhor Padre João…tanto é amigo dos ricos e dos pobres!- Era a vez  da Lhanôr, a sogra do Jerónymo. Mais uma palatalização operada em Lianor pela vizinhança do |i| palatal:  “li” muda para “lh”!   Veja o Senhor!  Hoje sou eu que posso dar uma esmola a qualquer pelingrino que me bata à porta … Exclama o Jerónimo que transformou, com engenho e o suor do seu rosto, um  lapatcheiro (p.237), (charco) num pedaço do paraíso.  O sonho fraternal do bom do Senhor Vigário era que todos tivessem a mesma oportunidade de possuir, de pleno direito, uma Horta da Nora.

 Pelingrino vem de peregrino, naturalmente. E logo se adivinha que o 1º |r| do étimo se tornou diferente em relação ao seu vizinho, provocando o aparecimento do |l|. Dissimilação regressiva, se diz.  Mais. Com a deslocação do i nasal, temos a sílaba |lin| antes do |g|.   Ainda hoje se vêem e  ouvem restos deste fenómeno. Há dias no programa do César Mourão, uma senhora insistia em dizer  Fruti em vez de Futre! ( metátese) ou inveredar por enveredar!

 Eu devia já ficar por aqui. Esto breuis et placebis. Mas, com mil perdões:  o nosso Vigário gosta tanto do cheiro dos agalípios e do anecril!  EuKalyptos virou agalípio na boca sagrada do Povo(p.241). Mas como?  Basta mudar o prefixo-eu em |a|, vogal mais resistente, sonorizar a consoante velar K e fazer cair o |t|, vocalizando-o por |i| e já temos o procurado agalípio! Simples, não é? Quanto tempo levou o processo de transformação? Não sei. Eis uma pergunta que vale milhões. Quanto a  anecril, é mais fácil. O termo árabe alecrim coexiste ao lado do latino rosmarinus.   Alecrim, o povo moçárabe não gostou, e toca de mudar por outro mais eufónico anecril.  O m final muda de posição ou desaparece, dando lugar a uma alveolar ”n” da 2ª sílaba, e, por seu turno, este mesmo |l|  passa a figurar no final.  

   Por último, vamos ao nome do herói desta maravilhosa história de  beleza e trabalho. “ O Jarólmo é um homem de sorte! (239)  Hieronymus, nome sagrado no próprio étimo, mais visível em grego do que em latim. Em latim clássico, não havia “j”. Mas o povo não foi na conversa e toca a pronunciar Jasus “ Ai Jasus, que se apaga a luz! “ Como disse, o | a| é mais forte que o |e|, por isso, avangelho coexistia com evangelho. Temos então Ja… o ni cai por fraqueza (lembremos anima que deu alma, membrar que resultou em lembrar), ou seja, a sílaba ni reduz-se a um  |l|  para suscitar uma diferença sonora com o |m|( dissimilação) e temos Jarólmo. Mas não garanto que seja assim! Outra explicação haverá! O italiano Girolamo não será de todo indiferente a esta singular modificação na voz do povo, o protagonista da Língua antes que a Renascença viesse a controlar a evolução popular com os termos eruditos das Línguas Clássicas (Grego e Latim) e as regras disciplinadoras das Gramáticas do Séc. XVI.  

Mas já agora faço-me de alonso, ( ingénuo)  como o P. João diante da inveja dos pobres ou o medo revolucionário das senhoras ricas, donas de grandes latifúndios, que julgavam suprir com esmolas a injusta distribuição de terras.

Senhora do Almurtão

  E cá vai uma quadra à nossa Santinha da casa caleada:

     Senhora do Almortão

     Aonde vos foram pôr

     Nas Campanhas da Idanha

     Onde não há outra flor.

                        Coimbra, João Lopes