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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Palavra do Sr. Bispo

26.03.21 | asal
E CADA UM VOLTOU PARA SUA CASA!...
 

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Há frases a que nunca damos qualquer importância, mesmo que as leiamos vezes sem conta. Mas lá chega um momento em que nos fazem acordar como se de um relógio despertador se tratasse. Levantam-nos da soneira e levam o pensamento para voos sem fim. Isso acontece, sobretudo, quando lemos a Sagrada Escritura. Mesmo que conheçamos certos livros e passagens, há sempre novas perspetivas a descobrir, novas lições a tirar, passagens que, apesar de tantas vezes lidas e escutadas, nunca nos disseram nada. Mas chega um momento em que nos fazem abrir as janelas ao ar fresco da vida, trazem luz, sacodem-nos, levam-nos a outras paragens. É a riqueza da Palavra de Deus, de Deus que sempre nos surpreende e toca no ombro. Há dias, o Evangelho da Eucaristia terminava dizendo que “e cada um voltou para sua casa”.
Oh! Que frase tão comezinha e nada importante, é verdade! Mas o silêncio feito depois de a escutar, fê-la ecoar no sótão pensante e pôs-me a divagar. Neste voltar a casa, a casa pode ser entendida como a pátria, a terra natal, à qual nem sempre há gosto em voltar, sobretudo, se, por falta de condições, até se foi obrigado a sair de lá, ou, como neste momento, muitos não poderão regressar por causa da pandemia. Mas deixemos essa dimensão e fixemo-nos na outra casa, na casa de família. Pode-se voltar para casa vindo de muitos lugares: do trabalho, do cinema, do baile, da tasca, da noite, do café, do casino, da criminalidade, da casa do vizinho, da festa, do estrangeiro... Atendendo às circunstâncias de cada um, esse voltar a casa, pode não trazer consigo o sentimento de alegria, do desejo do encontro. Pode trazer tristeza e até rancor. Tristeza, por tantas e tantas razões. Talvez por saber que tem gente doente em casa, a sofrer, e não sabe o que lhe há de fazer, porque não tem pão na mesa para dar aos filhos e acaba de ser despedido do emprego, porque o amor e a paz deixaram de existir lá dentro daquelas paredes, porque...porque... Mas quem volta a casa pode também vir carregado de más intenções, de revolta, de desejo de violência, de ajuste de contas, de desprezo, vingança.... É verdade que tudo isso, aqui ou ali, pode acontecer. Esse voltar a casa, porém, também pode suscitar diferentes estados de alma a quem está em casa. Pode suscitar sentimentos de alegria e de boas-vindas naqueles que valorizam a família, que a cultivam nos valores e na verdade, que a promovem cada vez mais como comunidade de vida e de amor, como lugar saudável de refúgio e acolhimento, de alegria e de paz, de solidariedade e corresponsabilidade. Mas também pode acontecer que, quem está em casa, esteja sempre com o coração nas mãos. Pressente que quem está a chegar vem alcoolizado como de costume, esmurrado porque sempre em zaragatas, violento a exigir a mísera reforma de seus pais para a sua vida airada, useiro e vezeiro em violência, truculento com jeitos de quem pode e manda e a pensar que quanto mais alto fala mais razão tem...pobres filhos, pobres pais, pobre comunidade familiar!
E cada um voltou para sua casa!... A frase em questão aparece no contexto da discussão sobre quem era afinal aquele homem chamado Jesus, o Senhor da vida e da alegria de viver. Os próprios guardas do Templo, que foram mandatados para o prender, encostaram-se aos outros a ouvir o que Ele dizia e acabaram por regressar a casa sem o prender. Nunca tinham ouvido ninguém falar como aquele homem. A pessoa de Jesus fascinava, era profundamente atraente e inspiradora, nunca fechada a ninguém, sempre disponível ao dom e à alegria. Multidões sem conta apertavam-se para o ouvir falar e lhe tocar. A sua fama espalhava-se cada vez mais por toda a região. Muitos deixavam-se dominar pelo espanto e permaneciam encantados a louvar a Deus por estarem a ver e ouvir coisas tão extraordinárias e diferentes, como transformar a água em vinho, multiplicar o pão e o peixe, perdoar os pecados, ressuscitar os mortos, dar vista aos cegos, curar os coxos, sarar os doentes, acalmar os ventos e as tempestades.... Outros, sem palavras que os satisfizesse, limitavam-se a dizer que um grande profeta aparecera entre eles, que Deus, de facto, tinha visitado o seu povo. Outros, ainda, não menos maravilhados, também se perguntavam, boquiabertos, de onde é que lhe vinha tanta sabedoria e poder, pois pensavam conhecê-lo muito bem como o filho do carpinteiro e de Maria. O impacto que Jesus provocava, não por malabarismos ou excentricidades, mas pelas maravilhas que operava e pela força empática da sua palavra cheia de serenidade e beleza, alegrava as multidões e muitos deixavam tudo para o seguir. No entanto, se uns se maravilhavam com tudo o que estava a acontecer, os que se julgavam donos da verdade e dos outros, sentiam-se incomodados no seu posto, tornaram-se adversários rancorosos de Jesus, mesmo que em desacordo quanto à sua pessoa. Uns diziam: “Ele é realmente o Profeta”, outros afirmavam: “É o Messias”. Outros, porém, contestavam: “poderá o Messias vir da Galileia? Não diz a escritura que o Messias será da linhagem de David e virá de Belém, a cidade de David?”. “De Nazaré poderá vir alguma coisa boa?”. Nesse animado e desconfiado palanfrório de que nos dá conta o Evangelho, depois de terem ouvido Jesus e de se terem ouvido uns aos outros, puseram fim à discussão “e cada um voltou para sua casa”! Se discordavam quanto à pessoa de Jesus, este voltar a casa transportava neles um pensamento unânime. Todos magicavam como é que se haveriam de ver livres daquela “pestinha”, espécie de intruso a quem era preciso fazer calar, prender e matar. No próximo Domingo, na Leitura da Paixão, à pergunta hipócrita de Pilatos sobre o que havia de fazer a Jesus, ouvi-los-emos a gritar: “Crucifica-o! Crucifica-o!” Obtido esse objetivo e muito senhores de si, também “cada um voltou para sua casa!”
Pensando curtir a vida na libertinagem, fora e longe da casa paterna, também o filho pródigo acabou por voltar para casa. Caindo em si, constatou que a sua atitude aventureira o fez cair na maior das misérias. Nostálgico da casa paterna, sentiu o abandono dos amigos da onça, sentiu a vergonha e a solidão, o vazio e o nada, a tristeza e a fome. Arrependido e confiante, ganha coragem e decide regressar. Incerto quanto à reação do pai, ensaiou-se para lhe pedir perdão e que o tratasse como a um simples empregado. O pai, porém, surpreende-o. Logo que o vê, corre ao seu encontro, abraça-o, beija-o numa felicidade inaudita que nem sequer o quer ouvir a pedir perdão e apoio. Reveste-o com a dignidade de filho, de filho querido e amado com todos os direitos de filho, faz festa e festa rija. Que bom, o filho tinha regressado!
Esta parábola do pai do filho pródigo, foi-nos contada por Jesus para nos revelar o amor de Deus por cada um de nós. O pecado, tantas vezes manifestado no desejo de domínio, na falta de diálogo e transparência, na corrupção, nas formas de vida dupla, na tibieza ou vazio espiritual, na apatia e indiferença, faz-nos sentir mal, afasta-nos de Deus, gera vazio interior, mal estar, desassossega. Mas ninguém pode perdoar os pecados a si próprio. O perdão pede-se a quem se ofendeu. Pelo pecado, pela fuga da casa paterna, cava-se uma rutura na comunhão com Deus e com a Igreja, o que implica a necessidade do perdão de Deus e da reconciliação com a Igreja. Isto acontece através do sacramento da Confissão. Por maior que seja o pecado, a misericórdia de Deus é muito maior. Até no alto da cruz Ele perdoa a quem o matava! É por isso que o perdão dos pecados no sacramento da Confissão deve ser procurado e recebido “como uma prenda, como um dom do Espírito Santo, que nos enche da torrente de misericórdia e de graça que brota incessantemente do Coração aberto de Cristo Crucificado e Ressuscitado”, como afirma o Papa Francisco. É lá que experimentamos, de novo, a proximidade, a misericórdia, a surpresa de Deus que vem ao nosso encontro, nos abraça e dá paz. Não como mera segurança e conforto pessoal, mas como encontro vivo com Ele na força do Espírito Santo, donde nasce um renovado compromisso na construção da santidade e de um mundo melhor. Se o Sacramento da Reconciliação, ou Confissão, for central na vida de cada cristão, tudo será diferente e poderemos dizer uns dos outros que “cada um voltou para sua casa”, com uma fé mais adulta e madura, fermento de renovação familiar e social.
Na esperança da Ressurreição, a Quaresma passa por aí! Feliz Páscoa para todos, com muita saúde, alegria e paz.
Antonino Dias
Portalegre-Castelo Branco, 26-03-2021.

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