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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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Palavra do Sr. Bispo

NÃO VOS ESQUEÇAIS, BATIZAI AS CRIANÇAS

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Este apelo, em título, é do Papa Francisco, na sua Catequese sobre o Batismo, em abril de 2018. E hoje, a pretexto da Festa do Batismo do Senhor, e seguindo de perto o Catecismo da Igreja Católica e, sobretudo, o livro “Batismo e Crisma” do Cardeal José Saraiva Martins, publicado pela Universidade Católica, vou recordar algo sobre o Batismo das crianças. Há quem coloque em causa a legitimidade desta prática, levantando dificuldades “de ordem bíblica, teológica, antropológica, sociológica e missionária”. Defendem que a pregação dos Apóstolos era dirigida apenas aos adultos, que o Batismo reclama a fé e as crianças são incapazes de a professar, que é um atentado à sua liberdade pois lhes impõe obrigações religiosas para o futuro, que o Batismo não faz sentido numa sociedade heterogénea, pluralista, com grande instabilidade de valores e inúmeros conflitos ideológicos, que o Batismo das crianças é fruto de uma pastoral de impulso missionário mais preocupada em administrar sacramentos do que em suscitar a fé e promover o empenhamento evangélico... E mais se dirá, por convicção, por desconhecimento ou por preconceitos.

Se a reflexão teológica católica sempre se ocupou e ocupa desta problemática, também a reflexão teológica protestante o faz. E foi acesa a controvérsia entre os protestantes em meados do século passado. O teólogo Karl Barth, partindo de considerações de ordem exegética e pastoral, era contra o Batismo das crianças. Pretendia “elaborar uma teologia do Batismo autenticamente bíblica; evitar todo o automatismo no sacramento; e, por fim, opor a uma Igreja “de multidões” ou de massas, uma Igreja viva, ‘profitens’, consciente da própria fé”. Mesmo que as intenções fossem aceitáveis, outros teólogos protestantes, como Oscar Culmann e Flemington, anglicano, acharam que as razões apresentadas para não batizar as crianças eram insustentáveis à luz da fé e da história. Por isso, combateram-nas, consideraram-nas fruto da moda e a contradizer a tradição das suas Igrejas. Entre os católicos, o que acho salutar, também houve e haverá, com certeza, pensares diferentes, o que só aguça o apetite para refontalizar, aprofundar e caminhar na fidelidade à Igreja, o que realmente interessa.
De facto, se aprofundarmos esta questão à luz da Revelação e da Tradição viva da Igreja, verificamos que a Igreja, apesar das discussões, sempre considerou o Batismo das crianças como algo de normal. A sua prática é imemorável, remonta aos primórdios da Igreja. “É certo que nos Atos dos Apóstolos e nos outros escritos do Novo Testamento não se encontram testemunhos, pelo menos explícitos, acerca do batismo das crianças”. Mas podemos encontrar indícios, como, por exemplo, as palavras de Jesus a Nicodemos (Jo 3, 5), a universalidade do preceito missionário (Mc 16, 16), a bondade de Jesus para com os pequeninos (Mc 10, 14), o Batismo da família de Cornélio (At 10, 48) o Batismo do Carcereiro e de todos os seus (At 16, 33), o Batismo de Lídia e de toda a sua família (At 16, 15), o Batismo de Crispo com toda a sua família (At 18, 8), o Batismo de Estéfanas e de toda a sua família (1Cor 1, 16). Os testemunhos do século II apresentam essa prática como normal e não como coisa nova. Santo Ireneu fala da presença “de recém-nascidos e crianças” batizadas, ao lado de adolescentes, jovens e mais velhos. A Tradição Apostólica de Hipólito, dos princípios do século III, e que constitui o ritual mais antigo de que temos conhecimento, prescreve: “Batizai, em primeiro lugar, as crianças: todos aqueles que possam falar por si, que falem; para aqueles que, ao contrário, não podem falar por si mesmos, que falem os progenitores ou alguém de sua família”. São Cipriano afirma que “não se pode negar a misericórdia e a graça de Deus a nenhum homem que chega à existência”, seja qual for “o seu estatuto e idade”. E estabelece que se podem batizar as crianças “logo no segundo ou terceiro dia após o nascimento”. Orígenes refere tal prática como de tradição apostólica: “A Igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de conferir o Batismo também às crianças”. Santo Agostinho faz eco do mesmo. Nos séculos III e IV, a Igreja torna-se exigente na preparação dos adultos para o Batismo, com catecumenatos prolongados e sério empenhamento moral. As crianças, porém, continuam a ser batizadas sem qualquer hesitação e sem qualquer tipo de contestação, também com o sentido de purificação e de ingresso no novo povo de Deus. Pessoas que só foram batizadas em idade adulta, como São Basílio, São Gregório de Nisa e Santo Agostinho, reagiam contra estes atrasos e pediam que não se retardasse o Batismo das crianças. Outros, como Santo Ambrósio e São João Crisóstomo, insistiam para que o primeiro sacramento da iniciação cristã fosse administrado também às crianças. O Concílio de Cartago, em 418, o Concílio de Viena em 1312, o Concílio de Florença em 1431, o Concílio de Trento em 1546, falam positivamente no porquê e necessidade do Batismo também das crianças. Paulo VI, referindo-se aos seus antecessores, declarou que “o Batismo deve ser conferido também às crianças que não podem ainda ser culpadas de qualquer pecado pessoal, a fim de que elas, nascidas privadas da graça sobrenatural, renasçam pela água e pelo Espírito Santo para a vida divina em Jesus Cristo”. O Magistério da Igreja não se tem cansado de falar de tal temática, entendendo que as crianças não devem ser privadas desta graça que não supõe méritos humanos, é Dom gratuito de Deus. Sabemos que o Batismo surge intimamente ligado à pregação da Palavra e à fé e as crianças não escutam a Palavra nem professam a fé. Mas também sabemos que o Batismo é celebrado na fé da Igreja. “É a Igreja que batiza na sua própria fé. É a Igreja, comunhão dos santos, que crê pelas crianças, que, por elas, professa a fé; do mesmo modo que é a Igreja” e não tanto quem as traz nos braços, “que, propriamente falando, as conduz à pia batismal, oferecendo-as aí ao Pai e, enquanto mãe fecunda, as gera espiritualmente”. Assim, embora seja a fé dos pais ou dos padrinhos que leva a batizar as crianças, as crianças são batizadas na fé da Igreja. A fé de quem as apresenta tem valor enquanto representa e incarna a fé e a ação da própria Igreja, e as crianças que não creem por si sós, com um ato pessoal, creem através destas pessoas que as apresentam mediante a “fé da Igreja que lhes é comunicada”. Este ensinamento também consta no novo ritual do Batismo. O ministro do sacramento pede aos pais e padrinhos para professarem a fé da Igreja “na qual as crianças são batizadas”. É da fé da Igreja que depende a eficácia do sacramento.
Sendo o Batismo o sacramento da fé, a fé tem necessidade da comunidade dos crentes. Só na fé da Igreja é que cada um dos fiéis pode crer e desenvolver a sua fé. E se toda a comunidade eclesial tem uma parte de responsabilidade no desenvolvimento e defesa da graça recebida no Batismo dos seus membros, também é muito importante a ajuda dos pais. Importante é também o papel do padrinho e da madrinha, que devem ser pessoas de fé sólida, capazes e preparados para ajudar a pessoa batizada no seu caminho de vida cristã (cf. CIgC 1255).
“Não vos esqueçais, batizai as crianças”, apela o Papa Francisco. O Batismo dá acesso à verdadeira liberdade, é um bem essencial, assegura à criança a vida nova em Cristo.

Antonino Dias
Portalegre-Castelo Branco, 11-01-2019.

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