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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Memórias de Idanha-a-Nova -1

11.09.20 | asal

Um livro

O P. Adelino Américo Lourenço, vigário de Idanha-a-Nova, telefonou-me há dias a pedir-me o endereço para me oferecer um livro que ele publicou em 2006, por ocasião dos 800 anos da Vila de Idanha-a-Nova, que ele paroquia desde 1972. Ofereceu-mo «com muita estima», o que eu agradeço sinceramente, embora há mais de 50 anos nos tivéssemos visto apenas uma vez, numa ocasião em que passei por aquela linda terra e fui visitá-lo à igreja levando comigo outro Adelino, o meu cunhado do Fundão.

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Eu não sabia do conteúdo desta obra, mas olhei para ela com curiosidade e até me provocou interesse, a ponto de já ter passado horas com a sua leitura. É de história que se trata, é do passado que se fala, mesmo que o P. Adelino diga que lhe «falta a competência científica, necessária a tal empreendimento» (sic), mas «o amor entranhável que dedico a esta Villa…» obrigou-o a mexer nos tesouros da paróquia e a trazê-los à luz para gozo e alimento de muitos.

Estes “Autos de Memórias de entre Duas Idanhas”, com capa centrada na Igreja paroquial e duas fotos, a do pároco de há 100 anos atrás (canto superior esquerdo) e do atual (canto inferior direito), são um precioso contributo para a história religiosa dos últimos 100 anos de Idanha!

O início

Afirma o P. Adelino: «Já me tinham dito: - No chão daquele arcaz grande… está lá uma caixa de madeira». Estes arcazes guardavam as preciosidades usadas extraordinariamente na liturgia: “capas de asperges em cinco cores… ternos de casula e dalmáticas… véus d’ombros… alvas r sobrepelizes… frontais e pavilhões de sacrário”… etc.

E no arcaz estava ainda uma caixa de madeira. «Foi só quando a euforia pela chegada do ano 2000 – século XXI e 3.º milénio – despertou em mim algo de misteriosamente nostálgico, ao ponto de me decidir a puxar, para fora do velho bahú, o tesouro E na caixa o que estava? «…um maço de laudas, atadas em cruz com uma fita vermelha…». E na primeira folha, a mensagem:

Para o Vigário

              do anno 2000

«Estremecendo-me a alma e as mãos, desatei a fita…. Religiosamente… fui decifrando e meditei em cada lauda já amarelecida, testamentos de sensatez e humanidade, paz e sofrimento, dor e esperança!!!»

Em síntese, um vigário anterior, de nome João Affonso Soares, que paroquiou a Idanha entre 1891 e 1914, num trabalho de copista e comentador independente, redigiu minuciosamente o que de importante aconteceu na Idanha entre 1870 e os primeiros anos da República.

Tempos revoltos, marcados pela turbulência do liberalismo, pelo definhamento da monarquia e advento da República e da poderosa maçonaria. Este vigário, homem culto, rigoroso cronista e copista dos documentos do tempo, deixava um rico testamento ao seu sucessor do ano 2000, apelando à continuação da obra que ele deixou, especialmente o incremento da fé cristã e o combate às catástrofes das «pragas de fome e miséria para o pobre Povo…», como ele próprio diz na pág. 19:

«…a divisão desastrosa de Portugal entre absolutistas e liberais, com guerras e revoluções, cartas constitucionais e maçonaria, e sobretudo e sempre com ataques, afrontas e perseguições aos ministros sagrados da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana e muito mais catastrófico, porque mais dói, as pragas de fome e miséria para o pobre Povo, todas essas consequências sociais também aportaram à minha Villa de Idanha a Nova…»

Paramos hoje por aqui. Nos próximos dias, explanaremos o conteúdo do livro. António Henriques

(continua)