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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Os vírus da democracia

24.02.20 | asal
Meu caro Henriques
Gostava de partilhar com os nossos companheiros do Animus  mais algumas reflexões, penso que oportunas. Nada mais nada menos, relacionadas com o badalado e preocupante caso do coronavírus que está a colocar a humanidade em sentido. Partindo deste fenómeno viral, desço ainda ao mundo da política, para reflectir também sobre os vírus das nossas democracias que, insidiosamente, se vão instalando, cada vez mais, numa Europa à deriva.
Neste nosso mundo agitado por tantos e tamanhos perigos, saibamos manter a lucidez possível nas nossas vidas e preservar os valores em que ainda acreditamos. Num forte abraço
Florentino Beirão

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Resistir aos ataques

 

O coronavírus, nascido lá para o oriente, na imensa e populosa China, como um polvo gigante, lentamente, tem vindo a estender os seus numerosos tentáculos aos quatro cantos do globo, devorando já mais de um milhar e meio de vidas. Perante este surto epidémico, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não se tem cansado de emitir continuados alertas, para que se encare este surto viral com todos os cuidados preventivos, para não se estender mais ainda. Esta calamidade que surgiu de um modo sorrateiro, numa populosa cidade chinesa, estendeu-se depois, com mais ou menos intensidade, pelos cinco continentes. Aliás, tem sido assim, ao longo da história das epidemias conhecidas desde tempos remotos, que geralmente tem acontecido. Uma das mais mortíferas pestes, matando cerca de um terço da população, surgiu na idade-média, no séc. XIV, ficando conhecida como a “peste negra”. E já no séc. XX, após a 1.ª guerra-mundial, “a gripe espanhola” dizimou igualmente uma parte significativa da população europeia, incluindo a portuguesa. Outros surtos têm surgido, com mais ou menos gravidade, ao longo dos tempos, com uma cadência de cerca de 100 anos.

 

Deste modo, a humanidade nunca poderá evitar, totalmente, os ataques de novos vírus, por mais que a ciência evolua e se vão descobrindo mais e melhores vacinas, nos estudos que se vão efetuando nos numerosos laboratórios, espalhados pelo mundo.

Este fenómeno constante na história da humanidade poderá também conduzir-nos a uma oportuna reflexão, relativa à propagação de alguns vírus que vão medrando nas nossas democracias, hoje também sujeitas a muitos ataques. Poderão mesmo vir a afetar a qualidade e a sobrevivência dos diversos regimes democráticos.

Tentemos pois elencar alguns desses perigos virais que hoje se encontram a minar as várias democracias. Referimo-nos aos vírus do populismo, do nacionalismo, da xenofobia, da demagogia, do racismo, do neofascismo e dos “fake-news”. Tem sido com esta bateria viral que as democracias têm sido ultimamente mais atacadas, por quem as quer minar ou destruir. Se elas não forem robustecidas pela força dos cidadãos democratas, tal poderá vir a acontecer. Sendo assim, importa conhecermos as suas causas e tentar aplicar os remédios mais eficazes, para que tal não venha a acontecer.

Podemos então interrogarmo-nos, como poderia ter surgido o trapalhão Trump e o malfadado Bolsonário, se não tivessem utilizado, com grande mestria, a bateria dos vírus, atrás referida? E quanto ao Brexit, teria ele existido, se não fosse lançado nas eleições o vírus do medo aos emigrantes? O mesmo se diga do demagogo Salvini em Itália, do Vox em Espanha e do Basta em Portugal. Mesmo as poderosas democracias da Alemanha e da França, não se encontram imunes a esta epidemia. Pelo que nos é dado observar, estes diversos e maléficos vírus, aí se encontram espalhados pelas diversas latitudes do globo, já a contaminar as frágeis democracias.

As causas desta situação, se bem analisamos, podemos encontrá-las na generalizada corrupção de alguns políticos, no corte das relações entre eles e os seus eleitores, na insegurança, no fosso cavado entre as elites escandalosamente ricas e uma grande parte da população, cada vez mais, com a globalização, a vegetar numa situação de pobreza ou miséria. Junte-se ainda o tráfico de influências entre os interesses privados e os recursos públicos, o desemprego, sobretudo dos jovens. Estas razões são mais que suficientes para que as nossas democracias se encontrem hoje, no meio de constantes ataques perniciosos à sua saúde.

Sabendo nós que os inimigos da democracia, sempre atentos, recorrem a múltiplas estratégias, para  minar esta flor frágil, urge uma atenção vigilante de todos os democratas, distinguindo-se o trigo do joio.

Se olharmos também para o nosso país, verificamos que a tendência para se cultivar o clima viral do populismo e da demagogia, é galopante. Com a chegada do racista André Ventura ao Parlamento, a representar o partido "Chega", já nada poderá ser como dantes. O seu violento ataque racista à deputada do Livre, mandando-a regressar à sua terra, foi já um exemplo do que é capaz este partido da extrema-direita, já a crescer nas sondagens. E, se bem analisarmos os níveis de abstenção eleitoral no nosso país, com mais de metade de eleitores a ficar em casa, podemos concluir que algo vai mal na nossa democracia, a exigir dos democratas uma atitude de resistência ativa aos vírus corrosivos da nossa democracia.

florentinobeirao@hotmail.com