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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Os pesadelos da União Europeia (3)

02.05.19 | asal

Caro Amigo Henriques

Segue a última reflexão sobre as eleições europeias. Muito fica sempre por abordar. Deixo para os especialistas o aprofundamento desta problemática, sempre em evolução.
Numa altura de tanta complexidade para o projecto europeu, cada um a puxar para o seu lado, uns a remar numa direcção, outros em sentido contrário, vamos ver para onde se inclina esta barca à deriva. Os populismos terão a última palavra? Agarremos no nosso voto e marquemos o sentido das nossa opção. A nossa demissão será sempre má.
A Sertã já se cobriu de flores para nos receber. Quem faltar ao Encontro Anual, não se queixe de não ter sido avisado a tempo. Abraços e até sempre
Florentino Beirão

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As dores de crescimento

 

Já nos referimos às razões que impulsionaram a criação da Comunidade Europeia. Posteriormente, verificámos como se foi processando a sua expansão. Desta vez, vamos dar mais um passo, tentando auscultar as dores de crescimento que têm marcado esta aventura mundial única. Com um crescimento tão veloz, chegando a albergar 28 países, não é de estranhar que fossem surgindo debilidades internas, ao longo dos seus já longos anos.

Envolvida numa complexa encruzilhada política, com o turbulento “Brexit” a complicar mais a sua vida, com o populismo e a xenofobia à solta, a UE tem tardado a encontrar um rumo renovado que lhe permita encetar algumas urgentes reformas. Nomeadamente, a promoção de uma maior coesão interna e um desenvolvimento económico mais robusto.

Dirigida por um exército de contabilistas e fazedores de leis, encerrados em Bruxelas, desligado dos reais problemas dos cidadãos, a UE tem deixado a porta aberta aos nacionalistas e aos eurocéticos, organizados à volta de Salvini. O seu propósito é claro. Tentar minar por dentro a sua atual existência e colocá-la ao serviço das suas opções políticas alternativas. Entre estes eurocéticos, encontram-se também os populistas e os xenófobos, a medrarem por toda a Europa: França, Espanha, Polónia, Hungria, Holanda, Áustria, República Checa e Eslováquia. Unidos na mesma luta, tudo têm feito para desvirtuarem o primitivo projeto europeu, explorando algumas das suas limitações e contradições. Nomeadamente, os problemas dos fluxos migratórios, gerados pela chegada de numerosos emigrantes e refugiados, encarados como demónios devoradores de bens e empregos os quais muito têm contribuído para atiçar o populismo. As razões que alegam para se fecharem as fronteiras têm causas bem conhecidas. Recorde-se que, a partir de 2008, com origem na América, chegou à Europa uma violenta crise económico -financeira que abalou uma boa parte destes países, deixando-os em pantanas. Face a esta conjuntura depressiva, a Rússia e a América, foram-se aproveitando destas debilidades, para, estrategicamente as explorarem, através da propagação dos medos populistas que têm provocado o enfraquecimento das democracias europeias. Se bem o delinearam, melhor o estão a executar. Os seus meios são conhecidos e vão ser amplamente utilizados nas próximas eleições para o Parlamento Europeu (PE), sobretudo através dos cibernautas e das notícias falsas (fake news), as quais inundarão os computadores dos eleitores. Através delas, tentarão influenciar a orientação do voto. Os recentes exemplos do Brasil, da América e da Grã-Bretanha deviam alertar-nos para esta nefasta manipulação. Como a destruição das democracias e a instauração de governos antidemocráticos, autoritários e tirânicos, hoje já não se fazem com bombas e invasões, a conquista e controlo do poder, por incrível que pareça, poderá vir a ser feita através do voto. O resultado do “brexit” inglês, a eleição de Trump, de Bolsonaro e de Salvini são disto exemplos, quando a extrema-direita e extrema-esquerda se unem, no propósito de minarem o projeto europeu.

Se alguns partidos colocarem no (PE) muitos dos seus candidatos, teremos dentro da UE partidos mascarados em cavalos de troia, portadores de nacionalismos extremistas, xenófobos e antidemocratas. Razão mais que suficiente para encararmos estas próximas eleições, com a gravidade que nos merecem.

Aos candidatos ao PE, o que lhe devemos exigir é que nos apresentem os seus programas eleitorais, os discutam e se comprometam a lutar por eles, pugnando por uma sociedade europeia de coesão e prosperidade partilhada, com menos diferenças entre ricos e pobres. Não esquecendo a enfraquecida classe média e os jovens com empregos aos soluços. Só que, infelizmente, em todas as intervenções que temos ouvido dos candidatos, não são os problemas e as políticas da UE, mas tricas caseiras, com casos recolhidos na espuma dos dias. Os mais importantes problemas vão- se chutando para o lado, empurrados para as calendas.

Pelo contrário, estas eleições devem servir para debater o papel da UE num mundo cada vez menos europeu e mais sujeito às influências externas. Devia ainda discutir-se se optamos por construir um continente fortaleza ou uma porta aberta ao mundo, um espaço de partilha, de paz e de prosperidade para todos. Queremos uma União de Nações ou um superestado? As atuais dores de crescimento da UE exigem respostas claras. Caso tal não aconteça, é provável que os eleitores fiquem em suas casas, optando por não irem votar.

florentinobeirao@hotmail.com