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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

OS SERÕES DA ALDEIA

16.11.20 | asal

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Nos tempos em que a electricidade ainda era um sonho e depois da refeição da noite - a “ceia”, os vizinhos reuniam-se em casa de uns e de outros à volta da lareira nas frias e longas noites de Inverno e aí confraternizavam num ambiente saudável e alegre.

E aquelas noites escuras como o breu, ruidosas pelas rajadas de ventos gélidos, pelo ladrar dos cães ou o piar das corujas, apoderavam-se de nós os medos fictícios que a escuridão ajudava a perpetuar.
Bem agasalhados e guiados pelas lanternas de azeite, enxergando o chão naquela meia luz, o caminho até parecia estar assombrado.
Estes serões aconteciam com regularidade e Penha Garcia marcou este tempo. As lareiras consumiam grossos tocos de madeira até se transformarem em brasas. Era o sítio aconchegado onde todos queriam estar, mesmo nas casas mais pobres e, depois de acabados os trabalhos do dia, as longas noites de Inverno eram preenchidas com estes convívios.
Ali se desenrolavam muitas conversas, episódios ligados ao campo, aos animais, sobre pessoas, narrativas do seu tempo, histórias e contos. Os mais novos, filhos e netos ouviam, riam e sorriam quando o narrador despertava interesse sobre os enredos.
E lá iam contando das suas aventuras fantásticas que prendiam os ouvintes, metiam bruxas, espíritos, que vagueavam por caminhos assombrados, lobos que apareciam na noite de olhos reluzentes e que faziam das suas, deixando os mais novos assustados e com medo até chegarem a entrar na cama e se cobrirem com os pesados cobertores de “papa”, segurança que até os mais afoitos desejavam, todos tinham “tefe-tefe”.
Este fascínio de ouvir tantas histórias criava interesse e dava gozo e muitas delas ficavam marcadas nas cabecinhas e para sempre, lembram-se das anedotas, das adivinhas, dos trocadilhos, que nos faziam puxar pela cabeça e aqueles mais espevitados lá iam tentando responder, acertando ou não, até que fosse desvendada a resposta certa.
Alguns narradores tinham de facto o condão de contar histórias, contos e lendas, sendo tudo isto um repositório vivo de sabedoria dos usos e costumes.
Serões que geravam momentos agradáveis, distracções apreciadas por todos; viviam em comunidade perfeita, acorriam em auxílio quando necessário e viviam as alegrias e tristezas de cada um, gente generosa e de almas quentes.

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Indiferentes e fartas de ouvir estas patranhas, as mulheres iam fiando o linho nas rocas amareladas pelo tempo ou faziam algumas roupas, camisolas de lã ou meias para uso próprio ou para um qualquer familiar.

As raparigas aprendiam e ensinavam a fazer rendas ou a bordar, pensavam no enxoval e iam aproveitando o tempo destes serões tão genuínos.
Chegada a hora de ir embora, cada qual pegava nos seus agasalhos, acendiam a candeia de azeite para alumiar o caminho, despediam-se com votos de uma boa noite e um até amanhã reconfortante.
Tempos que já vão distantes e nos causam sorrisos nos lábios.

João Antunes

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