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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Os 60 anos das guerras coloniais (1)

15.10.21 | asal
Meu caro Henriques
Espero e desejo que tenhas regressado em beleza da tua peregrinação a Santiago de Compostela.
Fizeste bem partilhar a tua ida a esse santo lugar conhecido certamente da maior parte dos nossos amigos e companheiros. Gostei de rever aquele lugar onde já me desloquei várias vezes. A primeira ainda frequentava o seminário de Portalegre. Foi nessa altura que despertei para os diversos estilos que o património desse espaço revela. Do Românico ao Barroco...uma maravilha!!!
Desta feita envio uma primeira abordagem à guerra colonial de Angola, iniciada em 1961. Dela, todos recordamos aqueles anos de angústia, vivida por famílias, mães e namoradas que, de coração destroçado, viam partir os "soldadinhos" para uma terra longínqua e desconhecida. Muitos por lá ficaram mortos e enterrados, em plena juventude. Esta página negra e dolorosa da nossa História não pode ficar esquecida. Para todos os nossos companheiros e para ti, caro António,  aquele grande abraço. Até sempre.

Florentino_beirao.jpgFlorentino Beirão

 

A génese de um longo conflito

 

Ao longo das últimas décadas, muito pouco se tem refletido com serenidade e profundidade, sobre as guerras africanas nas nossas colónias, com início em Angola em 1961, depois em 1963 na Guiné, e em Moçambique no ano seguinte. De tal modo se tem olvidado esta página negra da nossa história contemporânea que as gerações mais novas não fazem uma ideia fundamentada do que representou para o nosso país esta devastadora tragédia que dilacerou a população portuguesa, sobretudo a mais jovem. Prolongando-se por mais de uma década, este conflito consumiu anualmente cerca de metade do Orçamento do Estado. Um preço elevadíssimo para um país pequeno e pobre, para alimentar este monstro. Como tudo isto foi possível nos últimos anos do Estado Novo, é o que tentaremos em passo apressado desvendar nas seguintes reflexões.

Quanto a nós, é hoje urgente recordar os principais contornos históricos desta tragédia nacional, para com alguma distância, sem paixões ideológicas, podermos compreender o nosso passado recente, bem como a atual situação do nosso país. A nossa democracia, como sabemos, não teria sido possível sem os militares que combateram em África, cansados das prolongadas guerras africanas. O mesmo se pode dizer da independência daqueles territórios, colonizados pelos portugueses durante muitas décadas.

As pessoas que hoje se encontram na casa dos 70-80 anos, certamente se lembram de ouvir contar e ver filmes propagandísticos do regime salazarista, relativos aos massacres e selváticas chacinas cometidas por ambas as partes, colonos e população indígena, no início da guerra de Angola em 1961.

A sede dos recursos naturais africanos pelos europeus, após a 2ª guerra mundial, havia criado o clima político propício para que a ideia de libertação dos povos dominados fosse crescendo, sobretudo nas zonas afro-asiáticas. A começar pela colónia inglesa da Índia, que se tornou independente em 1947.

Recorde-se ainda que, já a partir de 1945, o novo sistema internacional declarava, no artº1º da Carta da ONU que devia ser “baseado no respeito dos princípios da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos”.

Este movimento emancipalista viria a crescer a partir de 1960, com a Assembleia Geral da ONU a ordenar “a transferência de todos os poderes, sem condições ou reservas, para as populações dos territórios sob dominação colonial”. A partir desta data, Salazar devia ter compreendido que a história mundial caminhava em sentido contrário ao que ele defendia para os territórios, sob o domínio português. Daqui a sua célebre e sua triste frase de que nos encontrávamos “orgulhosamente sós”. Aguentar a tempestade africana tornou-se para o ditador, a partir de 1961 a palavra de ordem, propondo o luso-tropicalismo de Gilberto Freyre para o caso português. Estava a iludir-se e a enganar-se a si próprio e a muitos que o seguiam, como a história o veio demonstrar. O seu braço direito na ONU, Franco Nogueira, em 1967, também não teve pejo em defender que “fomos nós e só nós que trouxemos à África a noção de direitos humanos e de igualdade racial”. Esta cosmética palavrosa viria a mudar a designação de colónias portuguesas, por Províncias Ultramarinas. Durante longos anos, Portugal uno e indiviso - da Metrópole a Timor – fazia parte da ideologia do regime, com a qual se catequizavam as crianças nas escolas primárias. Seriam estas gerações que mais tarde foram mobilizadas para as guerras coloniais, mais ou menos convencidas do que lhes tinha sido ensinado nos bancos da escola e Movimento da Mocidade Portuguesa.

Esta cantilena ideológica, quanto a nós, foi a génese do que viria a desenvolver-se nos restantes territórios coloniais, a começar pela longínqua Índia, de onde saímos destroçados pelas tropas indianas. Note-se que, já desde 1946, em Goa se multiplicavam as prisões, com os nacionalistas a exilarem-se em Bombaim uma vez que Salazar se negava a negociar com Nehru a transferência deste território. Depois de algumas escaramuças locais, com 22 mortos e centenas de feridos, Nerhu respondeu severamente, com um bloqueio a Goa. Perante isto, Salazar enviou um grande reforço de milhares soldados, abandonando-os mais tarde, em 1961, à sua sorte, considerados traidores no seu regresso a Portugal. Perante a invasão dos territórios da Índia, Salazar ordenou: “não prevejo possibilidade de tréguas nem de prisioneiros portugueses”. E rematou: ”sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”. Ficava o aviso, para as futuras guerras nas colónias.

florentinobeirao@hotmail.com

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