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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O XICO da Carapalha

23.06.22 | asal

As nossas estórias e memórias: O saudoso Francisco Cristóvão, o XICO da Carapalha!

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Quem o conheceu ficou seguramente com um vazio que não mais poderá preencher.

O XICO era único. Uma personalidade impagável. Todos os nossos amigos, e quem o conheceu e lidou com ele, lhe reconheciam as suas qualidades humanas e intelectuais que atraíam no sentido de uma convivência alegre e saudável, em que sempre sobressaía a sua boa disposição.

Com ele não havia zangas, mesmo quando acontecia qualquer situação que daria motivo a isso, fazia aquela cara de sério, mas logo a seguir escangalhava-se a rir. E, de imediato, saía-lhe uma máxima, ao jeito de conselho.

Foram mais de quatro anos de convivência em Portalegre para onde fomos em Outubro de 1955, ano da inauguração do Seminário Maior. Ele no 2.º Ano de Teologia (10.º) e eu no 2º. de Filosofia (7.º).

Bastaram os quinze dias de Outubro de 1955 em que nos juntámos em Alcains, do 7.º ao 12.º ano, aguardando pelas as condições mínimas de habitabilidade do novo edifício em Portalegre, para se perder o acanhamento e criarmos uma relação mais fortalecida e de cumplicidade, tendo em conta que não havia aulas e utilizávamos o tempo em diversas actividades.

 Já conhecia o XICO, sim, mas em Alcains a distância entre nós era grande. Ele estava no 6.º ano (filósofo!) e eu tinha entrado lá no 3.º Naquelas idades, os caloiros sentiam uma grande diferença.

Na nova casa de Portalegre, filósofos e teólogos, consolidaram um ambiente extraordinário, completamente diferente, proveniente de uma maior liberdade de movimentos, mas responsável, já usufruída pelos que passaram por Marvão.

Embora o novo seminário se localizasse na periferia, era constante ouvir-se o apelo no sentido de se fazer uma aproximação entre o seminário e a cidade. E muitas foram as iniciativas culturais, religiosas e desportivas que contribuíram para esse objectivo. Logo de início, muita gente, grupos e instituições colaboraram na preparação da festa da inauguração.

Como tínhamos um salão de festas novo, várias sessões, peças de teatro e actuações de grupos corais ali tiveram lugar, além dos acontecimentos desportivos também realizados.

O que parecia um isolamento, depressa se tornou num hábito de convivência alargada, o que nos estimulou para mais e mais actividades no plano interno, a fim de tornar o dia a dia mais alegre e divertido para além dos estudos. Havia sempre pretexto para comemorar ou festejar qualquer coisa.

Ora, foi aqui que o nosso querido XICO sobressaiu de uma maneira particular através do seu espírito criativo e dinâmico, empenhando-se e estimulando realizações que muito marcaram aqueles saudáveis anos passados em Portalegre. Nada se fazia sem ele. Era essencial. Estava em todas.

Criou os célebres “Decretos da Academia” que anunciavam e mobilizavam o “pessoal da casa” para as ocorrências próximas, seja a chegada do inverno, rigoroso em Portalegre, que merecia um julgamento, seja a “queima das faixas”, um “doutoramento”, a “ceia de finalistas”, um concerto do “Rytm´boys” (grupo de música ligeira - parodiado - ao estilo do que se via no país) ou da “orquestra Vint’óit’ma” que o XICO dirigia. Todos eles escritos em latim macarrónico, latinório ou latim aportuguesado.

Foram momentos únicos, vividos por uma comunidade participativa, alegre e saudável, que exteriorizava tudo aquilo que lhe vinha à alma.

A amizade com o XICO continuou cimentada para todos os anos posteriores em que nos encontrámos vezes sem conta, cujos cumprimentos eram sempre especiais.

As peripécias da vida, que ele tão bem parodiava com ênfase, encanto e boa disposição, predispunham-nos a todos para um alegre convívio. Não mais esquecerei o “Xico soldado de infantaria”, que “andou nos carros de combate, mas nunca guiou nenhum”, que “fugia sempre à frente do inimigo” ou que “estava sempre ao lado do povo, dos soldados e marinheiros pobres”, tais eram as suas brincadeiras. E era assim o espírito humorístico do nosso XICO.

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Encontrei nas recordações desse tempo uns tantos papéis, que junto, e que serviram naquela altura para anunciar/decretar as acções a levar a cabo, todos eles da inspiração do nosso querido XICO Cristóvão, dois deles por si escritos.

Como diz a canção popular: “ …… o tempo passa e não volta mais, mas há quem diga que a vida foi sempre assim ….”.

A minha homenagem e admiração por este grande amigo.

Lisboa, 21 de Junho de 2022

Manuel C. Pires Antunes

António, pedias-me uma foto minha. Ela aqui vai com a minha companheira de há mais de cinquenta e cinco anos. A vida é a mesma.

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