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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O valor do eu

17.02.22 | asal

Meu Caro António

Cheguei há pouco de Lisboa e, esta manhã, aconteceu  o que acabo de relatar. Como não me fio  facilmente no que  os meios de comunicação nos dizem, já fui ao DR confirmar. E não se fala de outra coisa.  Isto que parece um ritualismo de antanho, ou uma discussão escolástica entre pregadores, que, em última instância, resolviam questões bicudas com a dialética muscular, , afinal, parece ter alguma pertinência. 
 Com um forte abraço, e os meus agradecimentos, João
 

 BATISMOS INVÁLIDOS

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  Ia eu, esta manhã, com a minha filha, a levar a netinha à Escola de Santa Catarina, perto do Jamor, quando a condutora larga uma gargalhada bem sonante.

   Acabávamos de ouvir na Radio Comercial, na voz inconfundível do Vasco Palmeirim, a história do Padre que celebrou, durante o largo período de 20 anos, baptismos nulos.  A princípio, pareceu-me uma anedota ou uma história inventada por algum apanhado da bola! Em tempos de Covid, tudo amalucou, e pareceu-me tão insólita esta combinação entre Gramática e Teologia que exclamei:  Eh, Tété, nunca um pronome pessoal na 1ª pessoa do singular valeu tanto!  É claramente um pronome teológico!  Rimo-nos a bom rir e até a bebé deu sinal de contentamento.  E tudo à custa do Padre Andrés Arango ( ou Aranha!) da diocese de Phoenix, Arizona, EUA, o inocente que violou o ritual, enganando-se na  Gramática!

   Afinal, que aconteceu? Uma coisa aparentemente inócua, irrelevante, e que se veio a provar que encerra todo um Tratado ou Um Calhamaço de Teologia Sacramental.

 O pobre homem andou 20 anos, 20, ouviram? a batizar com a fórmula errada e ninguém reparou ou teve coragem de lhe chamar a atenção.   Um Guinness da distração!  Não sei se com a mania do plural majestático ou não, o sacerdote, com a melhor das intenções, quando deitava uma concha de água sobre os baptizandos, dizia: “nós te batizamos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”   Ao invés, deveria dizer: EU te batizo em nome do Pai…” Erro tabeliónico?  De maneira nenhuma.  Uma tremenda falta que causou a nulidade do ato e sequelas de longo prazo, inclusive de crismas e ordenações sacerdotais sem efeito. Assim, dizendo o nós em vez do eu, pura e simplesmente, não havia ato sacramental.

  Gostava de ter aqui o meu S. Tomás para me esclarecer sobre esta dúvida de gramática e pragmática linguística em que o ato de fala, sem o EU, perde toda a eficácia performativa, força ilocutória, que lhe confere a autoridade de CRISTO, identificado com o EU do Sacerdote. Uma única enunciação, declarativa, em que o EU de Cristo se identifica com o Eu da pessoa que batiza.

     O ato de fala performativo, de facto e de jure, instaura uma nova realidade, uma nova condição existencial, só pelo facto de, em condições institucionais, poder ser dito.  

    DIZER nestas condições, uso do pronome EU, 1º pessoa no singular e presente do indicativo, é realizar uma verdadeira ação de transformação de estado e não um simples dizer. É FAZER o que se diz, dizendo, e não simplesmente dizer o que se faz. “Quand dire, c´est faire… Assim começa a explicação sobre os actos performativos.

 Desculpem, mas vou recorrer ao Francês: “  Dans son livre de 1962, How  to do things with words,  Austin commence à s´intéresser à des verbes comme jures et baptiser , qu´il appelle verbes performatifs.   Ces verbes présentent  la singularité d´accomplir ce qu ´íls disent, d´instaurer une réalité nouvelle par le seul fait de leur énonciation. Ainsi  dire” je te baptise “ c´est baptiser…( D. Maingueneau, Pragmatique pour le  Discours  Littéraire, Bordas, Paris, 1990, p.5

  Enuncio agora os requisitos, regras ou condições para que este tipo de acto de fala, performativo, declarativo, se realize e constitua, e seja bem sucedido e eficaz: 

1ª Que o enunciado seja feito na 1ª pessoa do singular, no presente do indicativo: o sujeito que fala diz um EU que é sacramentalmente assumido por Cristo, o seu verdadeiro agente;

2ª Que sejam utilizadas as coisas materiais, investidas do simbolismo teológico, que a Instituição, Igreja, lhes atribui: água e não qualquer líquido), sal e óleo sagrado, e demais palavras e questões estabelecidas no ritual.

  Só seguindo as prescrições da celebração com todo o rigor, se cumpre o ato de fala com valor elocutório, e efeito assegurado e previsto pela Igreja sobre o batizando.

 Quanto ao lugar, não existe condição obrigatoriamente estabelecida. (Podem consultar:  Paul RICOEUR:  Discurso de Ação e Teoria da Interpretação - Edições 70; Dicionário das Ciências da Linguagem, “Linguagem e Ação” pp.397-403) Ou qualquer linguista ou gramático.

    Do ponto de vista linguístico, o Senhor Bispo da Diocese de Phoenix e a Igreja tem razão.

João Ol. Lopes.jpg

   Não discuto a questão teológica porque nunca percebi bem a noção de carácter ou marca sacramental com valor ontológico. Se é questão de fé, acredito, mas eu não sei explicar. Sinto que, na realidade, deve ser assim, sob pena de inutilizarmos a vida litúrgica e sacramental, essa torrente de Vida Divina, transmitida através de “sinais”, mas eu não sei explicar. É uma limitação? Paciência e que Deus me valha.

  Coimbra.  João Lopes

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