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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O Seminário de Alcains

14.01.20 | asal

Em costrução (2)

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(2ª parte)

Acabada a Capela, era tempo de construir o novo pavilhão tão necessário como desejado. Se lançarmos o olhar para as listas de frequência, verificamos que só em 1957-58 frequentavam o Semº

110 alunos.  Ora, se em 1929 o espaço depressa se tornara insuficiente, facilmente se conclui da urgência de uma nova construção para alojar com dignidade alunos, professores e funcionários (“domésticos”, como então se dizia!). Só que as despesas eram muitas e os recursos, escassos, apesar do rendimento do Monte de S. Luís, que, depois da morte da Senhora Dona Maria José Miranda, em 1953, passara para a IMG-5760.jpgpropriedade do Seminário com a obrigação de gerir o Hospital. Mesmo com deficits que a generosidade do Senhor Reitor e a sua habilidade para constituir uma rede de benfeitores ia suprindo, as coisas caminhavam, mas com o cuidado de não dar um passo maior que a perna! Estava-se neste impasse quando irrompe pela diocese, impelido pelo Vento do Espírito, o Senhor D. Agostinho, que não era homem para deixar enferrujar as ideias. Mal acabara o Seminário Maior de Portalegre e, com denodo, se lança numa nova construção de vulto.

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Abençoada a 1ª Pedra em Maio de 1958, um ano depois (Um ano!) procedia-se à inauguração do Novo Pavilhão a sul, perfeitamente cruzado e entrosado com o velho edifício que foi também renovado durante o verão de 1959. “ A 26 de Março de 1960, podiam já retirar-se os operários …(p.47)  da Construtora Abrantina.  Em nota de rodapé, o DR. Félix anota com satisfação: “Começava assim o novo período da vida deste Seminário no 30º aniversário da sua primeira inauguração em 12 a13 de Outubro de 1929”. A Nova Casa tem agora uma nova porta de entrada com uma escadaria solarenga, que lhe dá um toque aristocrático de solar da Beira, não

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faltando uma nova estrada com novo portão de acesso à estrada da Líria, bem como um tanque circular, na nova esplanada, nas águas do qual brilhavam uns peixinhos avermelhados, que, entretanto, na pena irónica do Autor terão  emigrado para o velho tanque dos Carvalhos…

   A verdade é que novos espaços de recreio para as várias modalidades desportivas vieram alegrar a garrida juventude, novas camaratas com cubículos e armários individuais, uma longa pérgola no lado noroeste do antigo pavilhão, boa para passeios e colóquios digestivos, assim como para a leitura orante em retiros de padres e leigos, visto que o Seminário ganhou com o tempo, (como já foi referido) novas funcionalidades, tornando-se num espaço diocesano privilegiado para encontros de formação cristã, reuniões de jovens em fase de discernimento vocacional, palestras, retiros para casais … Longe de nós a ideia melancólica de o reduzir a um lar para sacerdotes da 3ª e 4ª idades, que também é, e merecidamente, para quem gastou vida e saúde ao serviço do Reino de Deus.

(Apenas uma curiosidade: o ano de 1876 viu nascer o Santo Padre Pio XII, o Mons. Moura e a Senhora Dona Maria José Miranda. )

    O Mons. Félix aceita com naturalidade a metamorfose de uma instituição que se habituou a considerar exclusivamente dedicada à formação eclesiástica. Mesmo quando, no Epílogo, se revolta contra a usurpação semântica da palavra “Seminário” para designar qualquer reunião científica. Que não, “Seminário” tem sentido único e exclusivamente sagrado, forjado pelo Santo Concílio de Trento. Que os eruditos, tocados do vírus da “reunite”, usem antes (sugere) o termo elegante e simpático de “Simpósio”, como gente fina e inteligente deve ser quem os frequenta… Subtil ironia!

  Digamos só mais duas coisas sobre a quinta e a epopeia dos poços.

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  No cap. VI da 1ª parte, dá a entender que a cerca primitiva não chegava à estrada da Líria. Houve que comprar toda essa testada a sul, horta e vinha, para se alcançar o caminho público.  Outras aquisições da vizinhança se fizeram até que a cerca atingisse os limites atuais em 1938, criando-se, desta maneira, um terreno de cultivo e plantação de árvores de fruta, ornamentação e sombra amiga no tempo feroz da canícula. Dada a carestia das provisões, aproveitava-se cada palmo de terra para a produção caseira, com pocilgas e poleiros e até laboriosas colmeias perfumadas de alfazema… O desvelo do Mons. Moura, que nos tempos de Portalegre, lembrava um Príncipe da Renascença, ainda não perdera a energia de um sábio agricultor das éclogas de Virgílio!

     E por lá vagueavam à noite valentes colossos afugentando intrusos atrevidos.

     Agora, o maior quebra-cabeças  era a escassez crónica de água. Havia apenas um poço na cerca que depois se chamou o “Poço do Motor” porque perto dele se instalou um motor que accionava o dínamo da primitiva luz do Seminário” e tirava a água para o balneário e o depósito do edifício. Só que a forte nascente deu de afrouxar pela concorrência dos vizinhos. Inconformado, o Reitor, qual Patriarca Bíblico, enfrenta o problema e vai cavando poços à procura de água.  O “poço da Estrada” da horta comprada, não dava água de confiança pelas infiltrações da ribeira. Alugou-se então o “Poço do Carrapichel” com boa nascente, e aproximou-se da horta do vizinho uma grande pipa que um ganhão enchia.  E lá andavam os domésticos numa roda-viva transportando cântaros para a cozinha, camaratas… Propôs-se a compra, mas” agulhas ferrugentas” não o permitiram. Veio do Peso um padre, vedor que sentenciou ser a terra estéril. Apesar disso, lá se construiu o Poço da Roldana, água só da chuva! Um afamado padre Salesiano veio de Évora anunciar, com mapas na mão, haver na cerca “ abundantes caudais de água”. A conselho seu, abriu-se o grande Poço dos Carvalhos, de 18 metros de profundidade… mas de madre quase seca!   E já lá vão cinco!  Mais um por detrás da Capela, só para regar um couval;  e o grande ”Poço do Recreio” (1953) com nascente, mas que o nosso Reitor, com pruridos  higiénicos,  não via com bons olhos por estar perto do  cemitério… (ver nota 1 da p.54, onde aflora a ponta da ironia do DR Félix!).  Até que, em 1960, os veios aquíferos da Gardunha, em água canalizada, descansaram os espíritos sequiosos de águas correntes.

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  Finalmente, “os nossos Benfeitores” (pp165 a176)  a começar pelos ilustres fundadores, logo seguidos pelo Mons. Moura, reitor durante 35 anos, e que dispôs de todos os seus bens a favor da  Casa, como pai sempre atento.  Além do piano, grafonola, discos em Inglês, recheio da sua casa de Portalegre, plantação de árvores, por toda a parte,  dinheiro, muitos contos,  para acudir às necessidades sempre prementes de uma casa com muitos ”bicos” para alimentar.  E o bom Povo de Alcains e arredores com sacos de feijão, azeite, perdizes, patos, gansos, coelhos, suínos, figos e doces… páginas e páginas de donativos com os nomes dos doadores e até uma libra em oiro de um anónimo de Tinalhas. O leitor fica meio aparvalhado, não sabendo que mais admirar, se a largueza benfazeja do Povo, se o rigor da contabilidade dos Padres que tudo apontavam com precisão e rigor.  

 Perante esta epopeia de gestos de Fé e Caridade, irrompe o Autor com esta sublime oração: “Dignai-vos,  Senhor, em atenção ao Vosso Nome, conceder, benignamente, a quantos nos fazem bem, nesta vida as Vossas graças,  e, na outra, a Vida Eterna. Amen.” (p.176)

 Coimbra, 11 de Janeiro, ( dia do aniversário da morte da Senhora Dona Maria José M. Monteiro em 1953) PN e AM.

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João Lopes

(PS: Agradeço aos Senhores Cónego Bonifácio, P. Castanheira e António Patrocínio o terem-me facultado os livros do Senhor DR. Félix, sem os quais não teria escrito estas 11 pp. de um texto sobre a história do Seminário, que espero tenha servido de ajuda aos meus queridos confrades e suas respetivas esposas e filhos. Não posso esquecer o Blogue do António Henriques que tão generosamente tem acolhido este repositório de informações. Muito Obrigado. João Lopes)

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