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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O Seminário de Alcains

14.01.20 | asal

Envio-te agora o texto que designei por " Em construção ". É o último e espero em 11pp ter resumido  para cima de 600 dos dois livros do Mons.Félix. Fi-lo com liberdade crítica  e num  ritmo de linguagem o mais possível ligeiro para não pesar, sem trair o texto original. Com um grande abraço, felicitações associativas, João Lopes

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Em construção (1)
 

 (1ª parte)   

Pode dizer-se que, em rigor, o seminário de S. José em Alcains funcionou como instituição de ensino eclesiástico durante os seus primeiros 50 anos.  De facto, a partir de 1978/79, dada a queda paulatina do número de alunos, em razão da crescente laicização da sociedade, por um lado, e pela cobertura geográfica, quase total, do Ensino do Estado, por outro, as autoridades da  Diocese tiveram a abertura  e disponibilidade suficientes para  fazer daquele espaço um centro de Pastoral e formação cultural e religiosa dos leigos, sempre que disso houvesse mister.  Mas, para que o edifício atingisse este estádio de evolução, muitas e variadas obras nele se fizeram em tempos diversos. Logo em 1933, com a transferência dos teólogos de Portalegre, se agravou drasticamente o problema da falta de espaço.  A disponibilidade do Seminário dos Olivais para receber o Curso de Teologia da Diocese de Portalegre, desde 1933 a 1943, foi uma inestimável ajuda da Igreja do Patriarcado. Desta prestigiada Casa de Formação Sacerdotal, sabe-se que foi inaugurada em Novembro de 1931, pelo Senhor Cardeal Cerejeira, na “Quinta do Cabeço”, arredores de Lisboa, no palacete dos Condes de Penha Longa e Olivais, tendo-se construído mais dois pavilhões em estilo modernista, de acordo com a arquitetura do bairro das Avenidas Novas.

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   Num ambiente académico, litúrgico e espiritual de elevada qualidade, nele se formaram em 10 anos 60 sacerdotes da diocese de Portalegre, bispos dois deles. Daí nasceu o grupo de professores do Seminário de Marvão (1949-1955), universidade que de calhau nada tinha a não ser mesmo as penedias das alturas, atravessadas pelas águias-reais. A lucidez e atenção do Senhor Bispo, D. António Ferreira Gomes (1948-1952), marcou com o seu timbre  a formação dos teólogos e filósofos, estes a partir de 1951, idos diretamente de Alcains, enquanto os teólogos foram do Gavião para lá, após a morte do Senhor D. Domingos em 1949. Desçamos das alturas da nobre serra de Ibn Maruán ao chão raso de Alcains para ressaltar a crescente afluência dos alunos que procuravam o Curso de Preparatórios e Filosofia, como um elevador social e cultural, que os pudesse arrancar do cíclico e fatídico castigo de Sísifo.

  O Senhor DR. Félix mostra com mapas que frequentaram o Seminário, espaço, repito, de libertação, 1320 alunos desde 1929 a 1979 ( 50 anos), tendo-se ordenado 200 que aqui estudaram, mais 33 de outras proveniências, mas em Alcains devidamente ambientados para o exercício das suas nobres funções (p.141). Só de passagem, sem lhe dar qualquer relevo, regista a adoção dos programas do Liceu a partir de 1964, transformando-se em Seminário Liceal com exames do ensino secundário no Liceu Distrital de Castelo Branco, onde, imediatamente, se distinguiram pelo domínio das matérias curriculares. Houvesse rankings na altura, e a Diocese bem se poderia orgulhar dos alunos e docentes, todos, menos um, prata da casa!

  Verdade seja que o Ensino dos Seminários, mesmo antes de 64, sempre foi reconhecido pelas autoridades civis como de elevada qualidade cultural e cívica, inclusive Marcello Caetano e tantos outros (p.141). O Ilustre autor enfatiza este facto, reproduzindo vários depoimentos de antigos alunos, que fizeram carreira na vida civil graças ao Seminário, fechando com as palavras do Arcebispo de Luanda, nas Bodas de Ouro do Gavião: “ (…) consola-nos verificar que um grande número (de antigos alunos) permaneceu fiéis à sua Fé e à Santa Igreja e se encontram na brecha quando se trata de lutar pela intensificação da vida cristã” (p.144)

   Voltando ao “edificado”, pode dizer-se que foi objeto de renovação, ampliação e adaptação durante  mais de 30 anos, consoante as necessidades de espaço e a comodidade indispensável para o seu pleno funcionamento.  Assim, sobretudo desde o encerramento do Semº do Gavião em 1936, tornou-se urgente a construção de um novo pavilhão para acolher alunos de faixa etária tão diversa.  Deve ter sido então que surgiu a ideia de dividir os alunos em duas divisões: a 1ª, a do Anjo da Guarda e a 2ª, a da Imaculada, dois corpos separados com estatutos distintos e formas de tratamento diferentes, em conformidade com um código de cortesia, tão adequado ao recorte aristocrático do caráter do Mons. Moura.

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      Mas, ao invés do que se esperava, em 1936 ou 37, o Senhor Reitor decidiu trocar o novo pavilhão pela construção de uma nova capela, o que sempre libertaria algum espaço. Construída quase 10 anos depois do primitivo edifício, dele se destaca, apesar da contiguidade, como um monumento distinto no extremo nordeste do conjunto, figurando na arquitetura religiosa regional como um exemplar do “estilo românico de transição” para o (neo)gótico, naturalmente. Posta a concurso em 1937, a adjudicação da obra foi atribuída ao empreiteiro alcainense Joaquim Teixeira, que em Junho inicia a abertura dos alicerces, sendo que, um ano e meio depois, Janeiro de 1939, dá a obra como concluída.

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   O autor exalta a contribuição de Mons. Moura, “alma de artista”, e o desenhador da planta, Dr. Oliveira Xavier, não regateando elogios à perícia dos canteiros de Alcains, que ali deixaram para a eternidade uma verdadeira “Obra-Prima”. ( pp 19 a 30)  O que o leitor de hoje julga insuficiente é que seja remetida para uma simples nota de rodapé ( nota 1, p. 22) a identificação dos elementos artísticos mais relevantes, sem qualquer preocupação de os integrar numa unidade estética coerente em que sobressai a intenção de simetria e harmonia  do conjunto.

   Fixemo-nos nas fotos das pp18, 21, 23, 29 e 30… O aspeto geral da fachada exterior, de alto a baixo, replica-se ou repete-se no primitivo Sacrário, sem pavilhão, situado no lado oposto, no interior, em perfeita simetria horizontal, aspeto artisticamente nada despiciendo.  

 Na fachada, a porta de entrada enquadra-se numa moldura de 4 arcos ogivais, sendo as curvaturas entre eles cinzeladas por um cordão de finas estrias. No contorno externo de cada arco, desenrola-se uma corrente rendilhada de laços ou motivos vegetais. Pois bem. A arcaria assenta em três colunas com uma base anelada em forma de cochim, com o nome técnico de escócia, a qual, por seu turno, se apoia em dois robustos degraus horizontais que suportam o peso do conjunto. Note-se que os arcos, em rigor, arrancam de uma linha horizontal, constituída pelos ábacos que cobrem os capitéis aparentemente coríntios das colunas.  Sobre estas recai o peso de toda a arcaria, com as suas arquivoltas.

  O olhar ergue-se a partir do pórtico, e na linha vertical ascendente, em rigorosa simetria, se sobrepõem três elementos capitais: o janelão em três colunas e três arcos igualmente bordados, e um mainel dividindo as duas partes, dois pontos de luz, ( não lembro a cor do vitral);  um 2º elemento, porventura o mais artisticamente trabalhado,  a formosa rosácea,  um monólito de granito, rendilhado concêntrico, e  no mesmo sentido vertical,  culmina, no alto do fecho,  a Cruz florida (da heráldica portuguesa), cujos  braços  envolvidos num círculo, sobre um frontão inacabado, evocam a centralidade sagrada do mundo ( Axis mundi) em regime simbólico próprio  da “epiclese”:  ou seja acto de louvor a Deus, revelado nas coisas visíveis. Mas há mais. A Cruz alta no fecho da fachada dialoga simetricamente com a cruz embutida no tímpano do arco menor por cima da porta. Cruz de Cristo ou Cruz templária? Não sei. Acrescem as três frestas da parede lateral exterior, pontos de luz, se com vitral colorido não sei.

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 Mais haveria para dizer, mas por aqui me fico, sem antes realçar que esta mesma estrutura estética faz contraponto com o Sacrário que apresenta como elementos inovadores uma pequena cúpula com uma esfera lisa, símbolo do globo terrestre, sobre a qual se ergue, gloriosa, a mesma Cruz florida da fachada exterior. Tanta harmonia só poderia brotar de uma mente traquejada na leitura da arte sagrada e profana e que tudo faz convergir para o louvor divino, sem esquecer os canteiros, que entoaram, nos lavores da pedra, um belo hino ao Criador! Perante tanta beleza que ilumina o interior da Capela, que são os cento e tal contos do custo de uma obra sem preço? (continua)

João Lopes

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