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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O poder da palavra

08.09.19 | asal

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“—Oh, por amor de Deus inspectora! Toda a gente mata por causa de palavras! Que outra razão há para matar?! Dinheiro?! O dinheiro não é mais que a palavra de um governo a dizer que nos vai dar ouro. As leis são palavras dos juízes, estipulando quem está autorizado a viver em liberdade e quem não está. E as Bíblias … as Bíblias são as palavras de Deus a dizer-nos: «Façam todas as coisas horríveis, absolutamente horríveis, que quiserem fazer, e, no entanto, serão perdoados.» Tudo se resume a palavras. E, em todo e cada caso, as pessoas que matam por causa das palavras são as mesmas que se julgam donas delas.”
Adam Blake (2012). O Enigma do Mar Morto. Lisboa, Casa das Letras: 420.

 Aprendi desde pequeno o poder da palavra, ainda que sem ter consciência disso. Quando em casa se falava de negócios, por vezes, a conversa terminava com «ficou apalavrado». Fui aprendendo que as pessoas ainda se não tinham comprometido com a sua palavra. Tinha sido conversado, mas a palavra não selou o negócio. Aprendi também, neste mesmo contexto, que se alguém voltasse atrás com a palavra dada que selou o negócio, tinha de dobrar o sinal (valor entregue que comprometia o vendedor a não aceitar propostas ulteriores).

 Foi em criança que por mimetismo ouvi e usei as expressões: «palavra de honra!», «dou-te a minha palavra!», e «juro pela minha honra!» Nas nossas dúvidas e suspeitas acerca das intenções, das histórias e informações dos outros, repetíamos o que víamos e ouvíamos dos adultos. Empenhávamos a nossa palavra como garantia da verdade.

 Na escola, o modelo foi Egas Moniz. Dado que D. Afonso Henriques não cumpriu a palavra dada, dirigiu-se ao rei de Espanha e apresentou-se com a família, cada um com sua corda ao pescoço, como prova de que a quebra do compromisso lhes retirou o direito de viver com honra. Respondia pelo compromisso da sua palavra.

 Mais tarde, estudei o valor da Palavra num contexto religioso. Impressionaram-me, sobretudo, os estudos sobre a passagem do modelo da visão (greco-platónico) para o modelo da escuta (bíblico – a necessidade de fazer silencia em si e ouvir a palavra de Deus).

 A filosofia da linguagem abriu-me outros caminhos e horizontes. As várias dimensões e funções da linguagem, a sua dimensão social, e sobretudo a questão: o que podemos fazer com as palavras (prometer, jurar, perdoar, repreender, aconselhar, consolar, animar e motivar, ajudar e sugerir, etc.)

 A vida deu-me muitas lições sobre o poder da palavra dita e da sua omissão no momento oportuno. Dou apenas dois exemplos. Uma colega de Abrantes a dar aulas no Entroncamento contou-me que ao ver uma colega na sala de professores lhe perguntou: «então estás a faltar?» Sabe, respondeu-lhe ela, eu tive um professor de Filosofia que um dia numa aula nos disse: «quando um professor não preparou a aula, o melhor que tem a fazer para ele e para os alunos é faltar. É uma questão de respeito por si próprio e pelos alunos.» Noutra ocasião, encontrei num café uma ex-aluna. Reconheci, logo, a Teresa que não via há muitos anos. Diz-me então: «nunca lhe agradeci. Um belo dia tinha decidido suicidar-me, mas o sr. disse umas coisa na aula desse dia e nunca mais pensei nisso.» Fiquei sem palavras. Mas é bem verdade que a palavra tem um poder inesgotável. Neste último exemplo, duas vidas. A da aluna e toda uma vida de professor. Só por isso valeu a pena ter sido professor.
Mário Pissarra