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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O Mário sempre encanta

13.05.20 | asal

A inveja nem sempre é má

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Certo dia, nas arcadas laterais exteriores do Seminário de Portalegre assisti a uma conversa que nunca mais esqueci. Os conversadores eram o Fernando Farinha e o Pe. Américo, pároco da Urra. O tema era a nova editora: Moraes Editores. Um conjunto de católicos progressistas queria lançar uma editora e publicar livros mais arejados e de acordo com o espírito do Vaticano II. Para levar por diante este projeto escreveu aos Pes. mais jovens a convidá-los para aderirem. Para isso bastava entrar com dez mil escudos e o investimento iria sendo recuperado com livros e era garantido sempre um desconto de 20%. Os livros seriam selecionados dos que se iam publicando. Disto falava o Pe. Américo ao Fernando.

No ano de 1966/7, o Fernando era meu colega e o Pe. Américo era para mim uma figura do outro mundo. Ele e o Pe. Sebastião. O Pe. Américo aparecia pelo seminário depois de almoço, de vez em quando, para jogar à bola connosco. Era um extremo hábil e rápido. Contava-se a história de que tinha ido ao Brasil visitar uns familiares, participou por lá numa ‘futebolada’ e foi logo convidado a assinar um contrato. Nunca lhe perguntei da veracidade do facto. Nunca gostei de destruir mitos quando estes se alimentam do verosímil. O mito do Pe. Sebastião construía-se em torno do Belenenses. Era um defesa central de alto gabarito e, num jogo, um responsável daquele clube lisboeta viu-o jogar e ao fim do jogo quis levá-lo para central do Belenenses. Este mito foi ainda mais fácil de alimentar. Nunca vi o Pe. Sebastião jogar futebol. Se ele era tão bom jogador como boa pessoa, então não era mito, era verdade. Garantiu-mo meu irmão e, depois, tive oportunidade de o confirmar ao falar com ele quando veio aqui para o Rossio ao Sul do Tejo.

Voltemos à Moraes Editores. Eu, à época, só conhecia um livro editado por eles. O Personalismo de E. Mounier e que foi o primeiro livro de filosofia que estudei e não era um manual. Foi numa disciplina cujo nome não recordo e a proposta de leitura integral da obra foi do Dr. Marcelino. As aulas foram correndo, mas à medida que o exame se aproximava, amontoavam-se as dúvidas: como será um exame sobre um livro, sem apontamentos ou manual? Os resultados não foram brilhantes. Numa primeira tentativa, se a memória me não falha, só eu escapei e não de modo muito brilhante. As coisas recompuseram-se à segunda tentativa.

Vim aqui confessar a minha inveja do Fernando. Pelo contexto, pareceu-me que o Pe. Américo se predispunha a emprestar-lhe os dez contos. Eu era um fedelho que para ali estava, mas se o Pe. Américo me tivesse oferecido o empréstimo dos dez contos, ficaria todo contente e fechado o empréstimo só com uma condição: pagar quando começasse a ganhar. Não costumo ter inveja, mas nessa ocasião pequei e, para cúmulo, nunca me lembro de ter confessado tal pecado. Também nunca perguntei ao Fernando se ele aceitou ou desperdiçou a oportunidade e a generosidade do Pe. Américo.

Eu vinguei-me! Assim que tive uns tostõezitos comprei muitos livros da Moraes Editores. Muitos e bons. Livros que me ajudaram a ser quem sou e a formar o meu pensamento. Ainda conservo muitos. Mas ainda não fui capaz de fazer o luto pelo seu desaparecimento.

Um abraço para o Fernando e outro para o Pe. Américo, cuja última vez que vi e o ouvi foi no funeral do pai de um grande amigo. Durante toda a eucaristia, interroguei-me sobre quem seria o celebrante. Chegou a parecer-me ele, mas o cabelo era grande, habitualmente curto não parecia o dele. A homilia foi um riquíssimo testemunho sobre a fé do falecido, o Sr. Picado, o antigo sacristão da Sé de Portalegre. Até parece mentira, mas fiquei contente. O filho do sr. Picado já me tinha dito que quando era criança ia para a Sé de Portalegre com o pai só para ouvir os seminaristas cantar. Sobretudo na semana santa. O Rui foi mais tarde o maestro do Órfeão de Abrantes até à sua morte prematura.

Mário Pissarra

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