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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

O livro de Idanha - novo exame

21.10.20 | asal

Ainda a propósito do livro do P. Adelino Américo - Autos de Memórias  de Entre Duas Idanhas

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   O António Henriques publicou aqui no Animus um excelente estudo, em cinco partes, sobre esta obra, a vários títulos, assinalável. Expôs, de forma clara, fluente e profunda, o seu conteúdo histórico, social e religioso. Eu proponho-me, agora, dar umas pinceladas sobre a superfície do texto, sua organização, oralidade e fonética, transcrição ortográfica e determinadas formas literárias que, na sua variedade linguística, enriquecem o discurso, prestigiando sobremaneira o seu duplo autor, P. João Affonso Soares e o P. Adelino Américo Lourenço. No decurso desta reflexão, ver-se-á a forma como partilham fraternalmente a autoria desta obra sobre a paroquialidade da sua Idanha em dois tempos distintos: 1891-1914 e desde 1972 até ao presente, passando pelo ano emblemático de 2005, na celebração dos 800 anos da povoação que cresceu ao abrigo de um castelo, edificado por Gualdim Pais, Grão-Mestre dos Templários, em 1187.  Foi por esta altura que tudo terá começado, tornando-se as suas campanhas, arroteadas pelo labor incansável dos freires desta ordem, o celeiro da Beira-Baixa.

   A questão ortográfica. É sabido que, por portaria de 1 de Setembro de 1911, o governo da República decidiu fazer alterações profundas no estado de uma grafia, eminentemente etimológica, que, remontando à Idade Média, atravessara a época moderna desde o sécs. XVI ao XX.  Alegava-se, então, a premente necessidade de simplificar a maneira de escrever de modo a torná-la mais acessível ao Povo e facilitar o Ensino nas Escolas. Havia, pois, que reduzir as consoantes dobradas, eliminar os dígrafos de origem greco-latina th,ph…,suprimir o y em palavras como abysmo, deixar cair as consoantes mudas de “anedocta” Escripto”…

  Não se pense que esta reforma, de inspiração republicana, foi aceite pacificamente. Com efeito, um coro de vozes se levantou contra o que consideravam um atentado contra a substância fono-gráfica de uma Língua nobre, multissecular, “última flor do Lácio”, que, na sua mesma visualização, ostentava a solenidade e a “gravitas” da representação escrita. Fernando Pessoa, revoltado, descarrega a bílis contra a vulgaridade republicana da nova ortografia. No seu Livro do Desassocego(sic) dispara contra “essa ortografia sem ípsilon,” como se um “escarro” fosse. Ouçamos o poeta que, neste contexto de acesa polémica, proclamara a língua portuguesa como o seu lar e a sua pátria. “Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.” p. 229-230, ed. R. Zenith (2011)

  Vem todo este arrazoado, não para fazer bocejar os meus queridos leitores do Animus, mas para enaltecer o singular senso linguístico do P. Adelino que resolveu marcar a expressão gráfica do seu belo livro, fazendo largo uso de uma dupla ortografia, a etimológica e a dita nova ou republicana. E fê-lo, decerto, não por acaso ou mero capricho. De facto, tendo recebido, como precioso legado, um maço de laudas manuscritas e numeradas de 18 livrinhos (p.31), versando as várias matérias da vida paroquial, copiadas e redigidas em 1ª mão pelo seu antecessor, P. João Soares, (p.262) o actual Pároco podia, ao dar a lume esta obra, simplesmente uniformizar a ortografia, segundo o padrão imposto pela República.  Como, aliás, era costume e mais cómodo fazer-se.  Não o quis assim o nosso P. Adelino e ainda bem, que, desta guisa, nos oferece uma ortografia ilustrada pela patine do tempo.

  Ao mesmo tempo, dá provas do respeito que lhe merece a “transcrição” de todos os documentos do cartório paroquial, constantes até 1910, e que o seu antecessor de há 100 anos, prevendo acertadamente que todo aquele precioso espólio ia parar às mãos dos governantes do novo regime, de cariz anticlerical e abusivamente intrusivo, se deu ao trabalho hercúleo de o copiar, num curto lapso de tempo, e de o guardar numa caixa bem aferrolhada, como se um rico tesouro fosse. E, de facto, era! Ouçamos o testemunho do próprio P. Adelino, até para aquilatarmos do grau da sua elevada sensibilidade humana e espiritual: “ Estremecendo-me a alma e as mãos, desatei a fita…Religiosamente…fui decifrando e meditei em cada lauda já amarelecida, testamentos de sensatez e humanidade, paz e sofrimento, dor e esperança” (p.262)  (As reticências traduzem visualmente o silêncio e a concentração.)

  Agora, o ponto:  o texto d´Os Autos da Memórias  apresenta-se em dois estratos gráficos claramente distintos: o primeiro, em ortografia antiga, marcado a negrito, de cariz documental, num formato linguístico jurídico-formal, burocrático e administrativo, como é próprio de uma acta, um requerimento, um inventário patrimonial ou uma cerimónia litúrgica em latim, contrato de alienação de património, de acordo com as leis liberais da desamortização dos bens da Igreja, as capellas e os seus terrenos anexos tão cobiçados… O segundo, em ortografia ditada pelas novas normas de 1911, em tipo  de letra normal, ( há, no entanto algumas excepções como se verá) em que a linguagem se solta, cedendo a primazia à voz do narrador que, de uma forma viva, fluente e particularmente comunicativa, conta em 1ª pessoa, num registo autobiográfico, a história da sua experiência pastoral, impregnada de cultura, inteligência e bom senso, e um amor entranhado às pessoas, que conhece pelo nome e morada. Trata-se de um homem feliz com a sua missão, próximo e prazenteiro, irradiando alegria e jovialidade, cumpridor exemplar dos seus deveres, como o confirmam os testemunhos recolhidos pelo actual Pároco, que a eles se junta “com merecida justiça e fraternal admiração,” p.252-256. Com um texto poético retirado do Livro da Sabedoria, 7,1-7, repassado de humanismo realista, termina o cap. ”Termo de Encerramento”. p.257   O nosso Padre Adelino faz-nos partilhar do grande sonho do seu heroí, o Pároco da Idanha de 1891 a 1914:  que , ao menos, cada família tenha um courela como a do ” ti Jarólmo”. Para ser Pessoa, para ser Família, que saiba guardar as suas catchopas para a dignidade do casamento e não para a triste condição de amásias (p.231) “Toda a gente vinha a dezer, à saída da Igreja: quando o Senhor Vigário está a ler os pragões dos sposados, a voz do Senhor Vigário é uma voz mais alegre.” (233)

 Há aqui muito material linguístico que carece de ser desbravado, como se vê na citação acima.  Ele são lintcheiras e lapatcheiras, “fiz-me de alonso”, pragões, ele são Jarólmo, sendes Mãe do claro sol, “andar a dar ó fatcho.. . toda uma riqueza lexical e prosódica a invadir um texto, numa santa hora publicado.  Apenas acrescentarei que fora dos textos administrativos, também se usa o negrito, sinal textual de destaque, como nos eloquentes intróito e epílogo do actual Pároco, não podendo passar em claro o facto de que, na apresentação das actas das sessões da Junta Paroquial, o Pe Soares aqui e ali escreve à maneira antiga, em textos escritos a partir de 1920, como se vê nesta nota informativa: 

Administração do Estado

   “ Não perdi tempo( a respeito do pedido de ajuda para as obras da Igreja) com representações  a Ministros e Reis. Essa gente não sabe onde fica a Idanha. Talvez duvide se acaso pertence ao seu império… ou se se tratará de um outro reino, com fronteira em S. Gens!

Procurei um filho da nobre Villa de Idanha a Nova, com influência política. O resultado não podia ser mais rendoso. (texto de 1920) Segue-se o agradecimento protocolar, em negrito e ortografia  da época, dirigido ao III.mo  Ex.mo Snr D.or António Augusto de Senna Bello, datado de 1907. (p.165) Dois tempos, duas ortografias, mas nem sempre é assim. O nosso vigário, de quando em vez, neste campo, parece gostar de transgredir a norma republicana vigente, apreciando sobretudo as consoantes dobradas (Veja-se o capítulo “Para o Vigário do anno 2000” pp.261-293, em que o texto introdutório, redigido por Soares de 1920,  antecede o texto das actas, assinadas pelos elementos da Junta de1870 a 1880, sendo Vigário  o P. Xisto, seu antecessor. Como aprendi a respeitar as esmolas dos parochianos… Assinado Soares.  Segue-se a acta de 1870, em grafia antiga, a negrito, assinada por Xisto.)

    Para já, admira-se a frontalidade do P. João Affonso, alvejando o desprezo a que os governantes votavam o Interior raiano e, por extensão,  todo o território apenas uns poucos quilómetros afastado da faixa atlântica. Como se vê, mal antigo que, com o passar do tempo, se foi agravando… 

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   Convida o actual colega a comparar os tempos de 1920 e 2020 (p.293). Pode dizer-se que, no essencial, se passou de um proletariado rural, numeroso e abandonado à sua sorte para a desertificação demográfica e a esterilidade dos campos, como, neste blogue, bem observou o João Pires Antunes, de Penha Garcia.  Certo é que o ideal se encontra no equilíbrio dos extremos, como o anuncia, com veemência evangélica, o P. Adelino Lourenço na homilia das celebrações dos 800 anos da fundação da nobre Villa de Idanha a Nova. “No meio das desordens dos tempos e das confusões sociais, o Senhor Jesus andou por aqui a gritar os direitos e o respeito da pessoa humana” (p.368).

Continuarei pelos inóspitos campos da etimologia na área geográfica do modo de falar raiano. Pouco direi de novo, mas é sempre bom espanejar as preciosidades antigas.

João Lopes